“Bloco de esquerda”. Renascimento ou nova etapa na crise da esquerda?

Francisco Martins Rodrigues

Em ano de eleições é já tradicional que os peque­nos partidos da esquerda procurem coligar-se, na esperança de virem a eleger um deputado, já que essa seria, no seu entender, a forma de “sair do gueto” e ganhar projecção. Desta vez, porém, o pro­cesso vai mais longe e reveste as formas nobres de uma anunciada “renovação da esquerda” pela cria­ção de um novo partido, movimento ou bloco, desti­nado a aglutinar o PSR, a UDP e a Política XXI, assim como um certo número de personalidades e activis­tas independentes.

Fala-se inclusive na perspectiva de englobar o PCP na aliança, mas este último ponto deve ser levado apenas à conta de expediente propagandístico, para criar uma dinâmica de abertura.

Lançada a ideia por dois artigos do historiador Fernando Rosas na imprensa, invocando a “urgên­cia de um recomeço à altura dos grandes desafios do mundo actual” e de “fazer das esquerdas uma esquerda”, os congressos simultâneos dos três par­tidos, em meados do Janeiro, acabam de mandatar as respectivas direcções para a negociação da fór­mula que virá a assumir a nova força política, com vista a concorrer, se possível, já às eleições euro­peias de Junho.

Desde logo, causa alguma perplexidade este pro­jecto de uma associação duradoura (e mesmo fu­são?) dos três partidos, se tivermos em conta que já no passado a sua coligação pontual se revelou tão problemática. Uns aproximam-se mais do PS, outros do PCP; as posições quanto à integração europeia têm sido divergentes; a UDP é de origem stalinista, o PSR trotskista; ainda recentemente apareceram em posições opostas na questão da regionalização; etc.

Nestas condições, o surgimento de uma nova força de esquerda só seria compreensível se uma profunda revolução ideológica levasse cada um desses grupos a examinar criticamente o seu pas­sado e a confluir num programa comum. Ora bem, esse “programa”, ou aquilo que faz as suas vezes, é um manifesto, “Começar de novo” (título de um dos artigos de Fernando Rosas), o qual faz tudo menos clarificar as grandes questões que se põem hoje à esquerda anticapitalista.

A extensa secção internacional, que ocupa a maior parte do documento, é uma espécie de mani­festo contra a globalização e o neoliberalismo, ins­pirado no Monde Diplomatique, e que sofre das limitações deste tipo de textos: denuncia com vee­mência as injustiças, proclama intenções humanitá­rias, mas não tenta sequer caracterizar as grandes linhas da luta de classes internacional e as vias para sair do caos capitalista. A luta que se desenha en­tre os três blocos imperialistas pela partilha do mundo e a ameaça de caminharmos para uma nova conflagração mundial, os meios pelos quais se po­derá aliar a luta do proletariado pelo socialismo com a luta dos povos oprimidos pela emancipação nacional, a construção de uma esquerda europeia visando o derrube do império Europa tudo o que poderia dar uma dimensão programática ao novo partido está ausente do documento.

Do mesmo modo, a parte consagrada à questão nacional não vai além da superficialidade do comen­tário jornalístico. Seria preciso reafirmar com força a opção pela luta directa dos oprimidos como mo­tor de todas as transformações políticas; seria pre­ciso situar em termos de classe o regime instaurado no país pelo golpe de 25 de Novembro sobre os escombros do 25 de Abril, fazer o inventário das forças capazes de lutar pela revolução, apontar os inimigos, as forças intermédias, explicar como se pode aproximar o momento da insurreição das mas­sas, por distante que ele se apresente… Mas este “projecto de democracia para o socialismo” contenta-se em enunciar como alvo duas ou três reformas (semana das 35 horas, reforma fiscal, legalização das drogas), o que pode servir de programa a um deputado mas é manifestamente pouco para avan­çar para o socialismo…

Poderá contestar-se que isso tudo falta no mani­festo porque não é intenção da nova força definir-se em termos marxistas e revolucionários. E esse é justamente o ponto a que queremos chegar. O novo “bloco de esquerda” não aspira a retomar o que de mais positivo tiveram no passado as forças constituintes; pretende apenas criar um espaço elei­toral entre o PCP e o PS.

E mesmo isso é duvidoso que consiga. Porque a iniciativa está a ser recebida com indisfarçada hos­tilidade do PCP, que precisa de tudo menos de um novo bloco a seu lado neste ano de eleições em que o duelo PS-AD ameaça estreitar-lhe o espaço. E suscita também cepticismo em boa parte da esquerda sem parti­do, que já não se mobiliza com fraseologia poética em torno da “nova esperança” de “come­çar de novo”, e quer ver clari­ficadas as bases de um progra­ma revolucionário.

Assim, embora um dos tex­tos acordados entre as três or­ganizações assegure que “não se procura um acordo mínimo, mas uma convergência basea­da nos acordos máximos, os necessários para as tarefas do momento presente, os neces­sários para que essa força não seja um acto de oportunismo eleitoral ou de desespero po­lítico, mas sim uma plataforma de crescimento”, etc., parece inegável que é disso mesmo que se trata: de um acto de oportunismo eleitoral e de de­sespero político. Sob a fraseo­logia optimista, audaciosa e “moderna”, transparece uma grande perplexidade. E um grande pânico, que se pode tra­duzir assim: ou metemos ago­ra um deputado ou desapare­cemos do mapa.

O que nos leva a concluir que a crise da esquerda portu­guesa não está em vias de su­peração; simplesmente passa a uma nova etapa. E continuará a agravar-se enquanto a es­querda for preenchida apenas por grupos nascidos na maré de Abril mas incapazes de re­sistir à tendência para se atola­rem na “política real”, para se tornarem uma parte reconhe­cida do sistema.

Uma nova esquerda? Sim, mas só quando uma força nova se definir, unida em torno de um programa para a revolu­ção. Ou não foi para isso afinal que se inventou a esquerda?

Política Operária nº 68, Jan-Fev 1999

 

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