Festa estragada

Francisco Martins Rodrigues

 Verdadeiro balde de água gelada foi a reacção dos brasi­leiros à cena de amor paternal longamente ansiada e ensaiada deste lado do Atlântico, por oca­sião dos 500 anos da viagem de Cabral. Houve quem ficasse em estado de choque com o co­mentário de Caetano Veloso: “O que Portugal veio fazer ao Bra­sil foi sugar e matar índios”. E quando Jorge Sampaio passar por Porto Seguro, no próximo dia 22 <è Abril, vai defrontar-se com uma grande manifesta­ção de repúdio pelas comemo­rações oficiais, animada por uma comissão que adoptou o nome de “Outros 500”, na base de uma frente comum de movi­mentos de negros, índios, trabalhadores rurais sem-terra e sin­dicalistas. Pergunta a comissão: ‘ Comemorar o quê? A invasão?”, e sugere que “a única atitude decente que Portugal poderia tomar seria recusar-se a partici­par desta farsa”, já que a colo­nização portuguesa foi directamente responsável pela criação de um país racista.

Todavia, o pequeno chauvi­nismo português investiu dema­siado nesta exibição de orgulho para voltar atrás. E as autorida­des insistem em comemorações pomposas que mal disfarçam o fiasco, como aconteceu há dois anos com as da viagem de Vasco da Gama à Índia, escondendo a nostalgia imperial atrás de argu­mentos ‘científicos” e “huma­nistas”.

Este e ainda um sentimento muito difundido entre nós. Num artigo recente (Público, 3/3), Miguel Sousa Tavares reagiu com azedume à ingratidão dos brasileiros, incorrendo nas ha­bituais desculpas: “Não se pode julgar a História pelos padrões éticos contemporâneos”, “não vamos ficar eternamente a pe­dir perdão pelos crimes do colo­nialismo”, “não se podem redu­zir os males de que padece o Brasil à herança da colonização portuguesa”, “nós também não nos lastimamos da herança que nos deixaram os mouros”… Le­vado pelo brio patriótico, chega ao ponto de invocar o papel do padre Vieira (!), a grande honra de o Brasil ter sido a certa altu­ra sede do império português e até os fortes erguidos na Ama­zónia por iniciativa do marquês de Pombal, com pedras levadas de Portugal…

Sousa Tavares não vê nas suas opiniões “nenhum comple­xo de colonizador”, mas é esse efectivamente o seu problema. Porque a questão não está em saber quem matou mais índios e negros, se os portugueses en­quanto lá estiveram, ou os brasileiros depois de independen­tes, mas em reconhecer que Portugal fundou ali uma socie­dade de apartheid, cujas taras se prolongam até à actualidade. Nem se trata de “pedir perdão pelo colonialismo” mas de cha­mar, de uma vez por todas, cri­mes aos crimes e repudiar as mal-cheirosas ficções embelezadoras do colonialismo com que continuam a ser alimentadas gerações no nosso país, tantos anos depois do 25 de Abril. Nem tem cabimento a compara­ção com os mouros como fa­cilmente entenderia quem não estivesse cego pela paixão pa­triótica , porque os mouros que aqui ficaram depois da Re­conquista ficaram como párias e não como dominadores, que foi o caso dos portugueses no Brasil depois da independência.

O Bloco de Esquerda reali­za, por ocasião das comemora­ções, dois comícios de protesto, um em Lisboa e outro no Porto, com a colaboração de represen­tantes do Movimento dos Sem-Terra. Apoiamos sem reservas esta salutar iniciativa de desmistificação da opinião públi­ca.

Política Operária nº 74, Mar-Abr 2000

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