Surpresas dum marxismo popular

Francisco Martins Rodrigues

MAIS DO QUE duvidosa a autenticidade deste “diário político” de Hoxha (“LAS SUPERPOTÊNCIAS. 1959-1984. (Extractos del diá­rio político)”. Enver Hoxha. Tirana, 1986). Tal co­mo nas “Reflexões sobre a China” e noutras memórias recentemente publicadas, procura-se demonstrar a perspi­cácia infalível do falecido di­rigente albanês, o que obriga a evidentes arranjos no texto original.

Arranjos por vezes caricatos, como a supressão do nome de Mehmet Shehu, cujo posto de lugar-tenente fiel é agora tomado por Ra­miz Alia. Arranjos outras ve­zes descuidados, como o que põe Hoxha a descobrir, já em 1959, que Kruchov “urdepla­nos horrendos”acerca da Al­bânia (pág. 10), mas, apesar disso, a referir-se meses mais tarde, como se nada fosse, a encontros de trabalho com o mesmo Kruchov “e outros ca­maradas soviéticos” (pág. 15). Arranjos intrigantes, por fim, quando não se encontra uma palavra acerca da ante­riormente alegada conspira­ção do embaixador soviético Ivanov para derrubar o regi­me albanês.

É pois muito limitado o va­lor histórico que se pode atri­buir a esta edição retocada (em muitos pontos talvez for­jada) das notas de Hoxha. Trata-se de material ideológi­co de consumo, produzido pela actual direcção albanesa para legitimar a sua autorida­de interna e junto da cambaleante corrente marxista-leninista. Resta o seu significa­do político, e esse não é de desprezar.

A política externa albanesa costuma ser citada, a Ociden­te e a Leste, como sinónimo de um stalinismo obstinado e obtuso, único no mundo ac­tual. Há nesta estranheza um elogio involuntário à teimosa independência de que têm da­do provas os dirigentes alba­neses ao longo de circunstân­cias muito difíceis.

As notas de Hoxha contêm muitos testemunhos indiscu­tíveis dessa independência que permitiu à Albânia man­ter-se à margem dos blocos, denunciar na ONU as mani­gâncias da diplomacia secreta e a grande mentira do “desanuviamento”, boicotar a Con­ferência de Segurança Euro­peia de Helsínquia, etc. Ho­xha capta com agudeza as con­tradições da política soviética na Europa oriental, mostra como a URSS sacrificou em 1970 os interesses da RDA para satisfazer Bonn, põe a nu as pressões para arrastar o Vietname a um compromisso na guerra com os EUA, a far­sa do “não-alinhamento” jugoslavo, etc.

Mas a lógica anti-imperialista de Hoxha tem tanto de radical como de acanhada. Revela uma estreiteza de vis­tas sobre a luta de classes in­ternacional que não abona em nada o “prisma marxista-leninista ” de que se julga de­tentor.

Estreiteza de vistas particu­larmente chocante no que se refere à degenerescência da União Soviética e do movi­mento comunista, que é o te­ma quase exclusivo do volu­me, apesar do seu título.

Que Hoxha em I960 ainda atribuísse a viragem do 20.° Congresso a manobras pouco ortodoxas de uma equipa in­capaz, é um erro de perspecti­va que não surpreende. To­dos os comunistas foram co­lhidos de supresa pelos novos ventos de Moscovo e não foi fácil compreender que a mu­dança de política era o pro­duto necessário de novas re­lações sociais.

Mas já é muito sintomático que nos anos seguintes, com a nova situação perfeitamente delineada, o dirigente albanês ainda continuasse a depositar “confiança nos bolcheviques da União Soviética ” (pág. 64), continuasse convicto de que os partidos comunistas só não se desligavam da União Soviética por “ainda não sa­berem” quem era Kruchov, e, mesmo em 1968, ainda espe­rasse pelo “levantamento dos marxistas-leninistas revolu­cionários checos” contra a ocupação soviética (pág. 226).

Durante a primeira metade da década de 60, Hoxha lu­tou na esperança de que em breve se faria no movimento comunista “a luz da verdade ” acerca de Kruchov. E mesmo depois de se lhe desvanece­rem as ilusões num sobressal­to regenerador dos comunis­tas da velha cepa, continuou a não entender o revisionis­mo moderno como ideologia de uma classe.

