A campanha antiguerra não está à altura

Francisco Martins Rodrigues

Ao longo das semanas por que se tem prolongado o cobarde bombardeamento da Jugoslávia, foi tomando corpo no nosso país, como em tantos outros, um movimento de protesto, pelo fim da agressão, pela saída de Portugal da guerra.

Soube-se desde o princípio pelas sondagens que a maioria dos portugueses está contra a guerra, mas isso não chega. Com esse repúdio pessoal silencioso pode o governo bem. O que conta é o protesto aberto nas ruas, a intervenção de gran­des massas a pedir contas a Guterres, a condenar a NATO, os Estados Unidos e a União Europeia.

Com esse fim, têm-se sucedido as manifestações, os abaixo- -assinados, as sessões públicas, promovidos pelo PCP e organis­mos a ele ligados, pela CGTP, pelo Bloco de Esquerda, pelo PCTP/MRPP e por diversas outras organizações criadas a pro­pósito, como os colectivos de Acção contra a Guerra, de que damos notícia nestas páginas.

Este movimento, porém, é preciso dizê-lo, ficou até agora muito aquém dos objectivos que se propôs. Nomeadamente em Lisboa, as manifestações circunscreveram-se à mesma franja de activistas (algumas centenas), perante a apatia (e até a estranheza) da massa da população, e isto apesar do leque invulgarmente alargado das personalidades que apareceram a condenar a guerra. Devido a esta estreita base de apoio do movimento, as sessões de esclarecimento foram escassas e em circuito fechado, a agitação e a propaganda mais que insufici­entes. Caiu-se assim num tipo de protesto puramente demons­trativo, que dá conhecimento ao país da sua existência mas é incapaz de ganhar as grandes massas e golpear seriamen­te o governo.

Tem-se argumentado por vezes que a inércia popular seria natural e inevitável. Primeiro, porque o drama dos refugiados, manipulado pela pandilha da NATO, à força de matraqueado pela televisão e pelos jornais, acabou por convencer uma boa parte das pessoas de que a guerra seria “por boas razões”. Segundo, porque a prática unanimidade dos governos (quase todos “socialistas”, ainda para mais!) tende a paralisar a repulsa instintiva da maioria das pessoas pelos actos de barbárie da aviação da NATO. Terceiro, porque anos e anos de apatia rouba­ram às pessoas o hábito das manifestações políticas, mais ainda por uma questão internacional. Por último, também o afasta­mento do país do teatro de guerra e a insignificância das forças que o governo aí envolveu contribuíram para que a tragédia surgisse aos olhos da esmagadora maioria da população como uma guerra virtual, para assistir na televisão, não para intervir, à semelhança do que já acontecera com a guerra do Golfo.

Pode isto ser verdade, que não diminui a gravidade da situação. É missão das forças antiguerra sacudir a consciência adormecida da população, contrapor uma informação abundan­te à barragem das mentiras oficiais, ganhar novos activistas – e isso não tem sido conseguido. O movimento permanece muito restrito, revelando as dificuldades de mobi­lização, mesmo de forças como a CGTP.

Justamente, a escassez da mobilização efec­tuada permitiu que os dois principais partidos envolvidos na campanha ( o PCP e o Bloco) levantassem obstáculos à criação de um movi­mento único, suprapartidário (como foi pro­posto desde o início pelos colectivos Acção contra a Guerra) e tratassem de pôr o movi­mento ao serviço das suas respectivas campa­nhas eleitorais.

Hoje, com a guerra a caminhar para o de­senlace previsível, é ainda e cada vez mais ocasião de lutar pelo alargamento e radi­calização da campanha. Seria muito grave que este crime imperialista passasse sem um forte protesto. A inércia popular seria paga no futu­ro a preço muito alto, já que abriria as portas sem resistência às novas aventuras em prepa­ração. Ou ainda haverá quem duvide de que estamos perante uma escalada, prenunciadora de destruidores confrontos imperialistas?

Por último, a experiência desta campanha deixa-nos um alerta que deve ser seriamente meditado pelas forças de esquerda: a dificul­dade da maioria da população em ver para além do “humanitarismo” forjado dos agres­sores e em tomar partido pelos agredidos in­dica que, insensivelmente, o espírito euro­peu de grande potência está a penetrar nas massas do nosso país. As grandes obras, os fundos comunitários, a relativa prosperi­dade das classes médias, o alinhamento cróni­co dos governos com Bruxelas, sejam eles PS ou PSD, estão a mudar o estado de espírito geral e a criar um sentimento de identificação com a “nova Europa”. Só pela denúncia deste novo chauvinismo europeu pode um movi­mento anti-imperialista abrir caminho no nos­so país.

Política Operária nº 70, Maio-Junho1999

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