Carta a CF – 3

Francisco Martins Rodrigues

Cartasa CF – 3

14/6/1989

Caro Amigo:

Obrigado pela sua boa carta. Creio que não tem dúvida de que a minha proposta para uma eventual colaboração sua na P.O. não teve outro objectivo do que animar o debate entre revolucionários, para tentarmos sair do impasse a que chegámos (não no terreno da acção de mascas mas no terreno dos programas politicos). Nós na P.O., pelo facto de nos considerarmos marxistas-leninistas, não pretendemos ter respostas feitas para a crise actual. Sabemos sim algumas perguntas a que é necessário encontrar resposta. Já ê alguma coisa…

No que se refere aos movimentos nos países de Leste, sou mais pessimista do que V. Acho que se enquadram num renascimento da democracia burguesa. Pode ser que daqui a uns anos dêem um salto e redescubram a luta pelo socialismo mas, para já…

Após receber a sua carta verifiquei que, por lapso, a encomenda com as revistas já tinha sido enviada para a sua morada. Recebeu-a? Aceite as minhas saudações

Cartas a JC – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a JC – 2

24/5/1987

Camarada J:

Tenho estranhado não ter recebido mais notícias tuas depois da carta que te mandei em 26 de Fevereiro. Não sei se se deve a afazeres da tua vida ou se chegaste a conclusão de que não estás disponível para colaborar ou apoiar o projecto da “Política Operária”.

Na carta anterior perguntava-te se pensavas vir a férias a Portugal e se haveria oportunidade de nos encontrarmos. Esse seria o melhor meio de restabelecermos contacto e trocarmos ideias. Peço que me informes a este respeito e que, de qualquer forma, escrevas umas linhas a dizer como vai a tua vida e perspectivas de actividade.

Mando junto um manifesto que difundimos aqui e que foi noticiado nalguns jornais. Infelizmente a nossa proposta [de frente eleitoral] não se pôde concretizar. Víamos nela uma ocasião de por algumas forças de esquerda a falar na televisão e a dizer umas verdades. Ê claro que da parte da UDP não esperávamos resposta, mas nos outros grupos também houve muito sectarismo e também infiltrações do PCP, que acabou por convidar um desses grupos (Esquerda Revolucionária – trotskista) para as suas listas. Enfim, o velho jogo. De qualquer forma, continuamos a fazer força para afirmar a existência de uma corrente de verdadeira esquerda e ganhar algumas pontas no movimento operário.

Escreve, dá notícias e diz se pensas vir cá nas férias.

Um grande abraço

Cartas a JC – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a LC – 1

26/2/1987

Caro J:

Claro que me lembro de ti e tive grande satisfação em receber a tua carta, por ver que não perdeste o norte, apesar destes anos de pausa, Quando se esteve envolvido na luta de classes, directa e brutal, sem disfarces, como foi o nosso caso no tempo da Pide, é muito difícil iludirmo-nos com histórias sobre a “importância de cada um viver a sua vida”. Viver a nossa vida, plenamente, é trabalhar por virar esta organização social, porque é isso que os tempos pedem. Ninguém pode escolher a época da sua vida e a nossa época tem esse problema em aberto, que lhe havemos de fazer? Se lhe virarmos costas, não nos libertamos de nada, estaremos apenas a desperdiçar a nossa vida. É por isso que eu não sinto a militância comunista como um sacrifício: faço aquilo de que realmente gosto e que me faz sentir vivo. Já há gente demais reduzida ao papel de joguetes cegos do capital, não tenho vontade nenhuma de lhe seguir o exemplo.

É claro que os nossos velhos planos de batalha estavam cheios de erros e isso contribuiu para muitas derrotas e para a actual fase de dispersão. Mas não serve de nada cairmos por isso no pessimismo e na amargura, lamentar “os anos perdidos”, como por aí se faz agora. A revolução é uma longa aprendizagem, não há outra forma de descobrir o caminho.

