O adeus da extrema-esquerda

Entrevista a Francisco Martins Rodrigues

Publicamos nesta edição de sábado [26 de Fevereiro de 2005] uma entrevista com Francisco Martins Rodrigues, o ideólogo e construtor da extrema-esquerda leninista e maoísta entre nós.

Publicamos também uma síntese histórica da génese deste movimento que, a partir da década de 60, na sequência do cisma sino-soviético, alastrou por toda a Europa. Muitas das questões eram bizantinas e quase todos estes grupúsculos queriam matar o pai: o PCP, reformista para uns, revisionista para outros. Mas a importância da extrema-esquerda em Portugal, que se dissolve no próximo fim-de-semana com a desistência como partido do seu último bastião, a UDP, está ainda por estudar, se pensarmos que foi aí que muitos dos actuais dirigentes beberam os seus primeiros conhecimentos políticos, jovens militantes que optaram por caminhos vários.

Francisco Martins Rodrigues é uma espécie de mito activo, a viver com uma reforma mínima, já bisavô, tipógrafo durante muitos anos, quase sempre militante de base, em expiação pelo porte na polícia após torturas muitas que o marcaram para sempre.

Muitas vezes foi humilhado e resistiu. Jovens saltitões que nunca foram tocados sequer por um sopro policial arrogaram-se em inquisidores. Condenaram-no e ele manteve-se inocente, enquanto os seus juízes traíram as causas por que o queriam condenar. Podia ter sido muito e apenas se limitou a uma referência. Uma referência única no campo anti-sistémico português. É o nosso último revolucionário, o último a resistir ao sistema, no que isso tem de sedutor; mas também de utópico. Os seus colegas de viagem e luta, alguns são deputados, quase todos eles bem colocados na vida, professores universitários, cultores prósperos de profissões liberais. Mas não se nota em Francisco Martins ressentimento algum.

Não se considera humanista porque ainda se acredita revolucionário. Os «enragés» foram seduzidos pelo sistema. Da revolução ficou-lhes a metáfora, para os mais nostálgicos; a retórica, para os mais oportunistas.

A UDP durante anos foi um viveiro de quadros distribuídos hoje por todos os sectores da vida portuguesa, desde a Comunicação Social, ao Governo, à magistratura e às universidades. Foi uma escola que muito deve a um professor: Francisco Martins Rodrigues, o homem que abateu um pide infiltrado que denunciara um camarada seu e que nunca teve direito, nem terá por certo, a uma Ordem da Liberdade.

Francisco Martins Rodrigues terá feito mais por este país do que muitas outras personalidades, sem existência que não a efémera, produto da espuma dos dias, já condecorados pelos vários presidentes de República.

Com a extinção da UDP como partido político fecha-se um cicio da vida portuguesa, o fim de algumas ilusões e a consciência de que o tempo é contrário a revoluções e que não há quem as tente, que a ideologia se afunilou e a sociedade de mercado ganhou a guerra, pelo menos pelos próximos tempos.

Afirma Francisco Rodrigues que nunca houve um país socialista. Então o que é que houve e em que milhões e milhões de pessoas acreditaram e pelo qual muitos e muitos morreram? – Chega-se ao fim de uma etapa, e uma mão-cheia de areia é tudo o que resta de tantos sonhos, sacrifícios e noites mal dormidas?

Rogério Rodrigues

É esta a entrevista a um homem que leva mais de meio século de luta, que já é bisavô, que nunca desejou cargos políticos ou partidários, que ficou marcado pela sua passagem pelas torturas da PIDE, mas que se mantém fiel a si mesmo e ao seu ideário. Não se considera um humanista; antes um revolucionário.

Uma entrevista obrigatória quando o último reduto da extrema-esquerda, a UDP, de que ele foi um ideólogo, vai fechar para uma reflexão sistémica.

