Álvaro Cunhal. Uma biografia política

Francisco Martins Rodrigues

Por doloroso que seja para o PCP, foi preciso um dirigente da direita pegar na sua história e trazê-la a público para acabar com o mistério de que tem sido ciosamente ro­deada (Álvaro Cunhal. Uma biografia política, vol. I (1913-1941), José Pacheco Pereira. Ed. Temas e Debates, Lisboa, 1999). A este primeiro volume, dedicado aos anos 30, seguir-se-ão outros dois, já anun­ciados, e não há dúvida de que estamos perante unia obra séria, documentada, que nos revela o mundo da resistência ao fascis­mo português.

O defeito que já tem sido apontado ao trabalho de Pacheco Pereira, de agrupar apontamentos, insuficientemente trabalhados e com desenvolvimentos muito diversos, é neste caso irrelevante; o que avulta é o mé­rito das revelações, a extensa citação de do­cumentos e, sobretudo, a reconstrução das biografias de tantos lutadores, muitos deles ainda hoje ignorados.

A história dos comunistas portugueses nos anos 30 é a de uma luta desesperada quando tudo desaba à sua volta. Instauração do regime fascista, derrota do 18 de Janeiro, sangria do Tarrafal, ascensão do nazismo, desnorteamento táctico com a guinada para as “frentes populares” do VII Congresso da IC, surpresa dos proces­sos de Moscovo, traição de Munique, aniquilamento da República em Espanha, terramoto do pacto germano-soviético, guerra mun­dial… Seria precisa uma excepcional segurança político-ideológica, que o PCP não tinha, para resistir à tempestade. Debilitado pela repressão implacável, o PCP encontrou-se ao mesmo tempo em trincheiras indefensáveis, como a da liquidação dos sindicatos clandestinos, a das concessões aos democratas na pseudofrente popular, ou a da justificação do pacto germano-soviético, e acabou por se esfrangalhar. O PCP que ressurge em 1940 é já de outra natureza social.

Tudo isto emerge do relato, assim como o papel eminente de Cunhal nesta transformação do PCP, de partido proletário de raiz sindicalista em partido “de todo o povo” dedicado à conquista da democracia burguesa.

Não faltam na obra, evidentemente, os habituais preconceitos da direita, e muito típicos de Pacheco Pereira, sobre o comunismo e os comunistas, atingindo as raias do ridículo quando se lança na “psicanálise” de Cunhal. A sua carreira de militante resultaria de uma mentalidade fanática e de uma ambição desmedida, dis­farçada em modéstia. O seu rigor revelaria espírito religioso. Se na juventude Cunhal escolheu o pseudónimo de “Daniel”, está-se mesmo a ver que se julgava o profeta bíblico! Quando afirma que entrou para o partido em 1931 estaria à procura, por meio de uma falsificação, de legitimar o posto de “mais antigo”! Etc.

O autor desvia-se também da objectividade quando, no desejo de fazer a anti-história do partido, atribui méritos excepcionais aos dirigentes “caídos em desgraça”, como Pável, Vasco de Carva­lho ou Armando de Magalhães, e carrega nos traços negativos dos mais prestigiados, como Francisco Miguel ou o próprio Cunhal. Virar de pernas para o ar a história oficial do partido nem sempre é o melhor caminho para chegar à verdade. Pável, por exemplo, se foi vítima, ao que tudo indica, das intrigas tenebrosas das chefias de uma Internacional já então em decomposição, não há dúvida de que levou ao extremo a desastrada aplicação das opor­tunistas directivas do VII Congresso para a entrada nas organiza­ções de massa do fascismo e a defesa das colónias contra os apetites de Hitler, contribuindo para o descalabro do partido.

Em conclusão, e apesar do valor inegável do trabalho realiza­do num terreno ainda por desbravar, faltam em minha opinião a Pacheco Pereira as condições para fazer uma história válida do PCP, capaz de perdurar. Falta-lhe a capacidade de sair para além do ambiente opressivo e conspiratório dos con­flitos pessoais, dos documentos internos e das fichas policiais e palpar o movimento social que empurrou esses milhares de pes­soas a desafiar a ditadura fascista ao longo dos anos 30.

