Paixão virtual

nº 103, Jan-Fev 2006

 

 

 

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A esquerda em campanha

Francisco Martins Rodrigues

Não creio que os leitores estejam interessa­dos em apreciações sobre a campanha eleitoral dos partidos do sistema. Fizeram o que lhes compete. Só Durão Barroso merece uma men­ção especial por em Viseu se ter insurgido por a campanha eleitoral estar a ser aproveitada para “fazer agitação política”! Repetiu, sem se dar conta, os raspanetes do defunto Salazar, que também não gostava da “agitação política”. Mas vejamos alguns tópicos da campanha daqueles em que muitos trabalhadores confiam: o PGP e oBE.

Situação caricata na campanha da CDU em Setúbal: depois de ter falado, em Palmeia, para 200 pequenos e médios empresários que se jun­taram para a ouvir, lida Figueiredo deparou-se, à porta da Autoeuropa, com reacções de desin­teresse e frieza dos operários em mudança de turno. Não será tempo de o PCP reconhecer Que errou a vocação?

Para se afirmar como “a esquerda da es­querda”, o BE desdobrou-se em propostas “avançadas”: “Levar para a Europa a coragem social que lhe tem faltado”, “contraporá Euro­pa dos grandes a Europa dos cidadãos”, “rea­brir um verdadeiro processo constituinte, livre e democrático”, “reforço dos poderes do Parla­mento Europeu”, “renúncia à corrida aos ar­mamentos”, “fim das privatizações que subme­tem os serviços públicos ao critério do lucro”, “reconhecimento dos direitos sociais e políti­cos dos imigrantes”, “impostos sobre o capital”, “uma Europa que cuide do ambiente”…

Mas, quanto mais multiplica as reivindica­ções, mais ressalta a grande questão ausente: podem os deputados do PE mudar algo? Ou vão ser figurantes numa farsa? Se a UE, esse megaempreendimento capitalista, não é reformável, como sublinha, com razão um dirigente do BE, João Pascoal, na Ruptura de Maio, a tarefa da esquerda é desmascarar a fraude, ou jogar o jogo com propostas fantasistas?

E depois, há a tropa. Respondendo a um inquérito sobre a força militar da UE, lida Figueiredo disse o mínimo que se poderia exi­gir: “O PCP está preocupado com a crescente militarização da União… com o alinhamento com a NATO e com os EUA… O PCP rejeita uma UE que vise tornar-se um bloco político-militar”. A precaução com que escreveu “que vise tornar-se” (?!) é típica dos panos quentes do PCP. Mas vejamos como responde Miguel Por­tas ao mesmo inquérito: “A defesa ou é comum ou não é. Portugal, ainda que privilegiando uma idealidade europeia de defesa e segurança, não deve aceitar que outros par­tam a União ensaiando uma geometria variável neste domínio. O primado da defesa colectiva e a expressão da identidade civilista da Europa devem ser assumidas igualmente por todos os Estados-membros”. (Transcrevi na íntegra do Público de 2/6). Pelo meio destas tiradas eurocráticas, está perfeitamente expressa a aceitação da “identidade europeia de defesa e segurança”.

Quando Durão desafiou os partidos da opo­sição a declararem se irão trabalhar em con­junto com os eurodeputados da coligação de di­reita “na defesa dos interesses do país”, Carva­lhas não encontrou nada melhor para responder do que lembrar-lhe tolamente “os elogios que Cavaco Silva, Guterres, Deus Pinheiro e vários outros comissários fizeram ao trabalho do PCP”. A tanto chega a ânsia de ser aceite como “res­ponsável”.

Interrogado pelos jornalistas em Salvaterra sobre a perspectiva de Louçã vir a fazer parte de um governo liderado pelo PS, respon­de Miguel Portas: “Isso ainda vem longe, para quê estar já a falar disso?” Não diz que o Bloco não tenciona entrar em qualquer governo PS; pelo contrário, confirma implicitamente o inte­resse em consegui-lo. A meta vai-se aproximan­do…            

Política Operária nº 95, Maio-Junho 2004