ENTREVISTA DE ROGÉRIO RODRIGUES E PEDRO MARQUES

FOTOS DE PEDRO LOPES

– Como nasceu para o PCP? É por ser alentejano ou por outras razões?

– Nasci para o PC através de um irmão que foi preso por causa de escrever numa parede «Morra Salazar», no fim da guerra. Fui visitá-lo à cadeia, ele foi condenado, e tudo isso despertou-me bastante. Então comecei a falar com jovens. Isto não tem nada a ver com o Alentejo, passa-se tudo em Lisboa. Acabei por ser ligado ao MUD Juvenil, que era a primeira fase obrigatória, porque não se entrava logo de caras no PC.

– No MUD Juvenil quem é que conheceu?

– Lembro-me do Carlos Costa, do Domingos Abrantes, do Ilídio Esteves, do João Pulido, do Pedro Ramos de Almeida, do Mário Casquilho…

– Quem é que o levou para o PC?

– No MUD Juvenil evidentemente havia os militantes do PC que estavam como membros legais a «deitar o olho». Fui abordado por um membro do PC, um africano, Vasco Cabral, guineense, grande activista do MUD Juvenil. Como membro do Partido, passei a ter também reuniões clandestinas numa célula do partido dedicada às actividades dos jovens contra a guerra, em defesa dos presos políticos, etc.

– Lembra-se quando conheceu Álvaro Cunhal?

– Só o conheci na cadeia. Eu entrei para o MUD Juvenil em 1949, já depois de o Cunhal estar preso. Fui preso várias vezes no MUD Juvenil, tudo prisões curtas de dois ou três meses, sem julgamentos e sem condenações. Era um bocado o ‘tirocínio’, para depois passar a coisas maiores. Em 1954 passo para a clandestinidade. Eu namorava uma rapariga do MUD Juvenil que também já tinha estado presa duas vezes, e então o Jaime Serra vem falar connosco e convidou-nos para ir para a clandestinidade. Convinha não ir sozinho para dar um aspecto mais normal, para a vizinhança não achar esquisito um homem só. Portanto casámos e passámos para a. clandestinidade em Outubro de 1954.

Comecei a desempenhar actividades na região de Lisboa como funcionário do PC, no sector da juventude, no sector intelectual, no Comité local, numa tipografia clandestina, com a minha companheira, Fernanda Alves, mais a Fernanda Tomás, o Joaquim Carreira e a Albina Pato. Fomos presos, eu e a minha companheira, em princípios de 1957.

– Esteve preso quantos anos?

– Aí já fui condenado a três anos e «medidas de segurança»: depois de acabar a pena continuava-se preso. Primeiro estive no Aljube, depois em Caxias, depois fui para Peniche 1958, em plena campanha do Humberto Delgado. Aparece lá então o Álvaro Cunhal, em finais de 1958. Ele tinha estado nove anos isolado na Penitenciária. Foi aí que o conheci, no pavilhão C, onde estavam a maior parte dos dirigentes: o Jaime Serra, o Joaquim Gomes dos Santos, o Pedro Soares o Francisco Miguel, o Guilherme de Carvalho… .

– O Álvaro Cunhal contactava com todos?

– Claro. Ele estava numa cela diferente da nossa, um pouco maior, e tinha autorização para receber livros e outras coisas, que a nós não nos eram permitidas. Fazia estudos sobre a questão agrária, sobre idade média e, à socapa, foi escrevendo o romance, o Até Amanhã, Camaradas. Do romance só soube depois da fuga de Janeiro de 1960.

– É aqui, quando sai, que é convidado para o Comité Central?

– Exactamente. Depois de voltarmos à clandestinidade eu fui novamente para outra tipografia do partido onde estive quase um ano. Não era a minha profissão mas aprendi. Como as polícias estavam todas mobilizadas para apanhar os fugitivos, fomos postos todos em tarefas que não eram de organização para não nos expormos tanto. Depois da tipografia, fui para o Comité local de Lisboa.

