Idealização da revolução russa atrasa o avanço do comunismo

Francisco Martins Rodrigues

No seu artigo (P.0.76 e 78), Manuel Raposo procura demonstrar que a Revolução Russa poderia ter chegado ao socialismo e marcou com fortes traços de socialismo a URSS enquanto esta existiu.

Mesmo que a alguns leitores pareça excessiva a insistência com que o tema tem sido abordado na revista, tentarei assinalar brevemente os prin­cipais pontos em que divirjo de MR. Não sem manifestar, desde logo, a minha surpresa por um membro do colectivo redactorial só tão tarde entrar num debate que tem acompanhado a revista desde o início.

 CABE AO PROLETARIADO FAZER A REVOLUÇÃO BURGUESA?

No seu artigo, MR atribui-me, logo de entrada, a afirmação de que a revolução de Outubro não teria sido proletária. Nunca escrevi tal barbaridade; classifico-a como uma “gigantesca revolução operário-camponesa”, a “manifestação mais avançada da luta social” que instituiu a “República do Trabalho”, etc. Mas a revolução foi burguesa pelo conteúdo económico das transformações que introduziu – nomeadamente a distribuição da terra aos camponeses.

Acha MR que “uma revolução burguesa feita pelo proletariado é um contra-senso – não há classes a fazerem revoluções de outras classes.” Mas entra em contradição consigo próprio ao escrever, logo adiante, que “o proletariado teve de fazer a revolução burguesa, por esse ser um ponto de passagem obrigatório para o socialismo.

É isto que é correcto e, caso tenha dúvidas sobre o assunto, convido-o a reflectir sobre uma opinião de Lenine em 1915: “O conteú­do social da próxima revolução na Rússia só pode ser a ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato”. “O proletariado da Rússia tem como dever levar a cabo a revolução democrático-burguesa na Rússia, a fim de detonar a revolução socia­lista na Europa” (Lenine, Oeuvres, tomo 21, pp. 417-418. Moscovo, 1973).

Aliás, já desde 1905, nas Duas tácticas, Lenine desenvolvera exaustivamente o papel dirigente do proletariado na revolução bur­guesa, de modo a conduzi-la do modo mais favorável para a sua luta ulterior pelo socialismo. Este é um dos aspectos centrais que diferen­ciam o leninismo do menchevismo e do trotskismo.

Porém, alegou-se durante muitos anos, e MR retoma esse argu­mento superficial, “em 1917 houve duas revoluções: a de Fevereiro, burguesa, e a de Outubro, proletária”. Logo, subentende-se, em Outu­bro já estaria ultrapassada a etapa burguesa da revolução, podia-se avançar para o socialismo.

Ora, só por grande milagre teria tido lugar, no intervalo de oito meses, a revolução burguesa na Rússia. Foi justamente o facto de Fevereiro apenas ter instaurado a liberdade política e de os partidos burgueses terem demonstrado a sua incapacidade para abordarem as tarefas económico-sociais da revolução (a distribuição da terra e, como primeira condição para tal, a saída da guerra) que catapultou em poucos meses os bolcheviques à posição de partido maioritário nos sovietes e lhes permitiu chefiar, à cabeça dos operários e camponeses, a revolução de Outubro – que foi de facto o completamento do que ficara em suspenso desde Fevereiro, por muito que isto pareça a MR uma desclassificação da revolução.

Vem depois a questão camponesa. Como não há-de MR subes­timar o carácter burguês da revolução russa se pensa que “a massa do campesinato, apesar de esmagadora, era, do ponto de vista dos antagonismos de classe, secundária,” não podia ter nenhum papei preponderante na revolução ?

Uma classe que representava 90 por cento da população e 90 porcento da riqueza produzida na sociedade russa tinha forçosamente que desempenhar um papel central na revolução. Claro, pela sua dispersão e atraso, o campesinato não ocupava (nunca ocupa) a ribal­ta da política mas a sua luta pela terra foi central na marcha da revolução. A aliança dos bolcheviques com o partido socialista-revolucionário, representante dos camponeses, foi decisiva para a vitória de Outubro; só o apoio camponês permitiu ao governo soviético a vitória na guerra civil; inversamente, o descontentamento dos campo­neses com o poder revolucionário por este não lhes dar a liberdade de comércio ditou a crise de 1921, a adopção da NEP e, posteriormen­te, a crise de 1929.