Se passares os olhos pelos números já publicados da nossa revista, verás as interrogações que nos colocamos e as respostas que procuramos. No eixo de tudo vejo esta ideia: a corrente ML revoltou-se com a passagem dos revisas para o campo da burguesia, mas teve medo de levar a crítica até ao fim e tentou salvar um pouco do compromisso operário-pequeno-burguês, que já vinha muito de trás. Foi um corte a 50%, que tentou combinar as ideias revolucionárias com um bocado da herança reformista. Por isso nos era impossível explicar a União Soviética de Staline, a IC, o maoísmo, a luta de classes em Portugal e no mundo. Por isso nos agarrávamos a citações e fórmulas feitas em vez de olharmos abertamente o presente e o passado com olhos marxistas. É muito estimulante poder fazê-lo agora. No “Anti-Dimitrov” (… poderá arranjar-to) comecei essa reflexão, que ainda está nos primeiros passos e que prosseguimos na revista.

Já deves saber pelo (…) o que somos: um pequeno grupo de propaganda que procura lançar as bases para um programa comunista e para um partido comunista, combinando a teoria e a prática. Edita- mos a revista, que é o nosso esforço principal, mas também vamos intervindo na acção política e sindical. (Começámos a publicar um pequeno jornal sindical, a “Tribuna Operária”). As condições actuais no nosso país não são nada favoráveis a este esforço, porque o movimento operário está amachucado pela derrota das ilusões de Abril (Povo-MFA) e a pequena burguesia intelectual atravessa uma fase de carreirismo, cinismo e descrença absoluta na classe operária. Mas isto não nos impede de reagrupar um núcleo de vanguarda que passe ao ataque quando a conjuntura mudar e possa formar uma corrente sólida capaz de influir nos acontecimentos.

No plano internacional, não descuramos nenhum contacto com grupos que se orientem num sentido semelhante ao nosso e já temos relações com comunistas dos EUA, Irão, Brasil, França, Itália. Todos fracos como nós, excepto os do Irão, mas todos dispostos a limpar o marxismo-leninismo de lixos reformistas. No que se refere à OCML de França, estamos interessados em conhecer melhor as suas análises e o seu percurso e encaramos a hipótese de uma deslocação minha a Paris para um debate organizado. Vamos estudar esses números da “Cause du Communisme” que mos envias, só conhecemos o “Partisan”, que recebemos regularmente.

Inteiramente de acordo em que publiquem artigos traduzidos da “PO”, o que aliás já lhes propusemos. Podes pois dar-lhes a tradução que fizeste para que eles corrijam a ortografia e mesmo suprimam partes que lhes pareçam de menos interesse para o leitor francês. Seguem junto as notas que pediste[i]. Publicámos no nº 8 da “PO” uma tradução condensada de um artigo do “Partisan”, seria bom mostrar-lhes. Mais importante que tudo: gostaria que te informasses junto do MV sobre o que é a OCPO, que criámos há cerca de dois anos e que nos dissesses em que aspectos estás interessado em colaborar. Ele pode dar-te diversos documentos, para teres uma ideia do que pretendemos e como funcionamos. Conheces “Para a história de uma cisão”? Ê um conjunto de cartas de diversos camaradas em que estão resumidas as razões da nossa ruptura com o PC(R). Também lhe podes pedir o Manifesto inicial da OCPO e outros documentos.

Para além da nossa correspondência, que espero se mantenha, seria muito bom termos uma discussão directa. Como a minha ida a Paris está por enquanto indefinida, seria muito bom se pudesses vir cá (em Junho seria o ideal). Diz-me como pensas que poderás colaborar na nossa actividade.

Uma forma de apoiares a revista, além da tradução de artigos, será enviares-nos algumas colaborações ou materiais para artigos, fazeres uma assinatura, angariares assinantes. Lutamos com grandes dificuldades financeiras, como calculas.

E por agora é tudo. Fico à espera de notícias tuas. Aceita um abraço do camarada

[i] NOTAS

Carlos Brito – líder parlamentar do PCP revisionista.

FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) – grupo clandestino inspi rado nas ideias do “poder popular de base” que nos últimos 6 anos praticou uma série de atentados contra capitalistas, latifundiários, contra a NATO, etc. Desmantelado pela polícia, os seus activistas estão e ser julgados como “terroristas”, junta- mente com Otelo Saraiva de Carvalho, acusado de ser o “mentor” da organização.

ORA (Organização Revolução Armada) – grupo dissidente das FP-25 surgido em 1986 e que pretende dar continuidade às acções armadas “excitativas”.

SIS (Serviço de Informações de Segurança) – embrião de uma nova polícia política, que tem na chefia um colaborador da antiga PIDE de Salazar.

FAP (Frente de Acção Popular) – primeiro grupo maoista surgido em Portugal em 1964, de tendência guerrilheirista. Destruído pela polícia em 1966.

LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária) – grupo armado surgido em 1968, liderado por socialistas radicais. Dissolveu-se algum tempo depois do 25 de Abril.

ARA (Acção Revolucionária Armada) – destacamento criado pelo PCP em 1970, levou a cabo atentados e sabotagens à guerra colonial.

BR (Brigadas Revolucionárias) – braço armado do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), de tendência anarquizante, actuaram no início dos anos 70.

 

[1] NOTAS

Carlos Brito – líder parlamentar do PCP revisionista.

FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) – grupo clandestino inspi rado nas ideias do “poder popular de base” que nos últimos 6 anos praticou uma série de atentados contra capitalistas, latifundiários, contra a NATO, etc. Desmantelado pela polícia, os seus activistas estão e ser julgados como “terroristas”, junta- mente com Otelo Saraiva de Carvalho, acusado de ser o “mentor” da organização.

ORA (Organização Revolução Armada) – grupo dissidente das FP-25 surgido em 1986 e que pretende dar continuidade às acções armadas “excitativas”.

SIS (Serviço de Informações de Segurança) – embrião de uma nova polícia política, que tem na chefia um colaborador da antiga PIDE de Salazar.

FAP (Frente de Acção Popular) – primeiro grupo maoista surgido em Portugal em 1964, de tendência guerrilheirista. Destruído pela polícia em 1966.

LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária) – grupo armado surgido em 1968, liderado por socialistas radicais. Dissolveu-se algum tempo depois do 25 de Abril.

ARA (Acção Revolucionária Armada) – destacamento criado pelo PCP em 1970, levou a cabo atentados e sabotagens à guerra colonial.

BR (Brigadas Revolucionárias) – braço armado do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), de tendência anarquizante, actuaram no início dos anos 70.

 

Carta a PA (7)

Francisco Martins Rodrigues

Cartas a PA – 7

6/3/1987

 Caro Camarada:

Recebemos a tua carta, assim como o manifesto do Revolutionary Communist Group, que agradecemos. Ficámos decepcionados, porque é um grupo muito pró-soviético. Tínhamos esperança que houvesse algum novo grupo marxista-leninista revolucionário por aí, mas ainda não é desta…

As tuas dúvidas e preocupações perante a linha de orientação da “PO” são naturais mas parece-nos que resultam de um erro de base da tua parte: receias que se critique aquilo que, apesar de tudo, ainda aparece mais à esquerda. Mas talvez não tenhas em conta que, sem essa crítica às inconsequências da chamada corrente marxista-leninista, não se conseguirá fazer surgir uma corrente de ideias e de acção sólida e ofensiva. A nós parece-nos que o declínio da corrente M-L se tem acentuado nos últimos anos, precisamente porque se proibiu toda a crítica aos erros. Foi por não querermos acabar no oportunismo, como aconteceu à maioria dos antigos dirigentes do PC(R) e como está a acontecer com a UDP, que decidimos investigar as origens do revisionismo. E isso passa obrigatoriamente por uma crítica a Staline. Os Kruchov & Cª não poderiam ter feito o que fizeram na União Soviética e no movimento internacional se o terreno não tivesse sido adubado antes pela política de compromissos de Staline. Vamos continuar a debater o problema, em espírito revolucionário, e esperamos que virás a reconhecer a utilidade do caminho que encetámos.

