Dislates sobre a Revolução Russa

FranciscoMartins Rodrigues

Arnaldo Matos expôs, numa palestra no Hotel Roma, em Março, as conclusões do seu estudo sobre o fracasso da União Soviética. Em seu entender, a construção do socialismo na URSS falhou por não ter sido dada a atenção devida aos últimos escritos de Lenine, nomeadamente quanto à NEP. O mais certo é o ideólogo do MRPP ignorar que está assim a retomar as posições defendidas por Bukarine, violentamente atacadas na época por Staline e há alguns anos reabilitadas por certos meios social-democratas. Teremos agora Arnaldo transformado em anti-stalinista involuntário?

Mas isso nem sequer tem grande importância, já que o nível das “investigações” de Arnaldo Matos está abaixo de qualquer crítica. Apegado ao estilo de oráculo, exibindo o atrevimento da ignorância, de um charlatanismo insuportá­vel, Arnaldo continua igual a si próprio. A sua arenga mostra que não compreendeu a natureza do regime “soviético” nem as opções que ele foi forçado a enfrentar. A maior parte das vezes nem sabe sequer do que fala.

Sendo impossível registar aqui todos os erros, falsidades e puras barbaridades que abundam no texto reverentemente publicado em dois números sucessivos do Luta Popular, apontemos só de forma breve os que nos surgem ao correr da leitura.

Arnaldo afirma que o mal estaria no facto de os dirigentes soviéticos “não terem estudado a política económica de Le­nine e a NEP”. Desconhece que a NEP, mantida até muito depois da morte de Lenine, teve que ser abandonada em 1929 precisamente por a resistência dos kulaks (que, a pro­pósito, não eram os “camponeses médios” mas sim os campo­neses ricos) a ter tornado insustentável. Compromisso com a pequena burguesia que permitiu ganhar tempo e recons­truir a economia devastada, a NEP, como compromisso que era, tinha que se esgotar assim que a burguesia recomeçasse a adquirir força. Foi por não 0 compreender que Bukarine se tornou porta-voz da restauração burguesa ao defender a continuidade da NEP.

Afirma Arnaldo: “Quem deveria gerir 0 excedente produ­zido pelos operários? Com isto nunca ninguém se preocupou”. Errado. Todos no Partido Bolchevique se preocuparam, de Staline a Trotsky, mas não encontraram outra solução prática senão encarregar uma vasta classe burocrática de o fazer. E não porque desconhecessem 0 marxismo mas porque nas condições de atraso da sociedade russa não havia outra solu­ção viável.

“Havia um controlo operário sobre a fábrica mas não havia um controlo operário sobre mais nada na economia. É aqui que reside a causa fundamental da derrota do socialis­mo”. Falso. Não havia controlo operário a qualquer nível. Nas condições de atraso da Rússia, O controlo operário nas fábricas, que emergiu no período revolucionário, rapidamen­te foi substituído pelo poder dos directores.

“O que falhou na União Soviética foi a orientação nacio­nal para toda a economia”. Falso. Orientação nacional da economia foi 0 que nunca faltou na URSS nem na China, através dos planos quinquenais. O problema foi que estes planos edificavam uma economia capitalista estatizada, não o socialismo.

Um grave erro de Staline, na opinião de Arnaldo, teria sido a “prioridade à criação da indústria pesada sacrificando a produção de bens de consumo”. Ele ignora que a URSS foi obrigada nos anos 30 a uma corrida desenfreada para conse­guir a independência económica, face às ameaças crescentes de uma agressão militar, e que isso implicou a máxima priori­dade à indústria pesada.

A ideia de que “é preciso ter um exército forte para defender a ditadura do proletariado” foi um “erro dos russos” – outra “pérola” arnaldista. Aqui está uma ideia com que Hitler decerto concordaria…

“A mim não me impressiona que Estaline tenha mandado não sei quantas pessoas para a fogueira, milhões… Esses exageros não me impressionam absolutamente nada.” “Mes­mo que porventura ele fosse o único responsável pela morte desses sujeitos é preciso dizer que do ponto de vista histórico nada se perdeu”. Simplesmente inqualificável. É o tipo de afirmação que poderia perfeitamente ser subscrito por um fascista. Arnaldo não distingue entre as perdas de vidas causadas pelos grandes choques sociais, pela luta dos oprimi­dos para se libertarem dos opressores, e as perdas de vidas causadas por um regime autocrático que cilindra milhões de pessoas para garantir a sua coesão e sobrevivência.

“Stakhanov era um operário que montava mais tijolos que toda a gente. Chegou a montar por dia dez mil ou doze mil tijolos”. Stakhanov era mineiro de carvão.

Antigamente, “quando a classe operária era esmagadoramente maioritária em relação às outras classes.” Nunca foi. Esmagadoramente maioritários eram os camponeses, como toda a gente sabe.        f

“A passagem das forças económicas de uma classe para outra não altera em nada as relações de produção dominan­tes numa sociedade”. Ou seja: a revolução não é a revolução. Aqui a inovação de Arnaldo no terreno dos conceitos marxis­tas torna-se estonteante.

“O partido da classe operária, um partido que se destina a desaparecer quando se instaurar o socialismo”. O marxismo nunca disse nem poderia ter dito isso, visto que o socialis­mo é concebido como um sistema de transição em que persis­tem classes e luta de classes. Arnaldo parece considerar socialismo e comunismo como equivalentes.

“Aliança entre os operários e camponeses – é isso que quer dizer ditadura do proletariado”. Quer dizer, nos países capitalistas avançados, onde o campesinato tem uma expres­são ínfima, deixa de ser possível a ditadura do proletariado. Brilhante!

“A palavra ‘proletário’ é inventada por Marx”. Dois mil anos depois dos romanos…

“Hoje não se pode falar de um operário como necessaria­mente um proletário”. “Um proletário, ou seja, um operário consciente”. Portanto, um operário que não tenha consciên­cia de classe deixa de ser proletário! Eis 0 que não deixaria de espantar Marx!

Etc., etc.

O “debate” que, segundo o Luta Popular, se teria seguido consistiu de respeitosas perguntas dos assistentes que deram lugar a novos e caudalosos discursos do orador. Não houve debate nenhum. (Citações extraídas do Luta Popular n9 881 e 882, de Abril e Maio).                                                                                          

Política Operária nº 77, Nov-Dez 2000

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