Um guerrilheiro em apuros

Francisco Martins Rodrigues

SE QUEREM divertir-se a valer, leiam as aventuras e desventuras deste infeliz chefe da segurança do PS. vítima da sua dedicação às instituições (O Processo das Armas, Edmundo Pedro, Editorial Inquérito, 1987).

 Edmundo Pedro é aquele ope­racional desastrado que esteve preso em 1978 por ter sido apanhado com um lote de espingardas que lhe tinham sido distribuídas por Eanes no 25 de Novembro, e que foi na altura acusado de toda a espécie de falcatruas.

Amargurado com a injustiça de que foi vítima, resolveu-se finalmente a quebrar o silên­cio e a pôr a história em pratos limpos. Uma história que vem na altura própria porque é o contraponto mais instrutivo aos 500 anos de cadeia aplica­dos aos presos do caso FUP/FP-25. A farsa vem completar o drama.

Eis os factos, como Edmundo Pedro os relata: no Verão quente, quando os seus camaradas fugiam como coe­lhos, apavorados com os des­mandos da vanguarda revolucionária, ele meteu-se em brios e quis mostrar que ainda havia socialistas capa­zes de arriscar a pele na defesa da ordem. Foi a reuniões secretas com Eanes e Garcia dos Santos; recebeu das mãos de Eanes um plano de opera­ções de sabotagem e guerrilha urbana; recebeu material roubado ao Exército — emissores-receptores, forneci­dos por Garcia dos Santos (na altura secretário de Estado do VI Governo provisório) e, na própria noite do 25 de Novembro, em Cascais, 150 espingardas mandadas entregar por Fanes: formou grupos de civis, distribuiu-lhes as armas e ficou à espera das ordens para entrar em acção.

A contraguerrilha do comandante Edmundo Pedro não chegou a actuar, pela sim­ples razão de que não havia guerrilha a combater. De toda a maneira, consolidadas as instituições, o nosso homem sentia-se de bem com a sua consciência e não achava nada de mais terem-no pro­movido a dirigente do par­tido, deputado e presidente da RTP.

Eis senão quando, a direita, interessada em desestabilizar o PS e desalojá-lo do poder (acabara justamente de cair o governo de Mário Soares), lançou-se na pista das armas desviadas e conseguiu que o atarantado Edmundo Pedro fosse caçado pela Guarda Fis­cal com a boca na botija, quando tentava transferir umas tantas espingardas para um esconderijo mais seguro.

Preso, alvo de uma campa­nha desenfreada de acusações por parte do Jornal Novo e do Expresso, Edmundo Pedro sentia-se naturalmente abatido, mas sem medir ainda todo o aperto da alhada em que estava metido. As armas, declarou ao juiz, tinham-lhe sido entregues no 25 de Novembro por oficiais que não desejava nomear e destinavam-se a ser devolvi­das, como de resto já fizera anteriormente com dois outros lotes. O assunto era delicado e melindroso e não devia ter publicidade.

O pior foi quando aqueles que tinham obrigação de o defender trataram de sacudir a água do capote. Eanes, então Presidente da Repú­blica, emitiu um comunicado sorna, reconhecendo que as armas tinham sido distribuí­das durante o estado de sítio, mas não esclarecia que esta­vam em curso encontros regu­lares entre Edmundo Pedro e o general Galvão de Figuei­redo para a devolução do material, nem confirmava que os números de registo das armas tinham sido raspados por ordem sua; em vez disso, para se cobrir perante a direita, dava a entender que Edmundo Pedro fugia a devolvê-las, apesar de inti­mado a fazê-lo!

E o PS? O PS, que promo­vera o negócio e que mandara Manuel Alegre a negociações secretas com Eanes, já desde antes do 11 de Março; o PS, que recebera as armas nas suas sedes na noite fatídica e as distribuíra por duvidosos capangas da segurança, como um tal Centeio Maria — o PS teve o arrojo de reprovar em comunicado “um comporta­mento de que não tinha conhecimento e a que é em absoluto alheio”!

Calculem agora as angús­tias do infeliz Edmundo, tendo de se haver sozinho com um juiz, simplesmente cas­murro ou feito com a direita, que teima em que “foi apa­nhado com armas de guerra, tem que levar pena maior ”!

Quando Edmundo Pedro está à beira de um colapso nervoso, Mário Soares, visita-o à socapa na cadeia e pede-lhe que não conte os pormenores, porque se há-de arranjar uma saída. Por fim, após seis meses de negocia­ções e cambalachos, um juiz da Relação, mais compreen­sivo do que o outro,convence-se a abafar o caso e a libertá-lo.