MR parece não se dar conta de que o apagamento do papel do campesinato na revolução russa foi uma criação da escola stalinista, a qual precisava de fazer acreditar teoricamente a tese da “Grande Revolução Socialista de Outubro”.

Naturalmente, ‘a meta do proletariado só podia ser o socialis­mo’’, como escreve MR. O proletariado lança-se na revolução com o objectivo de se emancipar da lei do capital; mas o carácter da revo­lução é outra coisa, que não depende da sua vontade. Depende – ainda que isso repugne a MR – do nível das forças produtivas e das relações sociais correspondentes. Essa sempre foi a posição do mar­xismo; só a aparente excepção das revoluções “socialistas” na Rússia, China, etc. levou a que fosse esquecida.

Em 1917 o proletariado russo teve de fazer a revolução burguesa, dada a incapacidade da burguesia; só depois de realizar (a seu modo e no seu interesse) as tarefas da revolução burguesa, poderia even­tualmente passar às tarefas da revolução socialista. Dizia Rosa Lu­xemburgo em 1918, a propósito justamente da crise que já então se desenhava no regime soviético, que “até mesmo as maiores revoluções só podem realizar aquilo que o desenvolvimento da sociedade permi­te”, e tinha toda a razão, embora não a tivesse noutras coisas.

Assentemos pois que o proletariado russo, ao assumir o poder, tinha pela frente, não meras “transformações” prévias ao socialismo mas todo um período capitalista (o que não significa, naturalmente, que tivesse que entregar as fábricas e as terras aos capitalistas!): capitalismo sob a propriedade do Estado, capitalismo da pequena burguesia urbana e rural, capitalismo das cooperativas de pequenos produtores – mas capitalismo e não socialismo, visto que durante esse período teriam que continuar a vigorar as leis económicas do capitalismo: a produção para o lucro, a fim de permitir a acumulação do capital e criar as premissas do socialismo.

Isto parece a MR uma desvalorização da revolução. “Se a revolu­ção foi desde o início burguesa: então não há que procurar o momento em que se terá dado a viragem do socialismo para o capitalismo; não houve nenhum momento de ruptura, mas apenas passos diferentes da mesma continuidade histórica, de Lenine a Gorbatchov… ”

Ou seja, ao classificarmos a revolução como burguesa estaría­mos a pôr Lenine ao nível de Gorbatchov. É um pouco forte de mais…

A ruptura deu-se quando se desintegrou o poder operário-camponês (1918-20); voltou a dar-se quando a burguesia dos nepmen reconquistou liberdade de acção; repetiu-se, como autêntico cataclis­mo, quando a nova burguesia de Estado levou a cabo a industrializa­ção, a expropriação do campesinato e a centralização total do poder; repetiu-se mais uma vez quando essa nova classe burguesa renegou o stalinismo e adaptou o catecismo “leninista” e “internacionalista” aos seus interesses internos e externos (Kruchov). Rupturas não faltaram na vida da URSS, desde o poder proletário dos primeiros dias ao poder burguês dos aparatchiks, a “viragem do socialismo para o capitalismo”, essa, é que é escusado procurá-la.

 O PODER INEXISTENTE DOS SOVIETES

Poderia o partido bolchevique, em circunstâncias mais favorá­veis, ter atravessado com êxito a etapa burguesa da revolução e abor­dado a construção do socialismo? MR pensa que sim e não concorda que eu diga que a revolução russa não podia ter chegado ao socialis­mo. Para ele, a passagem da Rússia ao socialismo falhou por aciden­te, nomeadamente a intervenção imperialista e a guerra civil, a cujas consequências eu não daria a devida importância.

Como não faltam naquilo que escrevi as referências ao desastre causado pelo assalto reaccionário contra o poder dos sovietes, creio que MR quer dizer que, se não fosse a guerra civil e a invasão imperia­lista, a revolução teria condições para avançar para o socialismo. E com isto, de facto, não concordo.

Teria sido necessário também que a economia russa não fosse tão atrasada e o campesinato tão numeroso; que o proletariado ti­vesse peso numérico suficiente para reorganizar a produção e para manter a sua ditadura de classe através dos sovietes; que o proleta­riado europeu tivesse acorrido em seu auxílio com novas revoluções no Ocidente… – ou seja, para a revolução ter êxito, deveria ter-se dado num país diferente, numa época diferente, em circunstâncias diferentes. Não significa isto na prática que aquela revolução con­creta não podia ter passado ao socialismo? Que ela foi, tal como a Comuna de Paris, embora a um nível incomparavelmente mais ele­vado, uma antecipação histórica?