Para P.  P., os comunistas surgem como uma espécie de fanáticos iluminados, “capa­zes dos maiores crimes para impor aos ou­tros a sua verdade”, quase como um caso clínico. Ele não consegue captar o sentimen­to colectivo de rebeldia de gerações de ope­rários e de jovens da pequena burguesia contra o ambiente sufocante e degradante do capitalismo salazarista, galvanizados pela convicção de que um “mundo novo” nascia no Oriente. Essa constatação elementar está-lhe vedada – sobretudo a ele que foi mar­xista na juventude e depois se rendeu à ordem dominante.

Ainda hoje, a história da resistência à ditadura é fogo. Não admira por isso que o trabalho de P.  P. tenha recebido escassas, cautelosas e embaraçadas apreciações: sente-se mal a direita tradi­cional pela inexplicável “propaganda do comunismo” a que Pache­co se entregou; indigna-se o PCP por ele se atrever a tocar em matéria tabu, que acha sua propriedade privada; incomodam-se sobretudo os socialistas e afins, atingidos em cheio por um relato que espelha, página a página, de forma esmagadora, a sua pró­pria inacção durante a ditadura.

Neste aspecto, é digna de antologia a reacção exasperada e rancorosa de António Barreto (na recensão que faz ao livro, na revista do Público de 29/8). Para ele, Pacheco deixou escapar o essencial: “O PCP foi um dos factores da longevidade da ditadura salazarista”, “tudo fez para diminuir as outras forças oposicionis­tas”, “destruiu metodicamente todas as hipóteses de aliança ou de unidade entre anti-salazaristas.” “Mais: a sua tão absurda polí­tica de dependência da URSS acabou por alimentar o anticomunismo de Salazar.” Até o “heroísmo” (entre aspas) e a resistência dos militantes do PCP “também poderão ter sido um obstáculo permanente ao desenvolvimento de uma oposição ao regime sala­zarista”! Conclusão óbvia: não será que “cinquenta anos de insu­cesso das oposições se ficam a dever à ineficácia desta organiza­ção? À maneira deliberada como sempre destruíram qualquer hipótese de acção conjunta, desde que não fossem hegemónicos?”

O PCP culpado da omissão da oposição democrática, o PCP responsável (justamente pela sua luta!) pela longevidade da dita­dura, o PCP causador do anticomunismo de Salazar, o PCP, afinal, é a conclusão implícita de Barreto, foi aliado objectivo do fascismo – eis a tese que vem a calhar para a social-democracia e o republi­canismo se livrarem do fantasma que os persegue: a sua expecta­tiva e vacilação perante a ditadura fascista. Parece monstruoso, e é; mas, no fundo, até está certo: porque não teriam os nossos revisionistas o mesmo direito que os franceses, alemães, etc., a rescrever a história?

Política Operária nº 71, Set-Out 1979

A desforra

Francisco Martins Rodrigues

TUDO COMEÇOU há um ano, com a grande viagem náutica do presidente Soares, em demanda das terras do Oriente, na esteira dos navegadores de Quinhentos. Depois, no 10 de Junho, houve recepção no palácio de Queluz e missa solene nos Jerónimos pelo Cardeal Patriarca. E agora aí temos uma réplica exacta da caravela de Bartolomeu Dias prestes a sulcar a rota do Cabo, excursões histórico-patrióticas a Marrocos para admirar os restos das muralhas gloriosas, e a televisão e a rádio a celebrar diariamente a epopeia humanista e universalista dos Portugueses, “que deram novos mundos ao mundo”.

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Triunfo e derrota de Guevara

Francisco Martins Rodrigues

Contudo, 20 anos passados, a guerrilha inspirada no guevarismo conseguiu triun­far na Nicarágua e, apesar de uma repres­são selvagem, mantém-se invencível na Guatemala, Salvador, Colômbia, Peru… A profecia de Guevara parece em vias de se realizar. Não voltará a haver ordem e segu­rança no quintal dos Estados Unidos.

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Manuel Domingues, espião titista?

(Elementos de história do PCP e da resistência antifascista)

Francisco Martins Rodrigues

Passado quase meio século, muito pouco se sabe acerca da execução sumária do dirigente do PCP Manuel Domingues, acusado de estar ao serviço da PIDE. Talvez o clima da “guerra fria” dê pistas para a solução do mistério.

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