Para ele, a URSS caiu de­pois da morte de Staline “nas mãos de bandidos sem escrú­pulos” (pág. 49), cuja traição “arrastou consigo a degenera­ção moral, política, ideológi­ca e a das estruturas” (pág. 266-267). O quadro aparecia-lhe de pernas para o ar: não foi a constituição gradual de uma nova burguesia, durante o auge do “socialismo” stalinista que elevou ao topo do Estado os seus representantes; foi a infiltração sub-reptícia de um punhado de traidores que fez degenerar toda a sociedade soviética e, atrás dela, todo o movimento comunista!

Esta grosseira visão antimarxista não se deve só à de­ficiente formação dialéctica de Hoxha. Ela era-lhe neces­sária para não pôr em causa o período de Staline. Staline “foi e continua sendo um glo­rioso leninista, independentemente de algum pequeno erro que tenha cometido” (pág. 123). O socialismo e o poder soviético estariam florescen­tes até 1953. Inclusive, não passariam de lendas “o pre­tenso terror, cadeias e cam­pos do tempo de Staline” (pág. 294).

O stalinismo não podia ser posto em questão porque era o próprio alicerce das ideias políticas de Enver Hoxha. Como chefe e ideólogo de um poder de transição semelhan­te ao de Staline, Hoxha era de facto a pessoa pior coloca­da para explicar a génese so­cial do revisionismo moder­no: não podia entender o que se passara na URSS porque isso o forçaria a criticar os fundamentos do seu próprio regime.

Daí que a crítica apaixona­da de Hoxha aos “traidores”, com toda a sua retórica de princípios, tenha sido incapaz de armar a classe operária do Leste para a luta contra a no­va escravidão assalariada. Era guiada pela perspectiva, não de uma ruptura revolu­cionária, mas do retorno a uma etapa ultrapassada, que só a Albânia ainda percorre: o equilíbrio operário-pequeno-burguês mantido ferreamente pelo aparelho buro­crático de Estado em nome da ditadura do proletariado.

Esse cordão umbilical que une o “verdadeiro socialis­mo” de Hoxha aos seus ir­mãos mais velhos degenera­dos patenteia-se com crueza na apreciação que faz das greves polacas de 1980. Para o dirigente albanês, trata-se de um movimento “ao serviço da reacção”, de “grevistas contra-revolucionários ” (pág. 589). Não apenas pelas co­nhecidas ligações das cúpulas do Solidarnosc ao Vaticano e à CIA, mas porque a exigên­cia de sindicatos livres e a re­beldia dos operários contra o aparelho do partido, mesmo que esse partido seja tão po­dre como é o POUP, lhe sur­ge como um ultraje insupor­tável. Vê-se bem quais eram os seus receios profundos…

Esta ideia de que a União Soviética caiu nas mãos de “chacais pérfidos” que se de­dicam a “manobras diabóli­cas” falseia necessariamente todo o quadro das relações entre as duas superpotências. Hoxha volta durante anos, uma e outra vez, à versão que lhe parece mais lógica: Kru­chov é um “aliado e agente dos americanos” (pág. 103); EUA e URSS combinam de mútuo acordo o papel a de­sempenhar por cada um nos assuntos internacionais (págs. 170, 180-181); a camarilha kruchovista é uma “poderosa agência de espionagem” ao serviço do capitalismo mun­dial (pág. 267).

A ânsia por desmascarar os “traidores” encapotados leva-o por vezes a forçar a nota para além de todo o senso. Os russos fornecem ao Vietname “armas sabotadas que não funcionam “(pág. 133). E se a Roménia se finge de indepen­dente é porque recebeu uma “tarefa especial” nu estratégia do Kremlin, motivo por que “está autorizada a dar coices no patrão” (pág. 403).

Como se compreende, esta redução da política soviética a um enredo de espionagem não podia durar sempre. A partir de 1968, com a invasão da Checoslováquia, e sobre­tudo depois que a China pas­sa a denunciar a URSS como “um novo nazismo”, Hoxha oscila nas suas convicções simplistas. Não acompanha os chineses na suspeita pro­moção da URSS a “inimigo mais perigoso dos povos” mas vê-a como um imperia­lismo “novo, pujante, agressi­vo” (pág. 459), cujos mecanis­mos seriam decalcados pelos dos EUA: conquista de mer­cados, exportação de capi­tais, guerras de rapina. Conti­nua a escapar-lhe a dinâmica própria e a raiz das contradi­ções em que se enreda o social-imperialismo, porque re­ceia abordar a questão explo­siva — a base social dos re­gimes de Leste.

