PE: batalha virtual

Francisco Martins Rodrigues

Não creio que alguém, por muito ingénuo, vá votar a 13 de Junho na esperança de ver melhor defendidos os seus interesses no Parlamento Europeu . Os interesses aí em jogo são outros e passam-nos bem por cima da cabeça. No­tam os jornalistas que os candidatos não são capazes de abordar tópicos concretos. É natural: não há nada     para dizer. As decisões já foram tomadas por quem manda e acerca dessas não convém que se fale. Como por exemplo, meter a Europa numa guerra obscena, sem ninguém saber como nem porquê.

O PE é uma ficção de luxo. Se os parla­mentos ordinários já valem tanto como uma estrebaria, na expressão do velho Engels, o que dizer do conclave que em Estrasburgo se dedica a sujas traficâncias de corredor, já que nem sequer lhe é consentido for­mar governos ou derrubar governos?

As pessoas irão votar, mas para dar força ao partido da sua preferência, a pensar nas eleições de Outubro. Os resultados das eleições europeias contam como uma primeira volta para as legislativas. O que está em jogo é saber se o PS irá ou não obter a maioria absoluta, se o PP desapare­ce ou faz mossa ao PSD, se o PCP recupera ou continua a cair, se o novo Bloco de Es­querda dá entrada no mundo parlamentar.

É isso que faz correr os candidatos. O resto, os pomposos programas partidários “para a Europa”, nem valem o papel em que são escritos: têm tanta possibilidade de influ­enciar a política europeia como eu tenho hipóteses de levar o Clinton a tribunal como criminoso de guerra.

É o equilíbrio das forças partidárias na­cionais que se vai discutir nesta eleição europeia. E esse, temo-lo visto ano após ano, é incapaz de se renovar apenas pelo seu jogo interno. Os nossos esforçados tri­bunos e governantes, arduamente empenhados em “resolver os problemas do país” e “promover o progresso”, só conseguem, como que por uma estranha maldição, pro­mover os negócios, a corrupção, as mafias, o caos da saúde, da educação e da habita­ção, a marginalização dos pobres, os lucros do capital. O nosso sistema político sofre de qualquer defeito genético que o conde­na a só gerar lixo.

Dizem alguns que o Bloco de Esquerda veio anunciar uma nova maneira de fazer política. Não me parece. Nascido da nego­ciação à porta fechada entre três minicúpulas partidárias, todas elas com um inve­jável currículo reformista, só por grande milagre se transfiguraria numa esquerda autêntica. A pergunta que as pessoas fazem é: o Bloco somou as qualidades dos três ou os seus defeitos? É uma dúvida justificada. Porque, quando me asseguram que a can­didatura é importante para divulgar um programa e ampliar uma corrente de luta, tenho que perguntar: qual programa? e qual corrente de luta? Não será que se está a começar a casa pelo telhado?

É lamentável ter de reconhecê-lo mas, desde há longos anos, a esquerda foi dei­xando esvaziar os seus objectivos de sub­versão e conservou apenas os reflexos que cabem dentro da ordem. Como a concorrên­cia às eleições. Por isso, mesmo dando ao Bloco o benefício da dúvida e esperando que ainda faça boas coisas, não me parece que a melhor ajuda a prestar-lhe seja man-

(no original o artigo fica suspenso aqui, sem continuação.)

Política Operária nº 70, Maio-Junho 1999

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