Cartas a HN

 Francisco Martins Rodrigues

Carta a HN (1)

6/2/1998

Exmo Senhor:

Foi-me completamente impossível corresponder ao seu amável convite para estar presente no lançamento do seu livro[i] e espero que me desculpe por só agora responder ao seu cartão. Não vi até agora na imprensa de Lisboa referências ao seu trabalho, o que de resto não é de estranhar, dados os critérios e os gostos em vigor. Se entender enviar-me um exemplar para recensão na “Política Operária”, terei muito gosto em dar a conhecer o seu livro.

Sem outro assunto e na expectativa de uma outra oportunidade para nos encontrarmos, envio as minhas cordiais saudaçôes.

Carta a HN (2)

24/2/1998

Caro Amigo:

Agradeço o envio dos seus livros, que já estou a ler com interesse e de que farei recensão na próxima P.O., a sair em princípio de Abril. Verifico pela sua carta que tem em prepara­ção um novo livro sobre o 18 de Janeiro para o próximo ano e que procura materiais relativos à Marinha Grande. Contudo, pela bibliografia referida no fim do seu livro, vejo que consultou prati­camente todos os livros que conheço relativos ao assunto. Poderei talvez conseguir-lhe alguns artigos ou documentos internos, de carácter mais ideológico e de menor valor histórico. Um exem­plo é um artigo que publiquei na Política Operária há anos e que aqui lhe envio com muito gosto. Se entretanto encontrar outros, prometo enviar-lhe fotocópia. Ocorre-me também o livro de Gil­berto de Oliveira Memória viva do Tarrafal, das edições Avante, que faz referência a vários depor­tados da Marinha Grande, António Guerra, etc., e que não vejo mencionado na sua bibliografia. Se estiver interessado, poderei emprestar-lho.

Quando se lhe proporcionar vir a Lisboa, terei muito gosto em encontrar-me consi­go para trocarmos impressões. O meu contacto, além do que vai indicado no cabeçalho, pode ser pelo telefone (…). Sem mais por agora, envio cordiais cumprimentos

Carta a HN (3)

9/2/2002

Caro Amigo:

Estou a responder às suas duas últimas cartas, pedindo desde já desculpa pelo atraso. Registámos a sua assinatura e mando-lhe aqui junto os nº 63 e 64 da revista. Quanto aos números atrasados, temos todos excepto o nº 1. Poderíamos fornecer-lhos se estivesse interessado.

No que se refere à hipótese de colaboração sua, nomeadamente sobre a situação do operariado da Marinha Grande, posso desde já dizer-lhe que nos agradaria muito. Como talvez já tenha notado, a revista inclui sempre artigos enviados por leitores. Preocupa-nos apenas que tenham uma índole de denúncia do capitalismo. Como também decerto compreende, sendo uma revista de tipo militante, não comercial, não nos é possível retribuir monetariamente a colaboração. Posto isto, se tiver notícias, comentários, entrevistas, nomeadamente a respeito da situação do operariado da Marinha Grande, teremos gosto em publicá-las.

Faço votos pelo progresso do seu trabalho de investigação de história do movimento, que me parece escrupuloso. Gostaria de poder fazer o mesmo, mas as limitações da minha vida não mo permitem. Duas notas sobre o caso António Guerra:

Sobre a data da fuga de António Guerra — Procurei no Avante desses anos qualquer referência a essa fuga mas não encontrei nada. O meu único ponto de referência foi o testemunho de Joaquim Campino, que cita no seu folheto “18 de Janeiro Rostos”. Campino foi para Peniche em 1947, segundo diz ali. Durante esse ano falou com Guerra sobre a necessidade de “acabar com a paz podre” que ali se vivia, com o que este não concordou. “Mais tarde — escreve — “aproveitando aquele afrouxamento de vigilância, o António Guerra… tentou evadir-se”. Isto levou-me a situar a data da tentativa de fuga em começos de 1948, E uma data aproximada, reconheço, mas que permite excluir, penso, essa informação de que tivesse sido em 1946. Não concorda?

Quanto aos outros nomes que cita que teriam participado na fuga, nada sei.

Sobre a saúde de Guerra Não referi no meu artigo a informação de que ele sofreria de distúrbios mentais. A ficha prisional refere uma passagem de poucos dias pelo Hospital Júlio de Matos, após a vinda do Tarrafal, o que só por si não basta para pensar que ele tivesse perturbações mentais, a não ser que haja outras informações. Poderia vir em greve da fome, por exemplo, o que, sei por outros casos, era motivo para o preso ser levado pela Pide ao Júlio de Matos para ser alimentado à força. Terá sido esse o caso? Quais eram os padecimentos de Guerra para além da perda de visão? A rapidez da sua morte depois de regressar ao campo de concentração sugere que o seu estado de saúde estaria bastante debilitado, mas poderia não ser mais do que isso. Muitos outros foram ceifados em pouco tempo pelas febres.

Fico a aguardar as suas notícias. Caso tenha colaboração para o nº 66, que só sai em começos de Outubro (paramos sempre nas férias), peço-lhe que a faça chegar até 15-20 de Setembro. Aceite as minhas saudações

Carta a HN (4)

8/7/1998

Caro Amigo:

Agradeço o artigo que me enviou sobre o 18 de Janeiro. Este ano não preparámos nada na PO para assinalar a data. Se a revista não estivesse já na tipografia ainda poderíamos ter posto algo a partir do seu artigo mas recebi-o demasiado tarde. Vai receber a PO dentro de dias e espero que continue a interessar-lhe. Suponho que terá rçcebido a proposta de renovação da sua assinatura, visto que esta caducou no n° 79, há já bastantes meses. Em todo o caso, mando-lhe aqui um novo boletim.

Conto sempre com as suas notícias e informações para enriquecer a revista.

Um abraço

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[i] Hermínio Nunes, “Augusto Costa, um vidreiro no Tarrafal. Memórias do 18 de Janeiro de 1934, na Marinha Grande”. (Nota de AB).

A ruptura com o PCP em 1964-1965 (2)

Francisco Martins Rodrigues

A ruptura com o PCP em 1964-1965 (2)

A saída do capitalismo só pode ser encontrada pelo proletariado

A crítica de 1964 pôs o dedo na ferida do reformismo que submetia o proletariado à burguesia liberal, em nome das exigências do antifascismo. Faltou-lhe muito, porém, para ser uma plataforma comunista coerente e essa falta esteve na origem dos problemas que levaram o movimento nascente dos marxistas-leninistas a desagregar-se, duas décadas mais tarde. Continuar a ler

O período dos grupos

Francisco Martins Rodrigues

[i]O período dos grupos[ii]

A partir de 1968, passado o marasmo que se seguiu a destruição da FAF, a influência da “revolução cultural” chinesa, dos movimen­tos de libertação e guevaristas, dos movimentos radicais na Europa, da reanimação da oposição sob o marcelismo (campanha eleitoral da CDE em 1969) provocou a multiplicação de grupos maoístas entre os estudantes avançados que descobriam o reformismo do PCP.

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O corte com o PCP

Francisco Martins Rodrigues

O CORTE COM O PCP [1]

1 – A apreciação do PC(R) sobre os grupos ML só ressaltou os seus aspectos negativos. Para abater os laços grupistas, as barreiras de desconfiança entre os membros dos diferentes grupos e e autori­dade dos seus chefes, apresentou-se esse período como uma aberra­ção pequeno-burguesa. O partido não precisa de denegrir os grupos para se elevar.

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