É inegável que Lenine disse e repetiu nos derradeiros anos da sua vida que a Rússia podia apesar de tudo avançar para o socialismo através do capitalismo de Estado sob ditadura do proletariado. Impõe-se todavia reconhecer que Lenine estava errado nesta convicção – e reconhecê-lo não é pôr em causa o papel histórico do leninismo; pelo contrário, é uma conclusão que decorre do próprio leninismo.

Com efeito, a ditadura do proletariado não é uma mera questão de governo. Uma “ditadura do proletariado” que não se realiza atra­vés de uma profundíssima reorganização social envolvendo a massa da população na administração e no governo com base numa ampla democracia soviética, e que tem como único sustentáculo o poder do partido revolucionário, como foi o caso, é uma ficção. Por mais sobre-humanos que fossem os esforços de Lenine e dos bolcheviques, nada podia colmatar a falência dos sovietes como órgãos de poder, logo após Outubro.

Confundir poder do partido com poder soviético foi uma deforma­ção longo tempo alimentada na corrente comunista e compreende-se porquê – era essencial à justificação da URSS como uma sociedade “socialista”. Mas MR parece ainda não se ter apercebido disso. “O poder soviético -escreve – teve força suficiente para resistir ao esmagamento; mas não a teve para evitar a degeneração. Quem resistiu ao esmagamento foi o governo do partido comunista, não o poder dos sovietes. Este, invariavelmente invocado a partir de 1917 como base do regime da URSS, teve uma existência de escassos meses e desapareceu no turbilhão da guerra civil. O poder teve que ser concentrado no partido comunista, como única forma de evitar o triunfo da contra-revolução, e os sovietes tornaram-se órgãos auxilia­res do partido. A partir daí, não podia haver qualquer espécie de ditadura do proletariado.

E mais, o partido comunista estava condenado à degeneração. Obrigado, por força das circunstâncias, a monopolizar o exercício do poder político que, em teoria, pertencia ao proletariado, transfor­mado em administrador, governo, exército, polícia, ideólogo, o partido comunista não só não podia avançar para o socialismo como tinha necessariamente que perder a sua natureza revolucionária.

Que os bolcheviques tentassem, contra todas as evidências, levar mesmo assim a revolução por diante, é compreensível. Se não o fizessem, só lhes restaria capitular. Mas já é menos justificável que nós, passado quase um século, continuemos a acreditar que a revolução poderia ter avançado para a meta do socialismo sem dita­dura do proletariado. Isto sim, é uma contradição nos termos.

URSS: A MEIO CAMINHO ENTRE DOIS SISTEMAS?

Foi instaurada na URSS, depois de Lenine, uma forma especí­fica e original de capitalismo, governado por uma burguesia de tipo novo? MR pensa que não e, para o tentar demonstrar, invoca argu­mentos verdadeiramente surpreendentes.

“O regime da URSS foi um ser híbrido, nem socialista nem plenamente capitalista”, escreve. “Nunca se constituiu uma autêntica classe burguesa. “Nunca se terá constituído um autêntico sistema econó­mico capitalista”.

Isto parece conter a ideia de que um regime económico-social pode estar a meio caminho entre capitalismo e socialismo, sem ser realmente nem uma coisa nem a outra. Tal será possível num curto lapso de tempo, durante as transformações revolucionárias – mas não ao longo de decénios, num regime plenamente formado como era o da URSS.

As teses que nos anos 50 ou 60 julgavam ver na URSS uma formação social híbrida, de transição, nem capitalista nem socialista, ou “pós-capitalista”, eram explicáveis perante as singularidades que exibia aquele regime. Hoje, quando estamos de posse de todos os dados da questão, são indefensáveis.

Parece-me inaceitável que MR diga que a originalidade da revo­lução de Outubro foi “ter resistido a todas as tentativas de esmaga­mento”, ou ver os 70 anos do regime como um “longo percurso de destruição da revolução proletária”. A revolução proletária desinte­grou-se logo após ser levada a cabo. O que se seguiu depois já foi outra coisa: foi a construção, florescimento, consolidação e por fim declínio e apodrecimento de um outro regime; nascido como solução para o problema criado pela revolução proletária, usando o nome desta, revestido de roupagens “socialistas” mas completamente estra­nho aos seus objectivos.

