Os crimes do comunismo

Francisco Martins Rodrigues

No número especial da revista L’Histoire dedi­cado aos “crimes do comunis­mo” (nº 247, Outubro 2000), são retomadas as teses nos últimos anos desenvolvidas nos livros de Stephane Courtois e François Furet, o Livro Negro do Comunismo e Le passé d’une illusion. Já aqui argumentámos em torno dessas teses (P. O. nº 63) mas vale a pena determo-nos um momento no quadro traçado por Courtois. Para ele, “todos os regimes comunistas foram crimi­nosos”, “responsáveis pela morte de milhões de indivíduos”, res­ponsabilidade que viria já de Lenine, o qual, “com o cinismo de um político profissional”, “rom­peu com o socialismo democráti­co e apelou à guerra civil geral e ao desencadeamento de uma re­volução proletária mundial”. Lenine nem escapa à acusação de ter “abandonado a Rússia ociden­tal aos Impérios Centrais” em 1918, o que é realmente exces­sivo…

A “tragédia comunista” con­duziu no plano económico ao “desastre geral”, com o fiasco da URSS, “um dos países mais ricos em matérias-primas”, o atraso da Europa de leste a partir de 1945, a “falência permanente” do regi­me cubano… O comunismo é ain­da responsável pela “destruição de civilizações” (saque de igrejas na URSS, destruição de objectos de arte na “revolução cultural” chinesa), por catástrofes ecológi­cas como a de Tchernobyl. Mas o principal crime atribuído ao comunismo é, naturalmente, a des­truição de vidas humanas, com os milhões de mortos nos cam­pos de concentração, no Terror dos anos 30, na revolução cultu­ral chinesa, no Camboja, etc… Courtois chega assim à cifra que celebrizou o seu trabalho: 100 milhões de pessoas teriam pere­cido por causa do comunismo.

Sobre a ruína económica e cultural que teria sido causada pelos regimes comunistas nem vale a pena discutir. No espaço de meio século (entre 1920 e 1970, aproximadamente) um ter­ço da humanidade passou da mi­séria e das trevas medievais para o mundo moderno. Nenhuma das celebradas revoluções burguesas fez nada de semelhante, nem de longe – e sabe-se os terríveis cus­tos humanos que estas acarreta­ram.

Contudo, alega-se, o preço em vidas da transformação socia­lista foi esmagador, o que, só por si, a condenaria em definitivo. É esse o ponto forte da crítica de Courtois, o qual, para tornar a sua tese mais impressiva, não he­sita em arredondar a soma com as vítimas de guerras, fomes e catástrofes causadas nesses paí­ses pelo cerco económico e mili­tar das “democracias”, e inclusive com os comunistas mortos em defesa da revolução, os mortos das guerras civis de Angola e Moçambique, etc…

No afã de isolar o comunis­mo como uma excepção monstru­osa, ele vai mais longe: contesta que se deva atribuir um lugar à parte aos crimes do nazismo (25 milhões de mortos civis), com ar­gumentos pelo menos estranhos: inicialmente Hitler pensava ape­nas em expulsar os judeus, não em matá-los; o extermínio dos judeus é da mesma natureza do plano bolchevique de “liquidar a burguesia como classe”; o assas­sinato industrial nas câmaras de gás e nos fornos crematórios só começou em 1942… Haveria por­tanto uma rectificação de fundo a fazer, pois “a uma hipermnésia dos crimes nazis corresponde uma amnésia dos crimes comu­nistas”.

A lógica que preside a estes raciocínios já tem sido analisada. Para Courtois todo o desvio ao modelo democrático burguês, idealizado como o mais perfeito, é uma “experiência” anómala, que só pode conduzir ao desas­tre e ao crime. Alguém deve ser responsabilizado, portanto, pelo facto de a Rússia e a China não terem passado à modernidade pela via “normal” europeia. Lenine, Mao e os partidos comunistas devem ser condenados porque o “ódio à burguesia” e o “mito do proletariado” por eles alimenta­do foram “motores essenciais do totalitarismo”. Ou seja, deste ponto de vista toda a corrente social que ponha em causa o capi­talismo e lute pelos direitos do proletariado é potencialmente criminosa. Podemos detectar aqui a atitude fascista a emergir da lógica de classe da burguesia levada às suas últimas conse­quências.

Num outro artigo desta re­vista o historiador Nicolas Werth faz uma abordagem mais séria da questão, no que se refere à URSS, baseada na consulta dos arquivos soviéticos. Ele regista 800.000 pessoas condenadas à morte entre 1921 e 1953, na sua grande maioria as vítimas do Terror de 1937-38; 25.000 pola­cos executados sumariamente em 1940; pelo Gulag passaram en­tre 1930 e 1953 15 milhões de soviéticos, um quarto dos quais por motivos políticos; deste total, Werth calcula em cerca de um milhão e meio o número de mor­tos, por privações, doenças, rigor do clima, abandono; o ano de 1933, de grande fome, foi parti­cularmente mortífero para os presos. Depois, há que ter em conta os deportados, cerca de 6 milhões no total, com destaque para os kulaks, sujeitos a tre­mendas privações em regiões inóspitas. Por fim, as vítimas das grandes fomes: 5 milhões de mortos em 1921-22, 6 milhões em 1932-33, meio milhão em 1946-47.

A discussão em torno dos massacres e catástrofes ocorridos em nome da ideologia comunis­ta, muito tempo ocultada, tem que prosseguir. Os comunistas são os mais interessados nisso. Mas com os seus próprios concei­tos e rejeitando os critérios bur­gueses, que falsificam a investi­gação. Primeiro, porque lançam à conta dos regimes “socialistas” situações de catástrofe deliberadamente causadas pelas “demo­cracias ocidentais”. Segundo, porque apresentam revoluções envolvendo centenas de milhões de pessoas como “experiências” de que se deveria pedir contas a líderes fanáticos e tresloucados. Terceiro, porque comparam uma época de tempestuosas transfor­mações sociais no Leste com regi­mes burgueses estabilizados no Ocidente; se pusermos em com­paração as catástrofes do Leste com as causadas pela burguesia europeia no período do seu ascenso, veremos que não se afas­tam muito. Quarto, finalmente, porque, ao fazer o balanço dos “crimes de massa” deste século, os críticos do “totalitarismo” fo­gem a pôr no prato da balança a responsabilidade determinante das democracias nas terríveis matanças das duas guerras mun­diais, como se estas fossem pro­duto da fatalidade, e os milhões de vítimas de Dresde, Hiroshima e Nagasaki, das guerras da Co­reia, da Argélia, do Vietname, dos massacres no Ruanda, Indo­nésia, América Latina, da fome em África – da sucessão de mo­dernos genocídios que servem de pano de fundo ao “progresso e estabilidade” do Ocidente.

 Política Operária nº 77, Nov-Dez 2000

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