Em Maio de 1961, na altura da grande vassourada contra o desvio de direita e do afastamento do Fogaça, fui cooptado para o Comité Central. Foi o Carlos Costa quem me disse que tinha passado a ser membro suplente.

Mas em fins de 1961 há uma grande onda de prisões, do Pires Jorge, Octávio Pato, Américo de Sousa, em que num dia são presos quase todos os membros da cabeça do partido; segundo parece, a PIDE tinha localizado os carros em que andavam, através das matrículas falsas. O partido levou um golpe tremendo. O Dias Lourenço, que estava no estrangeiro, vem para Portugal compor as coisas e foi quando me disse que eu tinha de ir para a Comissão Executiva devido a esta situação. Eu pus objecções porque não me achava com competência para tanto, mas teve de ser. Formou-se então essa Comissão Executiva com o Blanqui Teixeira, que era do Secretariado e o verdadeiro elemento forte, assessorado por mim e pelo Alexandre Castanheira, que também foi chamado do estrangeiro. Estive uns meses nessa Comissão.

Mas desde que tinha saído da cadeia andava a enviar cartas ao Comité Central em que levantava problemas sobre a linha do partido. Eles não respondiam às cartas e aquilo foi-se agravando e aquecendo. Então, o Álvaro Cunhal mandou dizer que eu fosse ao estrangeiro para discutir comigo porque eu estava com muitas incompreensões. Portanto eu fui para fora.

– Durante o conflito sino-soviético?

– Sim, e essa era uma das discordâncias. Passámos clandestinamente, com outros membros, por Chaves. Do outro lado já estava um carro com militantes legais. Deram-nos passaportes falsos e seguimos viagem já legalizados. Paris, Praga, e depois Moscovo. Em Moscovo tivemos uma reunião do Comité Central, em que eu informei das actividades da Comissão Executiva.

Depois houve uma parte para discutir as divergências, entre elas o conflito sino-soviético, em que eu dizia que os chineses tinham razão nas suas críticas. Mas não era só isso; eu criticava a posição recuada do partido no início da guerra colonial (tinham medo de se isolar dos democratas da Oposição); defendia a necessidade de ganhar os camponeses e não as classes médias para a luta contra a ditadura, passar a métodos de violência, etc. Aí acusei o Álvaro Cunhal de ser oportunista. A discussão aqueceu e foi decidido que eu saía da Comissão Executiva e ficava apenas como membro do Comité Central. Ainda deliberaram se eu devia ficar em Moscovo a assessorar o Álvaro Cunhal, que tinha muito trabalho. Felizmente o Cunhal recusou. Decidiram que eu ia para Paris.

Mal lá cheguei, abandonei o Partido e trouxe comigo os arquivos e a máquina de escrever que me estavam distribuídos. Lançaram um comunicado a dizer que eu tinha roubado uma máquina de escrever! Um mês depois ainda vieram falar-me para eu voltar, que eu podia ir para Praga e que traziam a minha companheira que tinha ficado em Portugal clandestinamente (nesta altura já tínhamos dois filhos). Isto para evitar que eu saísse a público com críticas. Mas eu não estava interessado nisso e comecei a contactar com pessoas em Paris, pessoas do partido, sobretudo jovens, desertores da guerra colonial, que estavam descontentes com a linha do partido.

– Cria então o primeiro movimento maoísta em Portugal?

– Formámos a FAP, Frente de Acção Popular, em Paris em Janeiro de 1964 e, passados três meses, o Comité Marxista-Leninista. Começámos a publicar uma revista. Daí viemos para Portugal, não queríamos ficar em Paris a criticar o Partido. Primeiro veio o Pulido Valente, mas o Avante! publicou uma nota a denunciar a presença dele em Portugal. O Pulido volta então de novo para Paris e em meados de 1965 lá viemos três clandestinamente, o Pulido, eu e o d’Espiney, mas separados uns dos outros, claro.

– É nessa altura que se dá o caso da morte do Mateus?