A MR parecem provas irrespondíveis do carácter não-capitalista da URSS a inexistência de propriedade privada ou de apropriação privada do lucro, a ausência da concorrência no mercado, do crédito, da finança, da exportação de capitais…

Tudo isso indica sem dúvida um capitalismo coxo e transitório, que não pode ser confundido com o capitalismo formado em condições normais. Como não seria assim, se a revolução teve que ser feita contra a burguesia? Mas, para lá de todas essas anomalias, a econo­mia “soviética” apresentava a característica essencial de todo o capi­talismo – a acumulação do capital à custa da extorsão de mais-valia ao trabalho assalariado (o que MR de resto admite numa outra passagem do seu artigo). E se a sociedade era fundada em relações capitalistas, do que havemos de falar senão de regime capitalista e de burguesia?

Que tipo de poder vigorava na URSS? As ideias expostas por MR no seu artigo acerca deste ponto são ainda mais inesperadas e surpreendentes.

Pensa MR que havia na URSS de Staline “um compromisso social que estabelecia o equilíbrio entre a camada dominante e a massa trabalhadora”. “A camada dirigente da URSS só podia manter-se no poder enquanto se mantivesse em aliança com a massa trabalhadora. E fala ainda no “igualitarismo e colectivismo subjacentes àquele compromisso social”.

Esta é uma ideia verdadeiramente estranha. Porquê “aliança” se MR admite que eram os de cima que “detinham, dirigiam o monopólio do poder”? Pode haver aliança quando uma das partes detém o monopólio do poder? É que, nota MR, apesar  de tudo, “os de baixo tinham asseguradas as condições materiais de trabalho, de saúde, de instrução, etc. Mas se isto permite falar em aliança, então teríamos que considerar as democracias imperialistas europeias dos anos 50-70 como alianças entre a burguesia e o proletariado, visto  que também asseguravam a este certas regalias e estabilidade.

A URSS, claro, era completamente diferente – ausência de pro­priedade privada, plano, reinvestimento do lucro, pleno emprego… Mas nem traços de “compromisso social”; o que ressaltava era abismo entre proletários, dum lado, e apparatchiks, directores do outro, entre dirigentes e executantes, entre opressores e oprimidos. Pelo facto de esse abismo ser hoje ainda mais brutal, deveremos idealizar o que o antecedeu? Ou será preciso recordar que não havia direitos políticos nem traços de controlo operário da produção, que nas fábricas reinava a arregimentação, que as diferenças de salário e regalias eram insultuosas (o que, diga-se de passagem, era uma forma de apropriação privada do lucro), que a sociedade se regia de alto a baixo pelo unanimismo forçado?

De resto, se o rigor da exploração e da vigilância policial se atenuou na URSS a partir dos anos 60 porque a acumulação do capi­tal estava a atingir níveis mais elevados e porque a classe governante já então receava exasperar a sua retaguarda, não podemos esquecer que a “edificação das bases do socialismo” se fez à custa da militari­zação do trabalho em regime penitenciário, o que nos situa no terreno do capitalismo primitivo e nos antípodas do socialismo.

Esta tese insustentável de uma aliança de classes na URSS arrasta MR para uma visão mitigada do Terror, o qual é contudo uma questão central na compreensão do regime “soviético”. “O terror dos anos 30 – escreve – não se afigura como o sinal de força de uma classe dominante, mas antes como o indicador de um poder instável, contraditório, portanto não solidamente assente numa dominação de classe”. “Um poder que vê inimigos tanto nas movimentações da classe operária como na afirmação das camadas burguesas liberais (…) revela compromisso e cruzamento de classes”.

Assim, uma das maiores explosões de violência do século pode ser para MR a prova de que não havia ditadura de uma classe! E se o terror era dirigido igualmente contra operários e burgueses, contra comunistas e liberais, isso seria a prova de que era resultado de um “cruzamento”, isto é, metade burguês metade proletário!

Pelo contrário, o terror dos anos 30 revela a existência de uma classe que impõe o seu monopólio do poder esmagando os obstáculos à sua forma específica de apropriação: ela tem que reprimir os campo­neses, os operários e os adeptos do capitalismo privado, não por ser um “cruzamento” de todos mas para impor um regime diferente, que não pode coexistir nem com o capitalismo privado, nem, obviamente, com aspirações socialistas.