O pior estava passado. Mas ao fim de todos estes anos, o nosso homem ainda não se conformou com a partida que lhe pregaram. Primeiro, nin­guém cuidou de reabilitar o seu nome de patriota e fica­ram no ar suspeitas de traficâncias várias (que ele tenta rebater no livro com explica­ções minuciosas mas não muito convincentes). Segundo, depois dos suores que lhe fez passar, o general Eanes teve o desplante (ou a estupidez caserneira, apenas?) de lhe mandar perguntar se queria encarregar-se de recu­perar o resto das armas em falta! Por último e para cúmulo, a Direcção de Com­bate ao Banditismo da PJ começou agora a ameaçá-lo com novos processos penden­tes se não desencantar as G3 ainda tresmalhadas.

Compreende-se assim que Edmundo Pedro, farto de fazer o papel do mexilhão para salvar a honra das insti­tuições. tenha perdido a paciência e se tenha decidido a passar a batata quente. Conta tudo. ou quase tudo. sobre o negócio das armas, ajudando a perceber melhor porque é que Eanes e Soares se torna­ram como cão e gato. Lá vem a fotocópia do plano manus­crito que lhe foi entregue pelo estratego amador Ramalho Eanes. ordenando “golpes de mão ” contra quartéis, esqua­dras da polícia e emissoras de rádio e nem sequer se esque­cendo de recomendar que “se explorem os sentimentos reli­giosos do povo” para criar ambiente favorável ao golpe. Lá vêm as implicações de Manuel Alegre na conspirata, como chefe do sector de segu­rança do PS. Lá vem a pro­posta, ao que parece muito recente, dum inspector da Judiciária para a devolução clandestina das armas no par­que de Monsanto. E nem sequer lhe falta, para tornar a história ainda mais apimen­tada, a tola designação do plano golpista como “pro­jecto global”, cinco anos antes daquele que levou Otelo a amargar a pena de 15 anos de cadeia…

O verdadeiro golpe do 25 de Novembro, o da social-democracia aliada à direita, que na altura só a UDP e pou­cos mais se atreveram a denunciar, já não é hoje segredo para ninguém. Teve já mesmo honras de um relato oficial pelo jornalista Freire Antunes. O mérito do livro de Edmundo Pedro está contudo em lhe pôr a descoberto com crueza involuntária os lados mais sórdidos. Edmundo Pedro ainda não percebeu que há coisas que se fazem mas que não se dizem. E interroga-se, com ingénua perplexidade, ao longo das 300 páginas do seu testemunho: porque é que os militares e o PS, em vez de se orgulharem pelo episódio das armas roubadas, teimam em querer descartar-se de responsabilidades. mesmo já passados tantos anos e conso­lidada a vitória democrática? Então não foi uma acção legítima e patriótica, para salvar Portugal das garras da anar­quia comunista?

O desgraçado não percebe que esteve metido num golpe sem tiros, num golpe de intriga que triunfou sobre­tudo pela cadeia ininterrupta de compromissos que ligou, duma maneira ou de outra, todos os que queriam acabar com a desordem: de Morais da Silva a Eanes. de Pires Veloso a Soares. de Melo Antunes a Cunhal, de Costa Gomes a Otelo – sim, ao pró­prio Otelo sem estatura para chefe da esquerda e hoje vítima dos seus eternos ziguezagues.

Num golpe destes, incapaz de assumir a sua própria legi­timidade e obrigado a cobrir-se com a “defesa da legalidade democrática”, não convém que se venha agora falar em roubos de armas e em planos de assaltos a quartéis. E os patetas que o não compreen­dam terão de pagar por isso.

A história de Edmundo Pedro é pois, para a generali­dade das forças políticas, um documento “perturbante”, difícil de digerir na campanha eleitoral que agora se inicia.

Para o PRD, por razões óbvias, a figura do general Eanes sai deste relato ainda mais tacanha e ridícula do que já era. Isto poderia ser uma vantagem para o PS se os seus telhados também não fossem de vidro; a história do 25 de Novembro põe sobretudo a nu o papel contra-revolucionário da social-democracia, sob a batuta dos EUA e de Carlucci, Para a direita, seria útil desacreditar Eanes e o PS mas não é tacticamente con­veniente queimar o prestável Mário Soares. E o PCP pode rir-se para dentro mas, como de costume, não irá fazer uso de um escândalo que afecta sobretudo o regime, a que está preso pelo nariz; em todo o decorrer da história das armas, é o próprio Edmundo Pedro que o reconhece, o PCP manifestou grande reserva e sentido das responsabilidades, para “não dar argumentos à direita”.

É para nós, para a esquerda, que as pacóvias revelações de Edmundo Pedro são sobretudo úteis; porque traçam um retrato devastador desta piolheira a que se costuma chamar o novo Portugal democrático e ajudam involuntariamente a reabilitar a ideia da necessi­dade da revolução que não se chegou a fazer.

Política Operária nº 10, Mai-Jun 1987

 

 

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