Nódoa

Francisco Martins Rodrigues

Esta é a tese original do livrinho – a clandestinidade comunista não teria sido uma defesa necessária (e corajosa) contra a repressão mas um modo de vida!

“Aquilo que melhor caracte­riza a clandestinidade comunista – esclarece na Introdução do seu livro[1] o ideólogo do cavaquismo – é ela emanar de uma cultura política particular e ser mais um modo de vida e de política do que um instrumento funcional para obter determinados fins revolucionários ou resultar inevitavelmente da repressão ao partido comunista”.

Só por si, isto é já suficiente para avaliarmos a estatura moral do autor. Mas ele vai mais longe: estuda a clandestinidade como uma anomalia, como um com­portamento desviante, que seria produzido pelo “carácter holístico e teleológico do marxismo- leninismo”. Traça analogias entre os partidos comunistas e os manicómios, mosteiros e con­ventos, como “instituições totais” que praticam o “controle admi­nistrativo dos seus membros” e que “se aproximam do modelo weberiano da variedade monocrática da burocracia”; cita Jung e os “processos da psicologia do renascer”, com a sua “forte exaltação individual e o sentido de missão, com claras conotações religiosas”; opina que a “análise psicológica da noção de tempo do clandestino mostra semelhanças com a percepção do tempo pelos doentes graves, por exemplo pelos cancerosos” (!); compara a função dos controleiros do partido à dos enfermeiros nos asilos psiquiátricos ou dos guar­das prisionais, já que lhes cabia “gerir o enorme potencial de conflitos afectivos e psicológicos a favor dos interesses da organi­zação”; e explica a passagem à clandestinidade dum número elevado de jovens, no tempo da ditadura, como efeito da “atracção adolescente pelo segredo” e do gosto pelas “conotações iniciáticas e secretas” do partido. Só lhe faltou investigar os casos de infância infeliz na origem das carreiras de militantes clan­destinos…

Assim, perdida toda a noção da decência e até do ridículo, P. P. atasca-se literalmente numa psicanálise de pacotilha para tentar desvalorizar a clandestini­dade comunista. A longa (e solitária) resistência clandestina do PCP à ditadura salazarista é classificada sem vergonha como uma “mitologia, com o seu cortejo de acontecimentos, reais, exa­gerados ou inventados”; as prisões, torturas e assassinatos da Pide são reduzidos a quase nada, e quando são mencionados é apenas como a resposta do re­gime aos manejos dos comunistas procura-se chocar o leitor com a situação de isolamento em que viviam as crianças dos casais clandestinos, mas para fazer recair sobre este? o odioso da situação.

O objectivo é transparente – ao denegrir a clandestinidade como uma tara de fanáticos quer- se apagar o facto de que os comunistas foram os únicos capazes de dar voz à recusa de boa parte do poro a submeter-se à ditadura de Salazar. Mas não só. Ao minimizar a resistência, é afinal a reabilitação do fascismo e dos seus torturadores que se enceta – de forma dissimulada e sorna, como convém à per­sonagem. Mário Soares, que se dispôs a apadrinhar com a sua presença o lançamento desta baixeza, lá sabe porquê.

Mas, enfim, nem tudo se perde. Se este extraordinário “estudo sobre a clandestinidade” em nada contribui para a história da resistência ao fascismo, em compensação ele diz muito sobre a mente tortuosa do autor, sobre os reais valores ideológicos reinantes no seu partido e sobre o que temos a esperar desta era de desforra insolente da reacção.

[1] (A Sombra. Estudo sobre a clandestinidade comunista, José Pacheco Pereira. Ed. Gradiva, Lisboa, 1993)

Política Operária nº 41, Set-Out 1993

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