E tem que o fazer, como escrevi, porque “uma sociedade que pela primeira vez na história centralizava forças produtivas tão po­derosas, suprimindo a acção reguladora das leis do capitalismo sem lhe substituir a apropriação colectiva e a auto-administração pelos produtores, só pelo terror podia impor ordem no caos”.

Porque não houve terror nos anos 20, quando o poder era muito mais “instável e contraditório”? Porque se desencadeou este quando a industrialização e a “colectivização” agrária colocaram sob controlo dos governantes um poder imenso? Justamente porque a nova classe burguesa passou nesse processo da fase embrionária a um corpo social formado, capaz de exercer a sua ditadura de classe.

Já passou o tempo em que o movimento comunista, para reagir à campanha burguesa ocidental contra o “totalitarismo soviético”, identificava o regime da URSS com a revolução de Outubro e lhe atribuía méritos democrático-populares que ele na realidade não pos­suía. A vida ultrapassou essa situação de impasse, que reduziu o marxismo e o leninismo à menoridade ideológica durante a maior parte do século. Hoje podemos ver sem antolhos as características próprias desse capitalismo de Estado, “subproduto” da revolução (para usar o termo de MR): acumulação centralizada do capital a exigir uma fortíssima coesão política assente no partido-Estado; ditadura sobre o proletariado mascarada de ditadura do proletariado; isolamento internacional a ditar a busca de apoios externos no movi­mento operário e anti-imperialista – de resto uma vocação natural do regime, dada a sua origem revolucionária.

Capitalismo abortivo e condenado à falência, governado por uma burguesia que não se podia assumir de corpo inteiro – nada disto chega, porém, para fazer dele um regime proletário, semiproletário ou de alguma forma aparentado ao socialismo.

Como não admite que existisse uma burguesia “soviética”, MR é levado a defender que a classe dirigente da URSS se teria desinte­grado com a “queda do Muro”. “A ‘burguesia soviética que se consti­tuiu em 70 esforçados anos foi varrida do poder, dividida…” “Depois de 1991, essa suposta classe, essa protoclasse, foi desalojada do poder e desarticulou-se.”

Isto é desmentido pelos factos de todos conhecidos. A classe (ou protoclasse ou o que se lhe queira chamar) que estava no poder ia Rússia em 1980 é a que se mantêm no poder actualmente, reconver­tida agora de gestora da propriedade do Estado em gestora dos seus negócios privados, ocupada na disputa partidária ou nos altos cargos do Estado. Seria a primeira vez que uma classe seria desalojada do poder e desarticulada sem uma convulsão social violenta – que não se deu, como todos sabemos. O golpe de Estado de 1991, que, segundo MR, “fez a URSS baixar todas as defesas e escancarou o país ao capitalismo internacional” vinha sendo desejado e preparado por um sector sem cessar crescente da própria classe dirigente; por isso não deparou com resistência que se visse.

No texto colectivo “Resposta aos comunistas americanos”, divul­gado há dez anos (P. O. n° 27, Nov./Dez. 1990) e cuja releitura aconse­lho sem ironia a MR, definimos o regime soviético como um “capitalis­mo embrionário” e a sua classe dirigente como uma “burguesia buro­crática de Estado”, “burguesia de empréstimo, nascida com a missão subalterna de liquidatária de uma revolução falida, encarregada de administrar o capital nacionalizado até se criarem condições para a privatização”. Parece-me um bom resumo de um fenómeno que MR obscurece em vez de clarificar com a sua interpretação.

OS NOVOS OUTUBROS QUE GERMINAM

Classificar a a revolução russa como uma revolução burguesa que não podia ter passado ao socialismo acarreta, segundo MR, conse­quências graves. Passaremos  a ver a revolução russa “não como a primeira onda das grandes revoluções proletárias, mas como o mais recente ciclo de revoluções burguesas”. Em resultado disto, convencer-nos-íamos de que próximas revoluções na Ásia, na América Latina, ou em África, estarão condenadas a ser revoluções burguesas dirigi­das pelo proletariado. Pior: desprezaremos as revoluções que germi­nam no Terceiro Mundo e tenderemos a atribuir o papel de vanguarda às sociedades imperialistas. Pior ainda: “Postas as questões em fun­ção do atraso das forças produtivas”, seremos levados a esperar indefinidamente que se reúnam as condições económicas para a revolução.

