A desforra

Francisco Martins Rodrigues

TUDO COMEÇOU há um ano, com a grande viagem náutica do presidente Soares, em demanda das terras do Oriente, na esteira dos navegadores de Quinhentos. Depois, no 10 de Junho, houve recepção no palácio de Queluz e missa solene nos Jerónimos pelo Cardeal Patriarca. E agora aí temos uma réplica exacta da caravela de Bartolomeu Dias prestes a sulcar a rota do Cabo, excursões histórico-patrióticas a Marrocos para admirar os restos das muralhas gloriosas, e a televisão e a rádio a celebrar diariamente a epopeia humanista e universalista dos Portugueses, “que deram novos mundos ao mundo”.

Há quem não goste, é certo, mas apenas por achar pouco. Critica-se o governo pela falta de grandiosidade das comemorações oficiais, que nos deixa ficar mal ao pé da Espanha. E o sr. Artur Portela sugere no “Diário de Noticias” o que se deveria fazer: um debate televisivo com celebridades mundiais acerca dos Descobrimentos; um grande espectáculo internacional patroci­nado pela Unesco; uma telenovela histó­rica luso-brasileira; e até — porque não? — o treino urgente de um cosmonauta português, para demonstrar ao mundo que o espírito intrépido dos descobridores está vivo.„.

Donde nasceu o clima para esta nostal­gia imperial, para este festival enjoativo de orgulho patrioteiro rançoso? Como é pos­sível ouvirmos, passado tão pouco tempo, as pachouchadas salazaristas sobre a grandeza da história pátria, desenterradas quase palavra por palavra? Não é inde­cente exaltar as façanhas de Quinhentos quando o Império colonial português ainda mal acabou de desabar, no meio de massa­cres repelentes?

A isto responderão naturalmente os nossos patriotas, de consciência tranquila, que apenas celebram o lado bom dos Des­cobrimentos, a sua contribuição para a cul­tura, para a ciência e para a civilização moderna. Longe deles qualquer intuito de reabilitar o colonialismo, esse lamentável acidente de percurso, de resto já ultrapas­sado. E lá porque se cometeram alguns excessos, deveríamos calar o que de posi­tivo os Portugueses deram ao mundo?

Só há uma dificuldade para esta argu­mentação tão ingénua. É que o lado bom e o lado mau dos Descobrimentos são inse­paráveis. Os marinheiros e capitães que se lançavam a devassar os oceanos eram os mesmos que saqueavam e queimavam as cidades do Oriente, degolavam mulheres e crianças infiéis e carregavam os porões das naus com escravos acorrentados como gado para vender em leilão. A mola real da sua “curiosidade científica” era a desco­berta do lucro. E com tal sofreguidão que, muitas vezes, no regresso, as naus abarro­tadas iam a pique, levando para o fundo mar os descobridores, mais as suas riquezas e os seus escravos.

é impossível separar os Descobrimen­tos do colonialismo. E mais: nem sequer há a desculpa de dizer que a empresa cientí­fica dos Descobrimentos descambou, por acidente, no colonialismo. O que se passou foi exactamente o contrário: a busca da pilhagem é que provocou o aperfeiçoa­mento das técnicas de navegação, o estudo da geografia e a intrepidez dos descobrido­res. O lado bom foi um mero subproduto do lado mau. Como é de regra nas empresas do capitalismo.

É isto que parecem ter esquecido os nossos patriotas democratas da nova vaga O que só os torna mais cínicos e mais des­prezíveis que os salazaristas. Esses ao menos assumiam descaradamente o seu reaccionarismo. Exaltavam os Descobri­mentos porque eles lhes tinham dado um império para explorar. Estes agora querem convencer-nos de que admiram os Desco­brimentos só por espírito humanista. Não brinquem connosco…

Vamos ser francos. A nossa burguesia já está saturada de autocrítica anticolonial. Desde que foi derrotada nas guerras de África tem andado a bater com a mão no peito e a lamentar os “excessos” cometi­dos. Agora sente que já é hora de retomar o orgulho em si própria. Já chega de andarmos de cabeça baixa, que diabo! Se fize­mos crimes, os outros não fizeram menos, é assim a História. Portanto, viva a epopeia dos Descobrimentos!

Esta cura de autoconfiança, natural­mente, tem muito a ver com a hora difícil da integração europeia. É para a burguesia uma espécie de desforra simbólica, no momento em que descobre humilhada que não passa duma subsecção marginal na ­engrenagem gigantesca do Mercado / Comum. Sempre é consolador, no momento em que se perdem de vez todas as veleidades de independência, cantar as glórias imperiais de outros séculos.

Mas não só. É também um capital a rentabilizar no regateio dos orçamentos comunitários, porque faz lembrar aos patrões de Bruxelas que os portugueses / lhes são indispensáveis como intermediários privilegiados junto dos novos países africanos. Junta-se o útil ao agradável. É a velha vocação do Portugal subempreiteiro que ressurge.

Contudo, a raiz mais profunda de todo este ardor patriótico, a que está mais oculta mas que é a verdadeira mola impulsiona­dora de tudo, é interna: resulta da necessi­dade da burguesia recuperar a autoridade moral perante as massas.

É bem sabido que, para impor a sua lei, toda a classe exploradora precisa, não ape­nas de exército, polícia e tribunais, mas também de uma imagem histórica de gran­deza, que legitime a força bruta. E a nossa sociedade chegou àquela hora exacta em que negociantes, empresários, estadistas e quadros precisam duma justificação histó­rica para enobrecer a sua corrida ao lucro Glória aos Descobrimentos!

Eu ia jurar que a burguesia portuguesa — e sobretudo a sua fracção democrata — se envergonha hoje da imaturidade e vaci­lação de que deu provas quando o império colonial ruiu e foi forçoso desembaraçar-se do regime fascista. Nesse aperto, ao encontrar-se derrotada, desacreditada e desamparada perante o povo, a burguesia entrou em pânico, choramingou, repudiou os valores do passado, permitiu que tudo fosse criticado. Rebaixou-se até ao ponto de prometer na Constituição uma “socie­dade sem classes” e o “fim da exploração do homem pelo homem”, tornando-se motivo de escárnio para os franceses, ingleses, americanos, que nunca tinham visto um espectáculo de cobardia tão caricato.

O resultado, é claro, foi a falta de res­peito dos trabalhadores pelos mais puros valores nacionais. E quando se entra por esse caminho é a produtividade que se afunda, a indisciplina que se instala nas empresas, a desordem que espreita nas ruas.

Eis porque é tão importante hoje reabili­tar os Descobrimentos (só na parte cientí­fica, atenção!), amanhã erguer um monumento aos heróis do Ultramar (será crime homenagear os nossos mortos?) e para o ano, talvez, reconhecer sem secta­rismos estéreis os lados positivos do dr. Salazar…

Assim, a restauração do reinado das sanguessugas é acompanhada pela restau­ração dos seus valores gloriosos.

Para terminar: agora que estão na moda as sondagens de opinião, eu gostaria de divulgar uma sondagem minha, particular, acerca dos grandes avanços feitos pelos Portugueses em matéria de anticolonialismo:

— contra o colonialismo (em geral e em abstracto) estão 95% —contra a política colonial do Estado Novo não serão mais de 70% —para condenar a prática dos colonos por­tugueses em África talvez ainda se arran­jem uns 20%.

— para reconhecer que os Descobrimentos foram uma empresa de pilhagem, não há mais de 2%.

Desconfio que, neste aspecto, estamos pior do que há 20 anos.

Política Operária nº 11, Set-Out 1987

 

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