À margem da Cimeira de Lisboa

Francisco Martins Rodrigues

Não posso senão concordar com Fernando Rosas (Público, 29/3) quando se insurge contra os pretensos êxitos da Cimeira de Lisboa na luta contra o desemprego. Como também subli­nhou com vigor o Avante, as medidas de fundo aprovadas vão todas no sentido da liberalização e privatização dos serviços ainda sob controlo estatal e da maior “flexibilização”   do trabalho.

As acções solenemente anunciadas para a cria­ção de novos postos de trabalho ou são mera cosmética para deitar poeira para os olhos da opinião pública, ou visam criar mais empregos precários e sem direitos, os únicos em que os modernos gestores estão interessados. A “Ci­meira do emprego” vai activar o desemprego -, o que até está certo: dizer o contrário do que se faz tornou-se uma norma para os governantes.

Tem razão pois Rosas em escrever que “a cimeira de Lisboa desferiu um golpe de­cisivo no chamado modelo social europeu” e em fustigar a hipocrisia dos governos eu­ropeus, e em particular a do “socialista Guterres.

Onde já não acompanho Fernando Ro­sas é quando ele quer ver nesta política uma “capitulação perante o modelo neoliberal e desregulamentador americano” e acre­dita que se lhe possa opor “um modelo de economia e de sociedade onde o progresso tecnológico possa servir o trabalho, a cida­dania, o bem-estar e a segurança da maio­ria, bem como a defesa da natureza e da paz”.

É que, muito simplesmente, esse mode­lo alternativo não existe dentro deste siste­ma. O que está em jogo não é um “modelo americano neoliberal” a que se possa opor um “modelo europeu” com direitos sociais e sindicais. O progresso tecnológico, que ninguém pode deter, acelera a vertigem das concentrações e das fusões, o gigantismo das transnacionais, o poderio incontrolado da finança. Temos perante nós um único “modelo”, o do capitalismo avançado. O capital ganha tal ascendente sobre a massa assalariada que já pode dispensar antigas concessões e compromissos: o chicote do desemprego é tão eficaz para submeter o trabalhador como uma boa polícia de cho­que.

O problema que nos defronta é pois muito mais sério do parece pensar Fernan­do Rosas. É pura quimera propor, contra a “nova economia”, o regresso à “velha eco­nomia”. O velho capitalismo passou à histó­ria. O capital está a cilindrar todas as defe­sas laboriosamente erguidas pelo movimen­to dos trabalhadores ao longo do século não por efeito de uma “moda” vinda dos Estados Unidos, mas porque essa é uma evolução necessária ao próprio sistema ca­pitalista, um fenómeno universal resultan­te da luta pelos mercados e do alastramento canceroso do capital financeiro.

É sobre isto que a esquerda tem que se pronunciar: como fazer ver aos trabalhado­res que este sistema é irreformável? como dar-lhes confiança para deitarem mãos à obra? como minar agora as bases do capita­lismo com vista ao seu desmoronamento? Mas, curiosamente, esta esquerda que tão calorosamente saudou o derrube do Muro pelos povos da Europa oriental, mostra-se tímida e titubeante quando é preciso falar do derrube do nosso “Muro”.

Amigo Rosas: uma esquerda que teima em bradar na época actual por uma utópica “Europa social”, receando dizer que isso envolve a expropriação do capitalismo, o derrubamento da burguesia, está simples­mente a servir a sua dose de haxixe aos trabalhadores. E as drogas, todos o sabem, podem dar uma sensação momentânea de bem-estar, mas destroem a consciência.

Política Operária nº 74, Mar-Abr 2000

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