António Guerra

Francisco Martins Rodrigues

Elementos de história do PCP e da resistência antifascista

Completa-se neste ano meio século sobre a morte de António Guerra, dirigente da revolta do 18 de Janeiro na Marinha Grande e que viria a morrer no Tarrafal com 35 anos de idade, após 14 anos de prisão.

Nesta época dourada de sucesso, em que a imprensa “pluralista” do sistema exibe um gosto mórbido por reco­lher o “testemunho” dos pides e outros fascistas, é sem dúvida oportuno continuar a recordar histórias de resisten­tes antifascistas. Privados de voz e de memória pela ditadu­ra, foram-no também mais tarde, vergonhosamente, pela democracia por que deram a vida o que, pensando bem, nada tem de estranho: a sua inteireza incomoda.

António Guerra é um desses “homens sem importân­cia”, incapazes de seduzir a exigente imaginação dos escri­tores, historiadores, jornalistas e cineastas do presente, mas cujo exemplo voltará a guiar novas gerações de lutadores pelo socialismo.

Nascido em 23 de Junho de 1913 perto da Figueira da Foz, veio em criança com a família viver para a Marinha Grande. Tirou o curso comercial e trabalhou muito jovem nos escritórios da fábrica Ricardo Gallo. Com apenas 16 anos adere ao Partido Comunista, então reorganizado na clandestinidade. Em 1931, quando se faziam sentir os efei­tos da crise mundial e grande número de operários vidreiros desempregados trabalhavam na abertura de estradas, organiza uma luta por melhores salários que culmina em manifestação pela vila, acção insólita que alarma a burgue­sia local. Em fins desse ano, graças ao trabalho de António Guerra, José Gregório e outros, é criado o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vidro, em desafio ao regime ditatorial.

Na agitação crescente que percorre o meio operário nos anos seguintes, Guerra destaca-se pela sua entrega total à actividade revolucionária. Surge assim naturalmente entre os dirigentes do levantamento de 18 de Janeiro, quando os operários vidreiros julgam reunidas as condições para uma resposta insurreccional à escala nacional contra a ilegalização e roubo dos seus sindicatos, substituídos por Salazar por “Sindicatos Nacionais”, no modelo corporativo do fascismo italiano.

Constituíram o núcleo organizador da revolta, além de António Guerra, Manuel Esteves de Carvalho, José Gregório, Manuel Baridó e Adriano Neto Nobre. Guerra comandou uma brigada de 6 operários que tomou a estação dos correios da Marinha Grande. Segundo os autos da PIDE, “foi deten­tor de duas bombas de dinamite, uma das quais utilizou no ataque à estação telégrafo-postal”. Em seguida, foi ele quem obteve a rendição do posto da GNR, cercado pelos revolucio­nários. Seguiram-se momentos de euforia, com muitas deze­nas de operários armados celebrando a vitória diante da Câmara Municipal onde foi hasteada a bandeira vermelha.

A revolta foi contudo rapidamente sufocada pelo exérci­to. António Guerra andou, como muitos outros, fugido qua­tro dias pelos pinhais, acabando por se entregar à GNR em Leiria. Espancado, torturado, foi levado para Lisboa e julgado com dezenas de outros revolucionários no Tribunal Militar Especial em 19 de Fevereiro. Condenado, na qualidade de “chefe da rebelião”, a 20 anos de degredo com prisão e “ficando à disposição do Governo”, foi transportado em Setembro para Angra do Heroísmo.

“Os principais responsáveis do movimento vão seguir, dentro de poucos dias, para um campo de concentração no sul de Angola’’,

anunciava na primeira página o jornal O Século de 20 de Janeiro de 1934. “O Conselho de Ministros registou, com o maior aprazimento, a actuação das Polícias, da Guarda Republicana e do Exército de Terra e Mar, cuja disciplina, decisão e valentia permitiram a pronta sufocação do movimento e pouparam ao país os horrores da revolução.

Foi comunicado às entidades patronais de Silves, de Almada e da Marinha Grande, vítimas de greves parciais, que não lhes é permitido admitir ao trabalho os operários que a ele faltaram nos dias fixados para a greve revolucionária, estando já as autoridades de posse das respectivas listas para fiscali­zar o rigoroso cumprimento desta determina­ção.

Foi mandado, telegraficamente, organi­zar no sul de Angola, na foz do Cunene, um campo de concentração, para onde seguirão, dentro de poucos dias, os principais respon­sáveis do movimento revolucionário e os de­mais implicados. Ali aguardarão julgamento os que não possam ser julgados até ao dia fixado para a partida pelo processo sumaríssimo prescrito no art. 24.º do decreto nº 23.203. Os menores até 18 anos vão ser inter­nados em colónias correccionais.”

Após cumprir aí dois anos de prisão na fortaleza de S. João Baptista, em condi­ções péssimas, embarcou na primeira leva de deportados para o Tarrafal, em 29 de Outubro de 1936.

No campo de concentração, Guerra foi incluído pelos carcereiros, junto com Bento Gonçalves, Mário Castelhano e alguns outros, no lote dos “cabecilhas” que havia que humilhar e abater, para “servir de exemplo”. Nesses anos negros, quando a brutalidade da repressão, as mortes su­cessivas de presos ceifados pelas febres e as notícias do avanço fulminante do nazismo pela Europa concorriam para desmoralizar muitos, António Guerra revelou uma enorme força anímica e espírito de companheirismo.

Contudo, ao fim de sete anos de paludismo, trabalho forçado na “brigada brava”, castigos na “frigideira” e alimen­tação miserável no campo da morte lenta, a sua saúde come­çou a soçobrar. Em Janeiro de 1944 foi trazido para Lisboa, meio cego. Mas não foi libertado. Na linguagem jesuítica do regime, revelava-se “de difícil correcção”. Caxias, Aljube, Peniche… A amnistia do fim da guerra, com que o regime tenta descomprimir a pressão popular e internacional, não abrange os “actos de rebelião e terrorismo”. Guerra fica no forte de Peniche, entregue ao Ministério da Justiça porque, apesar da saúde alquebrada, mantém intacta a fibra de re­volucionário.

Em começo de 1948 tenta uma fuga, mas falha. A PIDE não perdoa; por recomendação sua, António Guerra sofre nova deportação para o Tarrafal. O Avante de Junho desse ano denuncia esta medida inaudita, pede solidariedade e afirma que “o governo de Salazar tem por fim premeditado condená-lo à morte”. Não se engana. Poucos meses bastam para que as febres o levem. Morreu em 28 de Dezembro de 1948. Tinha 35 anos de idade.

Obras consultadas:

Sobre a Associação e o Movimento do Operariado Vidreiro, José Gregório. Ed. Cadernos Linha Geral, s/d.

18 de Janeiro de 1934. Rostos…, Hermínio de Freitas Nunes. Ed. do autor, Marinha Grande, 1997.

Avante, VI série, nº 119, 2ª quinz. Junho de 1948.

O 18 de Janeiro de 1934, L. H. Afonso Manta, Assírio & Alvim, 1975.

Política Operária nº 64, Mar-Abr 1998

 

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