“Votar à esquerda”, qual esquerda?

Francisco Martins Rodrigues

Para os que continuam a considerar-se de esquerda, o desafio é claro: impedir um novo governo PSD ou PSD/ CDS e manifestar a sua desconfiança no PS e no PRD, votando numa das candidaturas “de esquerda”— CDU, UDP ou PSR. Mas será que existe esquerda hoje em Portugal? Os comentários que se seguem pretendem explicar porque não tem “P. O. ” uma opção de voto e proporcionar motivos de reflexão que ajudem a construir uma verdadeira corrente de esquerda. Sem a qual os destinos da política nacional continuarão a ser jogados entre a direita e a social-democracia.

CDU: Euforia lamentável

SE GOSTAM de ouvir verdades vão aos comícios da CDU. “O governo Cavaco PSD ignora as reivindicações dos trabalhadores, acelera a entrega dos sectores rentáveis das empresas publicas ao grande capital, alarga os privilégios da banca privada, faz concessões ruinosas aos países do Mercado Comum. A politica do governo beneficia os ricos e prejudica os pobres, è uma política de corrupta espe­culação. é antinacional”.

“É a pura verdade”, concordam milha­res de trabalhadores. Ao menos os comu­nistas não estão feitos com a pouca vergonha que vai por aí”. E mobilizam-se para ganhar votos para a CDU.

GRANDES ESPERANÇAS

Quem pensava que a deserção do MDP/CDE ia deixar o PCP isolado e em crise enganou-se A APU reconstituiu-se em CDU num abrir e fechar de olhos e volta à luta com o garbo habitual Porque o PCP, tratado depreciativamente pelos rivais à sua direita como “um partido do passado”, continua bem implantado numa larga faixa operária, popular e intelectual, que vê nele o seu espaço natural de afirmação.

A lógica da campanha é, como de cos­tume, duma simplicidade cativante: 1) manter a direita em minoria, 2) obter uma maioria democrática, 3) reforçar a votação na CDU. E as perspectivas são mais do que nunca galvanizadoras, a acre­ditar nos discursos dos líderes. Carlos Costa no Palácio de Cristal do Porto: “Nunca como agora foi tão clara a perspectiva de que uma vitória das forças democráticas se transforme em convergência dos partidos democráticos que dê, finalmente, lugar a um governo democrático”.

Mas não é difícil divisar, por detrás deste optimismo de encomenda, duas pre­ocupações secretas.

RECEIOS SECRETOS

A primeira é o receio de que a direita possa sair reforçada em 19 de Julho. “As eleições são desnecessárias, como quase todos sabem, perigosas como todos sen­tem”, nota o Avante de 9 de Junho.

“Perigosas” porquê, se o governo PSD é abominado pela massa da população e foi derrubado pelas grandiosas lutas do movi­mento popular, como não se cansa de afir­mar o PCP? Não é, pelo contrário, óptima a oportunidade para dar uma grande lição à direita? Podem a demagogia de Cavaco e a sua manipulação da comunicação social confundir um eleitorado que estaria massivamente mobilizado?

A verdade é que o PCP receia, embora não o possa dizer, que uma grande percen­tagem de trabalhadores, derrotados e des­moralizados por 12 anos ininterruptos de recuos ordeiros, se conforme docilmente à vontade do capital, que é quem põe e dis­põe, e volte a votar no PSD, “para haver estabilidade no governo e acabar a crise”.

O segundo receio é de que, no campo da oposição, haja uma forte deslocação de votos para o PS à custa da CDU, devido à ideia de que o único voto útil contra Cavaco é reforçar a posição de Constâncio, para que este possa governar.

E aqui o PCP vê-se apanhado na engre­nagem da sua própria política. Por um lado, assegura que existe uma “convergência dos partidos democráticos” que fez cair Cavaco na Assembleia. Mas por outro lado tem que avisar que “se o PS apanhasse os votos da esquerda voltava-lhe costas e virava-se para o PSD”. (Cunhal no Riba­tejo, Avante de 28 de Maio).

Que “partido democrático” é o PS, se toda a sua política, no governo e fora dele, ião se distingue da que está a ser praticada pelo PSD? Que “convergência democrá­tica” pode existir, quando o PS e o PRD estão em todas as questões muito mais próximos da direita do que do PCP?

Cunhal e a CDU enfrentam assim a difí­cil tarefa de galvanizar os eleitores para a perspectiva de um governo “na base dos partidos democráticos — PCP, PS e PRD”, mas de os alertar ao mesmo tempo para o perigo de que “os partidos democráticos venham novamente a aliar-se à direita”. (“Avante”, 4/6). Isto é: é preciso garantir que há uma alternativa de esquerda, mas ao mesmo tempo avisar de que não há esquerda nenhuma (fora do PCP, naturalmente).

Resta assim ao PCP travar uma difícil batalha de retaguarda, destinada apenas a conservar a sua votação, mas dando-lhe as cores duma ofensiva imparável; exibir uma inabalável confiança na “alternativa demo­crática” que aí vem, mas assistir impotente às negociações que prosseguem entre o PSD e o PS para rever a Constituição e partilhar o poder em alternância; mostrar uma descontraída desenvoltura, como forte partido democrático indispensável às instituições, mas ver-se escorraçado de todos os arranjos do poder; apelar à “luta dos trabalhadores”, mas estar atento para que nenhum conflito irreflectido possa provocar o mau humor do PS e do PRD; disfarçar, mentir, envenenar a consciência dos operários com capitulações constan­tes, mas falar nas “perspectivas luminosas da democracia e do socialismo”.

É por isto que eu não voto CDU.

Política Operária nº 10, Mai-Jun 1987

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