Cuba entregue às feras

Francisco Martins Rodrigues

Tomada de pânico, a nossa esquerda parlamentar deu um espectáculo indecente de cobardia, na ânsia de demonstrar que não concilia com as “violações da democracia e dos direitos humanos.”

A nossa direita não precisou de fazer grande alarido com as recentes condenações a execuções em Cuba; a esquerda encarregou-se disso. Saramago exclamou desabrido que “já basta!”. O grupo parlamentar do PCP aprovou um atarantado apelo de moderação a Fidel Castro. O Bloco tornou clara a sua “consternação e frontal oposição à prisão e perseguição de opositores políticos”. O Combate do PSR transcreveu a lamentável carta aberta de Galeano. Mais papistas que o Papa (os recém-convertidos são sempre os mais fanáticos), a UDP fez o ataque mais virulento: “Cuba fragiliza‑se perante o mundo, dá argumentos a Bush”, “acaba por ajudar os Estados Unidos e os reaccionários de todo o mundo” (!?), “os actos do poder cubano contribuem para a rejeição do socialismo”, “autismo e estupidez de uma política medíocre”… (A Comuna).

E, no entanto, qualquer observador isento considerará justificada a reacção do governo cubano, tendo em conta que estava em marcha uma escalada de actos de pirataria aérea e marítima teleguiados a partir de Miami e que o facto de surgirem em sintonia com a “operação Iraque” fazia prever uma provocação imperialista com vista a uma invasão de surpresa. Mas nada disto chegou para travar o pânico indecente da nossa esquerda parlamentar, ansiosa por demonstrar que não concilia com as “violações da democracia e dos direitos humanos”. Foi um grosseiro passo em falso, mas nem outra coisa era de esperar. Neste mundo pós‑11 de Setembro, o pavor perante tudo o que possa “dar argumentos à reacção” leva às capitulações mais cobardes.

Argumentam usualmente os ideólogos desta corrente que “a esquerda, para ter autoridade para condenar os crimes do imperialismo, tem que condenar por igual os crimes dos regimes que se lhe opõem”. É uma escapatória jesuítica. Pôr no mesmo prato da balança os genocídios imperiais dos EUA e os actos de defesa dos pequenos países atacados equivale, na prática, a exigir a estes a rendição incondicional.

Não temos dúvida de que muita coisa vai mal com Cuba, mas não seremos nós a condenar a repressão de uns quantos reaccionários. Efectivamente, a pergunta tem que se colocar: nesta época de ferozes massacres imperialistas, porque deverá um regime assediado e ameaçado há quase meio século pelo gigante ianque ter menos direitos que qualquer outro de se defender e afastar o risco de invasão, inclusive executando uns tantos mercenários e conspiradores?

No fundo, estes “amigos da Revolução Cubana” estão dispostos a apoiar Cuba desde que o seu governo não saia do papel de cordeiro inofensivo, respeitador rigoroso dos direitos democráticos dos seus inimigos. Ou seja: apoiam a existência de Cuba apenas como testemunho inerme da malvadez do imperialismo; concordam com a luta anti‑imperialista desde que se atenha aos sacrossantos princípios da moderação.

Aconselhar Cuba a “impor‑se pela grandeza da sua tolerância”, como reclama Galeano, ou a “permitir a legalização de partidos, enfrentando abertamente o combate politico”, como quer parvamente a UDP, é, muito concretamente, colaborar na pressão internacional para liquidar a resistência cubana ao imperialismo. Se não, porque teria ganho Saramago, dum dia para o outro, os elogios da direita? (“O nosso prémio Nobel ergueu a voz corajosamente”, etc.). A mensagem é claríssima: todos os que ajudem a deitar abaixo o regime de Cuba são úteis à “batalha pela liberdade” ‑ o sinistro slogan da pandilha Bush.

Este triste episódio é elucidativo também do valor das elucubrações “marxistas” dos dirigentes do PCP. Ao longo dos anos, alimentaram o mito indefensável de um “socialismo” cubano; acolheram com a máxima compreensão e indulgência a burocratização do regime, o esvaziamento do “poder popular”, as concessões ao capitalismo internacional. Os seus pruridos despertam apenas quando este regime em estado de sítio procura sobreviver reprimindo opositores mandatados pelo imperialismo. Muito cruamente: não os incomoda que o regime cubano ofenda as massas; só levantam a voz quando ele ofende o imperialismo.

Censuravam a nossa falta de solidariedade com o “socialismo cubano” mas agora, na hora da verdade, quando se trata simplesmente de apoiar um pequeno país (não decerto socialista, mas com tanto direito à existência como qualquer outro) ameaçado pelos B-52 ianques, juntam‑se ao coro da burguesia.

Pela nossa parte, nunca alinhámos no campo dos entusiastas do “socialismo” cubano e dos seus métodos de governo. Nunca alimentámos ilusões absurdas sobre esse regime, fruto de uma grande revolução popular que não pôde ir além dos marcos do capitalismo nacional. Isso, todavia, não nos impede de defender o direito de Cuba à independência, de aplaudir a sua resistência exemplar às maquinações do imperialismo, e de denunciar com desprezo a campanha que execra o governo de Cuba como “regime ditatorial e opressor que não respeita os direitos humanos”. Ditatoriais, opressores e violadores dos direitos humanos numa escala como até hoje a humanidade nunca conhecera são os imperialistas. Eis o que deveriam ter dito o PCP, o BE e a UDP, se não estivessem tão ansiosos por ser aceites no clube “democrático”.

(Publicado no número 90 da revista Política Operária, Jan-Fev 2003, e no livro O Comunismo que aí vem, Compostela, Abrente Editora, 2004)

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