– Isso foi depois de o Pulido ser preso pela PIDE. Um dos elementos que o Pulido contactou aqui era esse Mateus, que era membro do partido mas que também estava a trabalhar para a PIDE. Já havia sido preso e tinha saído com o compromisso de informar a PIDE. Quando o Pulido foi ter um encontro com ele, a PIDE estava à espera e prendeu-o. Através de mensagens que o Pulido enviou da cadeia percebemos que o Mateus o tinha denunciado.

Investigámos e conseguimos levar o Mateus para o pinhal de Belas, onde o interrogámos, e ele confessou. Já tínhamos deliberado que se tivéssemos a certeza o executávamos. A PIDE tinha muitos espiões infiltrados, sobretudo em Lisboa, e nunca lhes acontecia nada, o que criava um clima de desmoralização. Demos-lhe uns tiros e fizemos um comunicado da FAP anunciando a execução de um informador da PIDE.

– Quando são então de novo presos?

– Passados um mês e meio, dois meses. Não tínhamos apoios suficientes para nos mantermos na clandestinidade, de mais a mais com a PIDE toda atrás de nós depois de aparecer o corpo do informador. Começaram a prender todos os que estavam referenciados como da FAP. Fui preso em fins de Janeiro de 1966. Pancadaria, tortura de sono, interrogatórios, o costume. Só fui a tribunal passados quatro anos. Fizeram-nos dois julgamentos: um político e outro por crime comum. Apanhei 19 anos de prisão. Fui então para Peniche.

– Como foi a relação com outros membros do PC que estavam também lá?

– Inicialmente havia alguns elementos do PC no nosso pavilhão, mas começou a haver conflitos e os guardas separaram-nos. Passou então a haver dois pavilhões, nosso só de presos de extrema-esquerda e alguns coloniais.

Quando se dá o 25 de Abril, os membros do PC saem sem querer saber da nossa situação. Ora, o oficial do MFA que entra na prisão trazia ordens do Spínola dizendo que três presos (eu era um deles) não podiam sair porque tinha “crimes de sangue”. Teríamos de ir para o Forte da Trafaria. Aí fizemos um plenário dos presos da extrema-esquerda em que foi decidido que ou saiam todos ou não saía ninguém. Depois de negociações e telefonemas para Lisboa, lá saímos todos, já na madrugada do dia 27.

– Como é que foi o recomeço da sua vida? Ainda não tinha visto os seus?

– A minha família levava os miúdos à cadeia de vez em quando. A minha companheira já tinha saído da clandestinidade, porque os dirigentes do Partido disseram-lhe que, para ficar na clandestinidade, tinha que cortar comigo. Bem, assim que saí no 25 de Abril,  comecei novamente como funcionário da nova organização ML.

Porque é que nunca quis cargos de direcção ou não exerceu qualquer cargo, como deputado?

–  Deputado não é para mim… Mas, de início, fui da direcção do PC(R).

Quais eram, objectivamente, as suas divergências de pensamento com Diógenes Arruda?

– A questão inicial não foi de divergência política. Havia uma norma no PC(R) de que todos aqueles que não tivessem tido um porte irrepreensível quando presos não deveriam ocupar lugares de direcção Foi por isso que passei para tarefas técnicas, com o que aliás concordei.

– Não foi doloroso?

– Embora essa norma fosse utilizada pelo Diógenes Arruda para manobras, penso tinha a sua razão de ser. As minhas divergências e de outros militantes com a direcção do PC(R) começaram mais tarde, por causa dos contornos tenebrosos que estava a tomar a situação na Albânia, por causa da questão Staline, que era proibido discutir, e pelas restrições ao debate interno, em nome da disciplina partidária. Parecia que era um partido ainda na clandestinidade, não se podia falar fora das reuniões, enfim, um ambiente doentio. Saímos portanto um grupo de uns 40 em 1983.

– Formou a Política Operária a seguir?

