Da FAP à ORA, a busca da insurreição

Francisco Martins Rodrigues

As acções armadas, no Portugal de hoje, são puro desperdício de forças, sintoma de impotência política, variante “explosiva” do oportunismo. Mas alimentam-se na indignação latente do movimento operário contra as canalhices impunes do Capital.

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Marxismo e terrorismo

Francisco Martins Rodrigues

Sob o título “Que dizem os marxistas sobre o terrorismo?”, o jornal Solidaire, do Partido do Trabalho da Bélgica, reuniu, na sua edição de 15 de Dezembro, algumas citações de Marx e de Lenine, para mostrar que ambos condenaram os métodos terroristas de luta. Assim, diz o jornal, será mais fácil separar aquilo que “na luta dos iraquianos e palestinianos deve ser considerado como resistência e o que deve ser considerado como terrorismo”. Vejamos então aquilo que, segundo o Solidaire, Marx e Lenine aprovam e o que não aprovam na luta actual de iraquianos e palestinianos.

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Monsanto

 Francisco Martins Rodrigues

OS JORNAIS desfiam longas listas de provas esmagadoras contra os acusados das FP 25: atentados, assaltos, homicídios, documentos falsos. Dos homens que se sentam no banco dos réus, ninguém consegue distinguir os idealistas dos aventureiros, dos marginais, ou dos provocadores da polícia. De tal maneira que as boas almas que protestavam contra as irregularidades do processo já não sabem o que dizer. Então não era tudo afinal uma cabala monstruosa? Como pôde Otelo meter-se com tal gente?

Em Monsanto, é a derrocada. Os “arrependidos” viram-se do avesso, Otelo mete os pés pelas mãos, os juízes brincam, Eanes espera a sua vez de ir depor como testemunha abonatória do homem que derrubou e prendeu em 75.

No meio desta autópsia macabra ao 25 de Abril, há quem não tenha ainda reparado no passo novo que está a ser franqueado pela nossa jovem democracia. Já tínhamos gestores a ganhar dez salários mínimos, moradores postos na rua com os colchões, reformados a viver de bolachas em cubículos, legiões de pedintes, ladrões e prostitutas, deputados a passear pelas ilhas Hawai à conta do orçamento, generais negociantes de aviões, fascistas respeitáveis. Só nos faltavam os condenados políticos. Vamos passar a tê-los. Que ninguém perca o sono por isso. Os tribunais só condenam quem transgride a lei.

É tão geral a preocupação em repudiar o terrorismo que até o major Tomé veio para os jornais condená-lo “porque dá pretextos à reacção”. Mas esse é o argumento preferido de Álvaro Cunhal há 50 anos!

Pode-se discutir a oportunidade ou a eficácia dos assaltos e atentados numa etapa determinada da luta de classes. Mas não pode quem dirige um partido que se pretende popular e revolucionário como a UDP invocar o argumento de “não dar pretextos à reacção”. Foi entrando nessa lógica que Cunhal concluiu sucessivamente que são de condenar, não só os atentados, mas as manifestações não autorizadas, os piquetes à porta das fábricas em greve ou os cortes de vias férreas: transgridem a lei, logo, dão pretextos à reacção, logo, servem a direita. A reacção tira pretextos de tudo o que não lhe convém, até de acções puramente legais. Deixar-se amarrar por essa chantagem é bom para quem tem vontade de receber atestados de bom comportamento.

O terrorismo em Portugal 85 é mau por uma única razão: não faz avançar a revolução. Suscita a admiração de uns tantos trabalhadores, a condenação da grande maioria, desgasta energias preciosas e não põe ninguém em movimento. O problema com as FP 25 é elas tentarem suster o recuo do movimento operário e popular com a pedagogia da violência quando as massas ainda não entenderam como se podem reagrupar e passar à contra-ofensiva.

Só por isso são erradas. Mas esse erro pesa muito pouco se o pusermos ao lado do estendal de capitulações, renegações, manobras velhacas, corridas ao tacho e batalhas pela legalidade em que se afundaram tantos dos heróis de papelão de Abril.

Entrar no coro contra as FP 25? Não, obrigado. É que, independentemente da estatura duvidosa dos seus protagonistas, as acções das FP 25 exprimem o remorso dos revolucionários por não terem sabido impedir que acontecesse o 25 de Novembro e tudo o que se lhe seguiu. Usam agora o terror com que se devia ter respondido ao terror da direita, há dez anos. São uma autocrítica. E como autocrítica, ainda que tardia e impotente, merecem respeito.

Em Monsanto, o Estado julga e condena, não apenas os comandos das FP 25, mas toda a veleidade de revolta contra a suprema baixeza desta Democracia que destroçou Otelo e elevou Freitas do Amaral a candidato à presidência. É bom que cada um diga se está do lado dos juízes ou dos réus.

Política Operária nº 2, Nov-Dez de 1985