Pregação no deserto

Francisco Martins Rodrigues

AFRIQUE-ASIE. Destaque no n.° 394 (23 Fevereiro a 8 Março) para uma entrevista com Samir Amin que expõe a tese da sua última obra, La Déconnexion, a “descone­xão”, termo algo arrevezado com que designa a sua pro­posta de uma nova estratégia para os países do Terceiro Mundo.

Em resumo, Amin regista a morte sem apelo da era de Bandung, que durante vinte anos (1955-1975) permitiu aos movimentos de libertação aproveitar a prosperidade e expansão do capitalismo para regatear condições mais van­tajosas na exportação de matérias primas, poupando os custos de uma ruptura com o imperialismo e com a sua própria burguesia interme­diária.

Hoje, essa conjuntura favo­rável é só uma recordação. O reforço da hegemonia ameri­cana, apoiada no garrote do FMI, a ofensiva ocidental sem precedentes, a inconsistência do apoio soviético, que há 30 anos se julgava ilimitado, dei­xaram esses países à mercê do neocolonialismo. Outrora, as burguesias nacionais batiam- se pelo controlo das matérias primas, pela nacionalização das minas, pela soberania sobre os seus recursos nacio­nais; hoje, vêem-se forçadas a suplicar aos países ocidentais que lhes comprem essas mes­mas matérias primas “a pre­ços de saldo”.

Que fazer? A desconexão consistiria na “submissão das relações externas, não apenas económicas mas também políticas, culturais, militares, aos imperativos de um desen­volvimento nacional e popu­lar”. O que seria possível pela aliança de interesses sociais diversos, que se exprimem nas tendências socialista, capita­lista nacional e estatizante. Aliança formada em torno de uma plataforma comum nacional e popular, nem socialista (o que Amin consi­dera ainda fora do horizonte) nem capitalista dependente. Em sua opinião, a Nicarágua e a Etiópia constituem dois exemplos possíveis desta via.

A “desconexão” tornar-se- ia possível em África se se convencesse a fracção revolu­cionária da intelectualidade a distanciar-se da ideologia já ultrapassada da libertação nacional e a deixarde contem­porizar com a burguesia “compradora”. Assim pode­ria ganhar o apoio popular indispensável para levar a cabo uma série de reformas.

O que torna utópica a estra­tégia proposta por Samir Amin é a suposição de que as burguesias nacionais do Ter­ceiro Mundo possam liderar uma combinação de forças apontada contra o imperia­lismo. Há exemplos de sobra a mostrar que uma viragem “progressista” de certas frac­ções da burguesia só surge quando elas são empurradas para cima pela luta das rrtas- sas assalariadas. E estas, para desempenharem um papel activo, precisam de muito mais do que uma estratégia de compromisso “nacional e popular ”.

Samir Amin, como tantos outros marxistas transviados dos nossos dias, erra o alvo das suas preocupações. O seu trabalho pedagógico junto das burguesias nacionalistas é pregação no deserto. Que vai deixando oculta a grande omissão— a emancipação revolucionária das massas proletárias. Em África como em todo o mundo.

Política Operária nº 9, Mar-Abr 1987

 

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