Sobre a tua vinda aqui: estou ao corrente dos teus problemas, mas supus que já tivesses sido abrangido por uma amnistia e já não houvesse esse impedimento. Não sendo assim, é pena que não possamos discutir de viva voz e confrontar as nossas ideias.

O B encontrou-se aqui comigo há um ano, mas não soube mais notícias dele. Vou escrever-lhe brevemente, até para saber como está de saúde.

Ficamos à espera da “New Left Review”, que nos é útil para compreender a evolução de certas correntes marxistas reformistas. Se tiveres oportunidade de nos enviar qualquer outro jornal ou revista daí, será uma boa ajuda para nós.

Agradecendo os teus votos de bom trabalho, aceita um abraço

 

Cartas a PA – 5

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (5)

25/9/1985

Caro Camarada:

Não respondi mais cedo à tua carta de 20 de Junho porque estava à espera da ocasião para te dar a boa notícia: saiu finalmente (hoje mesmo) o nº 1 da “Política Operária”. Embora esteja ainda longe do que desejamos, é um. passo importante pare o avanço do nosso projecto, Mando em correio separado uns exemplares, para tu veres se consegues arranjar compradores ou assinantes. E espero, claro, que tu próprio te tornes assinante, o que é uma boa forma de apoio.

Fico à espera da tua opinião e sugestões sobre a revista. Espero também que te resolvas a escrever a tua “Carta de Londres”” como te tinha proposto antes, para publicar no nº 2. Deveria estar cá até 10 de Novembro. O tema da carta ficaria ao teu critério, naturalmente: panorama do movimento sindical inglês neste momento, actualidade política, Irlanda, etc. Como poderás ver, o MV já fez umacolaboração para o nº 1.

Agradeço as revistas que mandaste. Se não existir aí algo acessível sobre o movimento operário, parece-me que a única de interesse, apesar da orientação trotskista, é a “New Left Review” e nesse caso poderias fazer-me uma assinatura dela? A dos revisionistas é francamente má, não se aprende ali nada.

Não cheguei a ter notícias do amigo a quem tinhas pedido para entregar aqui as 10 libras. Se te for possível enviar o dinheiro por outra via, seria importante para nós, pois, como calculas, as dificuldades financeiros são muitas. Organizámos uma pequena empresa de artes gráficas e é com o dinheiro dela que vamos sustentar a revista, mas os encargos são pesados, sobretudo enquanto tivermos as prestações das máquinas para pagar.

Quando vires o Brandão dá-lhe as minhas saudações e peço que lhe entregues o “Anti-Dimitrov” e a revista, para ele ver se lhe interessa tornar-se assinante. Se quiser escrever-me, terei muito gosto em responder-lhe. E tu, quando vens cá, nem que seja só de fugida? Gostaria de podermos conversar e veres directamente o andamento dos nossos trabalhos. As nossas actividades cá prosseguem, enfrentando as naturais dificuldades destes tempos. Fizemos sair um manifesto aconselhando a abstenção nas eleições, de que mando cópias. As organizações ML para quem enviamos o nº 1 da revista são as seguintes (ver folha junto). Se quiseres mandar para cá outras moradas que aches de interesse, nós encarregamo-nos de a expedir directamente.

Um grande abraço e fico a espera da Carta de Londres!

Cartas a PA – 2

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (2)

4/1/1985

Camarada:

Estranho não ter ainda recebido resposta tua à minha carta de 22/11. Sei que me telefonaste quando eu não estava e que falaste ao telefone com o R e o V. A Ana mostrou-me o teu cartão de Boas Festas . Calculo que já estejas informado das causas principais que me levaram a abandonar o PC(R), juntamente com mais 40 camaradas. Resumidamente:

– consideramos que o 4º congresso foi muito importante por ter iniciado o corte com uma série de concepções oportunistas que têm anulado as posições revolucionárias do partido e que se exprimiram nomeadamente na perspectiva do ’’>Governo antifascista e patriótico” (1976),  na “via do 25 de Abril do povo”, na “política  de milhões”, na coligação eleitoral UDP-PSR, no apagamento do partido atrás da UDP, etc. e que deram origem as duas cisões de direita sofridas pelo partido em 1975 e 1982;

– verificámos que o CC do partido não se resolvia a levar à prática a viragem do 4º congresso e, aconselhado por outros partidos, tem continuado a procurar posições intermédias, centristas. Que não permitem um corte efectivo com o oportunismo; desde o 4º congresso, aconselhado por outros partidos, tem continuado a promover posições intermédia, centristas, que não permitem um corte efectivo com o oportunismo; desde o 4º congresso, a direita e o centro aliaram-se para isolar e expulsar a ala esquerda, “culpada” por ter feito triunfar posições de principio no congresso;

– denunciámos a gravidade extrema da situação do partido junto da classe operária (hoje quase não há van guarda operária organizada no PC(R) e Iutámos até ao fim por medidas que reforçassem as células de empresa e a implantação operaria;

– opusemo-nos enquanto pudemos ao abafamento da democracia interna no partido, que tem chegado a abusos inacreditáveis, e dissemos que o CC precisava de destruir o centralismo democrático para prosseguir na política já condenada no congresso;

 – concluímos que o 4º congresso levantou pistas para um balanço crítico profundo à linha do movimento comunista internacional desde o 7º congresso da IC, em 1935, que classificamos como centrista e fonte donde brotou o revisionismo do 20º congresso de PCUS; escrevi um documento sobre o assunto , que foi entregue ao CC antes de me demitir;

– reclamámos um debate interno sobre a política do PTA, o caso Mehmet Shehu, iniciativas da política externa da Albânia que causam estranheza (Turquia, Irão, Strauss, etc.), situação de descalabro da corrente ML internacional e política internacional do PC(R).

Esta luta ocupou-nos cerca de dois anos de debates internos em que respeitamos escrupulosamente as normas e as imposições do CC. Só saímos depois de ter esgotado todas as possibilidades de debate e de

termos recebido, como resposta às nossas críticas o impedimento do debate, acusações de “anarco-trotskismo”, sem nos darem o direito de responder perante o partido, despromoção de todos os “esquerdistas” para a base, marginalização absoluta de todos os camaradas em discordância, calúnias, etc. 0 CC só nos dava como alternativa ou calarmo-nos ou sairmos do partido. Decidimos sair porque estão em jogo questões de princípio, das quais depende a existência futura do Partido Comunista em Portugal. Não foi um passo leviano nem um abandono da luta. Chegamos à conclusão de que o PC(R) não pode já ser posto no caminho revolucionário e que a luta dos comunistas tem que prosseguir de fora, até se tornar possível a reconstituição do partido.

Em 8 de Dezembro, num encontro a que compareceram os 40 camaradas demitidos, decidimos convocar uma Assembleia para constituir um agrupamento comunista, cuja actividade central será a publicação duma revista de crítica marxista-leninista, que lance os alicerces para definir o programa, a estratégia, a táctica e os estatutos do futuro Partido Comunista. £ inevitável um período talvez longo de reagrupamento, de formação de uma corrente de ideias comunistas, que até hoje no. tem faltado e que tem sido a origem dos nossos fracassos. Não estamos dispostos a desviar-nos desta tarefa de propaganda, por muito difícil que seja.

A Comissão Preparatória nomeada no encontro de 8/12 está a preparar projectos dos documentos para aprovação da Assembleia (Manifesto–Programa, Estatutos, plano da revista, balanço da crise do PC(R), etc) c procura reunir todos os meios necessários para a concretização do projecto. Esperamos que a Assembleia possa ter lugar em princípios de Fevereiro.

Para nós, é importante saber o aue pensas tu da situação e deste projecto, se estás disposto a ligar-te a ele e em que termos. Na impossibilidade de te deslocares a Portugal (suponho), vamos enviar-te os documentos à medida que forem elaborados, pera poderes formar uma opinião e dizer-nos c que pensas deles.