-Lançámos a revista, vai fazer 20 anos, para afirmar uma corrente marxista revolucionária. É verdade que, como grupo político, não tivemos progresso; temo-nos mantido como um grupo de propaganda comunista.

— Como vê depois de todos estes anos a ascensão, declínio e queda da extrema-esquerda, nomeadamente com o fim da UDP, o último reduto?

— Foi um ciclo, que teve princípio, meio e fim; mas haverá mais ciclos. Isso já aconteceu no passado. Esse ciclo foi todo formado em torno do modelo e da experiência da União Soviética. À medida que a União Soviética degenerou e chegou ao ponto a que chegou, era fatal que toda essa corrente caísse, porque não havia distanciamento crítico nem independência de pensamento. Estava inteiramente subordinada.

– Mas além da União Soviética, como era possível nos anos 80 ser —-

– O maoísmo criticou, a meu ver com razão, as cedências que a União Soviética estava a fazer ao imperialismo para conseguir a coexistência pacífica. As críticas da China, inicialmente, acertavam em cheio naquilo que se estava a passar na União Soviética. Os comunistas que estavam alarmados com o rumo da União Soviética agarraram-se àquela tábua de salvação dum partido que não ia trair; mas o partido chinês era do mesmo molde do soviético. E a seguir o albanês. Apoiar o maoísmo nessa altura, acho que foi correcto. Agora, julgarmos que estava ali uma corrente comunista coerente, isso foi um erro que nos levou a perder mais uns anos até vermos que a China estava a fazer o mesmo caminho que os outros, nalguns aspectos até mais depressa.

– Então que referências existem hoje?

-As referências é que isto que aí está tem de ser atirado de pernas para o ar…

– São referências anti-sistémicas portanto… Há o sistema mas não há o

– Exactamente. Há países cuja resistência ao imperialismo é muito positiva. Eu não alinho nesses ataques desaustinados a Cuba, vêem-lhe todos os defeitos possíveis e imaginários porque está a resistir aos americanos. Agora, dizerem-me que é um país socialista e um modelo de socialismo, isso é absurdo.

– Acha que há algum país socialista no mundo?

– Não. Eu acho até mais, acho que nunca houve.

– Se chega a essa conclusão, é caso para perguntar: toda esta luta valeu a pena?

– Valeu! A História não pode ser feita segundo as nossas vontades. O desenvolvimento do capitalismo cria tais conflitos que rebentam revoluções em países atrasados. Rebentaram na Rússia, na China, no Vietname, na Coreia, em Cuba… Mas esses países fizeram revoluções contra o imperialismo, contra o feudalismo, contra o atraso que lá havia, mas não tinham o mínimo de condições económicas e sociais para passarem ao socialismo. O facto de terem feito essas revoluções não foi tempo perdido para a História. Eram indispensáveis e tiveram reflexos até em nós. Quando hoje se fala no modelo

– De certa forma, levaram a humanizar o capitalismo

– Forçaram o capitalismo a fazer concessões, com medo que se repetissem revoluções. No fim da guerra mundial, o prestígio da União Soviética era tal que os regimes do Ocidente tinham medo do que lhes podia acontecer se não fizessem concessões aos trabalhadores: E a Rússia e a China, se não tivessem tido revoluções, o que seria hoje deles?

Mas não acha que existia aí uma inevitabilidade de rupturas sociais?

– Sim, mas suponha que ganhava o Kuomintang na China, que era uma ditadura fascista terrorista, da pior espécie. O povo chinês, com tudo que sofreu, não teria tido os avanços que teve sob aquele regime.

– O Francisco Martins Rodrigues é um humanista?

– Essa palavra tem uma conotação dúbia porque é tomada no sentido de ser contra a violência revolucionária: se é humanista, não quer mal para ninguém. Não, um revolucionário tem que ser realista. Quando os conflitos de classe crescem, há terramotos, são as revoluções. E quando há violência tem que se tomar partido. Eu quero estar sempre incondicionalmente do lado da força que representa o avanço e não do lado da força que representa um retrocesso. Já sei que perco o direito a ser classificado de humanista mas isso não me aflige. O pior é, perante um grande choque de massas, pôr-se de parte ou pôr-se contra.

