Presidente já nós temos!

Francisco Martins Rodrigues

Presidente já temos! O pior é que os cidadãos que elegeram o supremo magistrado da Nação foram pouco mais de metade dos que se abstiveram ou votaram branco e nulo: 2,4 milhões para 4,4 milhões. Ultrapassando as mais negras previsões, a abstenção saltou para os 50 por cento. E lá tivemos mais uma vez os gurus da democracia a alertar para o “preocupante fenómeno cujas causas é preciso estudar”.

Ora a verdade é que não há grande coisa para estudar: estranho seria que as pessoas se mobilizassem para escolher quando não lhes oferecem nada à escolha. Se desta vez o fenómeno se agravou porque Sampaio estava eleito à partida e o papel dos outros candida­tos era apenas marcar terreno para os seus partidos, a tendência ascendente da abstenção é indesmentível. O mais grotesco é ver os mesmos que esvaziam as instituições mostrar-se preocupa­dos com o seu descrédito.

­­­Quem acertou na mouche foi o dr. Sarsfield Cabral. Comen­tou ele, aliviado, que, com a ade­são à Europa, entrámos numa era nova de estabilidade: podem cair governos que não há perigo de impasse porque as grandes linhas da política estão traçadas. Falou que nem um livro aberto.

Também não foi longe da verdade o Dr. Pacheco Pereira ao comentar, rancoroso: “Basta olhar-se para as 1500 assinaturas da Comissão de Honra de Jorge Sampaio para se perceber onde está o establishment em Portugal. Desalojar o PS do poder mexe com profundos interesses económicos, sociais e políticos”.

Manuel Alegre alertava no Expresso con­tra a táctica da direita, de desvalorizar e banali­zar a eleição, a fim de fomentar a abstenção, por saber que não podia ganhar. Está tudo mui­to certo mas acontece que essa táctica resultou porque veio ao encontro do sentimento geral da população.

O mesmo Alegre, num arrebatamento poé­tico, arrumou Sampaio na “linhagem de Verney, Garrett, Antero, Sérgio, Cortesão, Caraça”… Caramba! Nem tanto!

O slogan de Sampaio ganhou a palma como o mais bem concebido. Era tão abrangente que podia ser virado de todos os lados sem per­der o sentido. Se não, vejam: “Por todos nós” pode transformar-se em “Por nós todos”, ou “Nós por todos”, ou, melhor ainda, “Todos por nós”…

A incoerência do PCP ao optar por um candida­to fraco com o objectivo de desistir e, à última hora, virar tudo do avesso e decidir ir às urnas, não abona muito sobre o equilíbrio de forças saído do último congresso. Em geral, estas guinadas incontroláveis costumam anunciar terramotos.

Parece que boa parte das assinaturas para a candidatura de Garcia Pereira foram recolhidas pelo sindicato Sinergia, controlado pelo PSD. Mera ques­tão de amizade pessoal entre o candidato e o presi­dente do sindicato…

Mas houve uma manifestação genuína e não paga na campanha eleitoral: moradores do bairro da Boavista, em Lisboa, ocuparam casas devolutas (de onde foram expulsos dias depois, pela polícia às or­dens da Câmara).           

Política Operária nº 78, Jan-Fev 2001

Política Operária nº 78, Jan-Fev 2001

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