A lista de desvios é assustadora mas tem pouco a ver com o que defendi.

Em primeiro lugar, há um problema de escala a pôr a claro. Com a revolução de Outubro, “o proletariado assumiu o papel de alternativa histórica ? Sem dúvida, desde que isto seja entendido numa dimensão… histórica. É claro que “cada revolução desencadea­da numa parcela do mundo capitalista (mesmo atrasada) é parte integrante (e possível detonador) da revolução global”. É claro que “o mundo da época imperialista é o último patamar antes do socia­lismo”. É claro, acrescento eu, que, depois de Outubro, a burguesia perdeu toda a capacidade revolucionária e entrámos na era do capitalismo agonizante e em putrefacção, das guerras imperialistas e das revoluções proletárias.

Está tudo certíssimo, desde que não queiramos aplicar estas proposições à escala das nossas vidas. Que os comunistas de 1917, perante o cataclismo da primeira guerra mundial, julgassem estar perante a derrocada geral do imperialismo a curto prazo, é compreen­sível. Mas se nós, com a experiência entretanto acumulada, ainda não percebêssemos que a passagem geral da humanidade do capita­lismo ao socialismo se pode estender por dois ou mais séculos e que comporta desdobramentos, peripécias intermédias, acidentes impre­vistos, recuos, etc., não teríamos desculpa.

Significa isto que, depois da entrada do proletariado no primeiro plano da cena mundial através de antecipações históricas que, não podendo ainda conduzir ao socialismo, abalaram até aos alicerces o mundo burguês, o que virá a seguir serão muito provavelmente novas revoluções em países ou grandes regiões atrasadas especialmente vulneráveis (os “elos fracos” da cadeia imperialista de que falava Lenine), as quais terão condições muito mais favoráveis para ter êxito no avanço para o socialismo (proletarização, desenvolvimento das forças produtivas), sobretudo se forem apoiadas a sério pelo proletariado das metrópoles imperialistas.

Essas revoluções, contudo, não poderão começar por instaurar o socialismo. Só lá chegarão se conseguirem atravessar uma etapa capitalista sob ditadura do proletariado – aquilo que a Rússia dos sovietes não conseguiu. E isto por uma questão de “forças produ­tivas”. Discordo em absoluto de MR quando escreve que não se pode determinar qual o nível de desenvolvimento capitalista necessário para tornar viável a passagem ao socialismo. O socialismo não é viável enquanto: a) o desenvolvimento capitalista não tiver transfor­mado a massa dos pequenos produtores em proletários; b) a acumulação de riqueza social não tiver tornado arcaica e obsoleta a produ­ção para o lucro e a extracção da mais-valia, criando as condições económicas para o autogoverno dos produtores. O socialismo na pobreza, numa economia predominantemente camponesa, etc., ideia muito propagandeada no século que agora terminou, é uma contra­dição nos termos, é uma negação da noção marxista de socialismo.

Quanto às revoluções nas metrópoles imperialistas, acredito que só serão possíveis numa etapa posterior, devido ao efeito cor­ruptor do poderio imperialista – e MR não pode falar a sério quando me atribui a ideia de que a revolução estaria mais próxima nestes países. A nossa tarefa é despertar o proletariado para a luta contra o sistema, desacreditar a política pequeno-burguesa das melhorias por meio de reformas, sabotar o funcionamento da máquina capitalis­ta e ajudar sempre e por todos os meios os povos oprimidos que se revoltam. Será assim que aproximaremos o socialismo no mundo.

A questão que nos desafia, hoje e para o futuro, é saber se conti­nuamos a confundir a grandeza da revolução russa, sem paralelo na história das revoluções dos oprimidos, com o regime que se ergueu sobre os seus escombros; se, em face da ofensiva imperialista desen­cadeada pela “queda do Muro”, nos refugiamos na nostalgia por um regime que apesar de tudo lhe fazia obstáculo; se imaginamos possível avançar para o socialismo, o autêntico, sem mostrar o que o distingue do pseudo-socialismo que preencheu boa parte do século que acabou.

Com o fecho – em vias de se completar- da etapa do “socialismo real”, o marxismo pode agora libertar-se do congelamento a que foi remetido durante três quartos de século. Podemos fazê-lo e teremos que fazê-lo se quisermos projectar perante os oprimidos o nosso alvo socialista em toda a sua poderosa capacidade mobilizadora.

Política Operária nº 80, Mai-Jun 2001

 

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