Decidimos também editar em livro o documento que entreguei ao CC do PC(R) sobre c 7º congresso da IC. Pode ter uma certa no debate que queremos travar. Mando junto uma folha de subscrição que está a circular. Peço que vejas a possibilidade que tens de contribuir. e eventualmente de angariar outras contribuições. As dificuldades financeiras estão a dificultar-nos muito o avanço rápido que queremos fazer para a edição do livro e da revista.

Mando também uma cópia de uma das cartas que dirigi ao CC do partido antes de sair, para teres uma ideia maio precisa da polémica. E ainda uma fotocópia de artigos saídos na imprensa (há mais, seguem depois). Um abraço

 

Cartas a PA – 1

Francisco Martins Rodrigues

Carta a PA (1)

22/11/1984

Amigo A.

Não tenho recebido notícias tuas e não sei se me conseguiste obter alguns dos livros que te tinha pedido, é natural que as tuas ocupações não te deixem tempo para respirar, mas temos que procurar manter contacto.

Tenho uma novidade que não sei como receberás, saí do PC(R) ontem mesmo, outros camaradas, entre eles o ZB e o JME, antigos dirigentes do partido, também saíram ou foram demitidos. Não foi uma decisão leviana, como calculas, mas fomos forçados a ela pela campanha de perseguições a que vínhamos sendo sujeitos desde há ano e meio. O conflito gira à volta de nós exigirmos que se levasse à prática a viragem à esquerda decidida pelo 4º congresso, de Março 83, e o CC estar a encostar-se cada vez mais aos elementos direitistas. Actualmente, todos os elementos “esquerdistas” estavam metidos em células de base, marginalizados e sujeitos a uma série de ataques. Já não nos davam o mínimo espaço para travar uma luta interna, os atropelos ao centralismo democrático por parte do CC eram diários e, em nome do perigo de fraccionismo, impunham-se as proibições mais absurdas à discussão, mesmo só dentro das células.

Lima das coisas que mais contribuiu para a agudização do conflito era um estudo que tenho andado a fazer sobre o 7º congresso da IC, reavaliando o relatório de Dimitrov e a linha de Staline nos anos 30-50 como fontes donde nasceu o revisionismo. Consegui acabá-lo, com grande dificuldade, e ontem mesmo o entreguei ao CC, para ver se é capaz de o criticar com o mínima de seriedade. É absurdo tentar congelar a crítica rnarxista-leninista em nome dos “princípios”, como vem fazendo o CC. Está a conduzir o PC(R) a um definhamento desastroso, no que têm graves responsabilidades, na minha opinião, o PTA e o PC do Brasil.

Gostaria que lesses o meu estudo e me desses uma opinião. Eu e outros camaradas que se afastaram ou foram afastados neste processo estamos dispostos a dar corpo organizada à nossa corrente de ideias. Somos marxistas-leninistas, queremos um partido comunista em Portugal e não nos resignamos à confusão, impotência e esvaziamento de ideias a que se chegou. A acusação de “anarco-trotskismo” que nos é feita não tem pés nem cabeça.

Gostaria de saber o que pensas disto tudo e se estás disposto a continuar a corresponder-te comigo, Isso depende naturalmente da tua atitude face ao PC(R). Poderias dar opinião sobre o meu estudo e outros materiais que temos em preparação, obteres aí livros e jornais, dares-nos contactos para grupas ou organizações estrangeiras, contactares camaradas da emigração, etc. Duma coisa te posso dar a certeza; vamos fazer um trabalho sério para renovar a corrente marxista-leninista, crítico, revolucionário, e virado para os operários avançados. Vamos fazer um trabalho preparatório para reorganizar o partido comunista no nosso país.

Seja o que for que pensares do sucedido, peço que me escrevas a dar a tua opinião. Se tiveres algum dos livros de que te falei, peço que mo envies. Se pensas vir a Portugal proximamente, gostaria de conversar contigo.

Um abraço