Ao mesmo tempo, a tese de que a revolução marcha de vento em popa.

1965: “Tudo marcha a fa­vor do marxismo-leninismo, da revolução, do socialismo e do comunismo” (pág. 167).

1966: “Os povos verão ca­da vez mais claro o perigo desta traição [revisionista] e lançar-se-ão na revolução. Essa será a luta final” (pág. 184).

1968: “A situação mundial evolui sempre a favor da li­bertação dos povos, a favor da revolução” (pág. 237).

1980: “Acentua-se conti­nuamente o enfraquecimento das duas superpotências, es­tranguladas pela luta revolu­cionária dos povos” (pág. 542).

Este optimismo empederni­do, que todos os que passa­ram pela chamada corrente M-L bem conhecem, será pa­ra muitos a prova da confian­ça inabalável de Hoxha na re­volução. Parece-nos, pelo Contrário, o traço mais típico do seu idealismo popular-democrático-nacional de fun­do pequeno-burguês.

De facto, para Hoxha, o fio condutor da política mun­dial não está na luta entre proletariado e burguesia mas na “defesa pelos povos dos seus interesses nacionais su­premos face à ameaça das duas superpotências”. Esta é a ideia a que volta constante­mente ao longo do volume. O próprio socialismo seria, ele também, um derivado natu­ral dessa luta pela indepen­dência: “Os povos querem a democracia e a soberania e marchar na via do socialis­mo” (pág. 484).

Hoxha nunca foi capaz de reconhecer que o movimento anti-imperialista se desdobra em componentes antagóni­cas: a luta tortuosa e vacilan­te das burguesias patrióticas, que querem dispor do seu mercado nacional e explorar o seu próprio proletariado e campesinato; e a luta, ainda embrionária, dos proletários e semiproletários contra a ex­ploração capitalista externa e interna.

Esse novelo de contradi­ções transforma-se na sua pe­na numa homogénea luta na­cional anti-imperialista. As­sim, a propósito da Unidade Popular no Chile, em que não tem uma palavra de crítica para o suicida reformismo allendista (págs. 366-370). É a velha ilusão de que, minimi­zando as lutas no seio do “po­vo”, se obtêm uma força maior contra o inimigo co­mum.

E como este mito popular não pode manter-se estático, ele começa a evoluir, na últi­ma fase da vida do dirigente albanês, para o apoio à com­ponente mais activa do povo — a burguesia nacionalista. A partir de 1980, Hoxha abre fogo contra “esses autodeno­minados marxistas-leninistas que acham que não se deve classificar como patriota o povo afegão e os elementos da média burguesia e mesmo da grande burguesia que lu­tam contra os ocupantes so­viéticos… Não vêem os aspec­tos anti-imperialistas da luta dos povos árabes, do povo iraniano. do mundo muçul­mano… Exigir que estes po­vos em revolução abando­nem. da noite para o dia, as suas crenças religiosas, usos e costumes, demonstra imatu­ridade” (págs. 568-569).

Como temos verificado, es­tas “crenças, usos e costu­mes”, ao descerem à terra, to­mam a forma dos Khomeini, dos coronéis turcos e outras personagens sinistras, pro­movidas pelo PTA a heróis anti-imperialistas. Em nome da defesa da revolução anti-imperialista, Hoxha defende já abertamente a hegemonia burguesa no movimento e exige que se cale toda a crítica aos seus aspectos reaccioná­rios. Para os operários, o pa­pel de força de choque: “A classe operária, mesmo que não consiga afirmar as suas posições dirigentes, deve es­tar na vanguarda da luta e dos sacrifícios” (pág. 571). Eis um preceito “marxista-leninista” que não hesitarão em subscrever os patriotas burgueses de todo o mundo…

A perspectiva popular-democrática-nacional da luta de classes arrastou assim Enver Hoxha, apesar de todo o seu radicalismo, para o naciona­lismo burguês puro e simples. Falta só mais um passo para a ideologia hoxhiana desa­brochar numa nova variante do revisionismo. É esse passo que estão em vias de dar os novos dirigentes albaneses.

Política Operária nº 8, Jan-Fev 1987

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