Neste mundo que está de novas espiritualidades e novas salvações, alguma vez acreditou em Deus?

– Quando era pequeno ensinaram-me que havia Deus e eu até acreditava. Quando na adolescência comecei a ter um mínimo de juízo perdi qualquer convicção religiosa. Não tenho qualquer crença e isso não me toca nada.

– Não tem medo da morte?

– Todas as pessoas têm medo da morte. Qualquer ser vivo não quer morrer. Isso é uma reacção normal que nada tem a ver com religião.

Depois destes anos todos, foi a outra face da moeda de Álvaro Cunhal. Que pensa hoje do percurso de Álvaro Cunhal, nesta hora crepuscular?

– O Álvaro Cunhal, acho que foi um bom antifascista mas um péssimo revolucionário. Ele propriamente revolucionário duvido que alguma vez tenha Sido. Talvez ainda em bastante jovem… Ele dedicou toda a sua vida a lutar contra a ditadura fascista, demonstrou grandes capacidades, e nessa qualidade merece respeito. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. Agora como comunista que ele se intitula, como dirigente do Partido Comunista, prestou um péssimo serviço porque o que os comunistas precisavam naquele tempo era aproveitar a luta dos trabalhadores contra o fascismo para tentar fazer cair tudo junto, o fascismo e a burguesia. Tentar fazer que a que a queda do fascismo fosse uma revolução, não a “revolução dos cravos”. E ele sempre se opôs a isso, sempre teve medo disso e demonstrou-o. Quando se diz hoje que ele queria tomar o poder e estabelecer em Portugal um regime igual ao da União Soviética, eu não acredito nisso. Até por simples pragmatismo, porque ele sabia que isso era inviável. Os choques entre o Partido Comunista e a extrema esquerda resultaram disso mesmo Ele tinha receio que os esquerdistas com as suas agitações assustassem a burguesia e inviabilizassem uma estabilização democrática burguesa. Isso é que ele queria e acabou por – –

– Acha que o 25 de Novembro foi então uma vitória dele em relação a

– Não foi o que ele preferiria, mas do mal, o menos. Porque ele conseguiu negociar com o Melo Antunes, garantir que não lhe tiravam a legalidade e portanto saiu daquela dor de cabeça que era aquela crise de poder que nunca —

– O que pensa do Bloco de Esquerda?

– O Bloco de Esquerda… é cor-de-rosa. É um novo partido do sistema, é uma esquerda no arco do Parlamento. Não é mais do que isso.

É uma esquerda burguesa?

– Não sei se lhe chame pequeno-burguesa. É uma esquerda que está no campo das instituições e joga aí o seu jogo e que abdicou de um objectivo —

É uma esquerda reformista?

-Absolutamente reformista: tem ambições, quer ganhar força, mas dentro da lei. Se fossem revolucionários não ganhavam oito deputados. Uma voz revolucionária nestas eleições se calhar não ganhava nem um deputado. Ora, eles precisam de deputados e já começam a pensar na hipótese de sustentar um Governo. Esse caminho já foi visto muitas vezes e já se sabe onde é que vai dar. Começam todos como bons rapazes e acabam em ministros.

– É um homem desiludido?

– Não, de maneira nenhuma. Estou satisfeitíssimo com as posições que defendo. Houve uma coisa que mudou. Há trinta anos eu via a revolução em Portugal como uma coisa próxima, e hoje tenho a perfeita noção de que é uma coisa distante. A globalização e a Europa deram outras proporções à luta revolucionária. Mas isso não alterou nada do fundamental: a revolução, mesmo que distante, faz-se todos os dias.

Diário de Lisboa, 26 de Fevereiro de 2005

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