Quando Cunhal excomungou os chineses

Francisco Martins Rodrigues

Elementos para a história do PCP e da resistência antifascista

Admirador do “socialismo” à chinesa e crítico severo da defecção dos russos, Cunhal já esqueceu o tempo em que era fervoroso seguidor de Moscovo na campanha amtichinesa.

Talvez uma das mais curiosas inflexões no percurso recente do PCP seja a sua aproximação dos últimos anos ao PC da China. Com efeito, durante 30 anos, depois que reben­tou o chamado conflito sino-soviético, o PCP seguiu fielmente o PC da URSS na campanha contra o maoísmo e a favor da “coexistência pacífica”. Coroada essa política por um retum­bante desastre de dimensão mundial, Cunhal pensou em tudo menos em demitir-se do seu cargo. Alinhavou umas tantas censuras à capitulação de Gorbatchov, como se esta não fosse apenas o epílogo de uma longa história, e, à laia de “autocrítica na prática”, voltou-se para o regime chinês que antes excomungava. Procedimento que retrata bem a pretensa “coerência” do líder do PCP, agora unanimemente elogiada pelos políticos da burguesia. Nesta como noutras questões, Cunhal habituou-se há muito a baralhar as pistas para impedir uma avaliação crítica do passado.

UMA REUNIÃO ACIDENTADA

Na reunião do CC do partido que teve lugar em Moscovo, em Agosto de 1963, A. Cunhal apresentou um informe que comprometia o PCP num alinhamento público e incondicio­nal com o PC da URSS e num ataque cerrado ao PC da China1. Era o tempo da grande cruzada soviética pela “linha geral da coexistência pacífica” e pela “passagem pacífica ao socialismo”. Como as suas esperanças num período de degelo nas relações com o imperialismo estavam a ser defraudadas pela oposição dos dirigentes chineses, com as suas denúncias furibundas do revisionismo e apelos à revolução nos países subjugados, os maoístas tinham-se tornado o inimigo a abater. A “guerra fria” de desgaste dos americanos contra a União Soviética acabara por dar frutos numa “guerra fria” no interior do movimento comunista.

Embora já esperada pelos presentes2, esta abertura de hostilidades contra os chineses não deixava de representar uma ruptura brutal com as tradições do partido em matéria de relações internacionais. No PC Português, necessitado de solidariedade externa à sua luta contra o fascismo de Salazar, era de regra o respeito para com os “partidos ir­mãos”, e muito mais com os que estavam no poder no “campo socialista”. A única excepção fora a condenação, quinze anos antes, do regime jugoslavo, essa porém aceite sem dificulda­de devido à escandalosa viragem do regime de Tito para o Ocidente. Ora, desta vez, tratava-se justamente de um movi­mento em sentido inverso: havia que reconhecer a “evolução positiva” dos dirigentes jugoslavos e condenar o “dogmatis­mo” e “aventureirismo” dos chineses.3

Eu era então membro do Comité Central e participei na reunião. Cunhal manifestara empenho em que eu viesse a Moscovo, para “esclarecer as minhas dúvidas”, de modo que saí clandestinamente de Portugal, encarregado pela Com. Executiva do CC de levar o relatório da actividade no inte­rior. Naturalmente, aproveitei a oportunidade que me era dada para expor de viva voz no CC as ideias que vinha há meses desenvolvendo em sucessivas cartas. Opus-me em toda a linha ao informe de Cunhal, dei razão aos chineses e condenei o seguidismo que o PCP vinha exibindo face ao PCUS, quando o rumo da política soviética contrariava tudo o que o movimento comunista defendera até então.

Sem surpresa, vi os restantes membros do CC presentes (entre eles Vilarigues, Francisco Miguel, Joaquim Gomes, Pedro Soares, Georgete Ferreira) apoiarem, de forma mais ou menos papagueada, a opção expressa por Cunhal. Estavam bem ensinados a considerar justificado tudo o que viesse do centro do poder, dos “queridos camaradas soviéticos”; a minha preocupação com os princípios parecia-lhes futilidade imatura e intolerável pretensiosismo. A única voz algo reti­cente foi a de Veiga de Oliveira, presente embora não fosse membro do CC.

A reunião terminou com a aprovação de um comunicado que retomava todos os pontos do informe de Cunhal4, com um único voto contra, o meu. Pelo menos, desta vez não houve a costumada unanimidade… Quatro meses depois, já em Paris, eu abandonava o PCP. Era a única coisa a fazer.

PRÓ-SOVIÉTICO FURIOSO

Não sendo agora altura de recapitular todos os tópicos da polémica, será elucidativo passar em revista o informe referido. Convertido às teses dos soviéticos desde que se instalara em Moscovo, Cunhal não queria meias tintas. Exigia que se reconhecesse no PCUS “a vanguarda do movimento comunista mundial” e que se aplicasse uma “disciplina comu­nista internacional” para acabar com as veleidades dos chine­ses. “O PC da China – acusava – está em desacordo com a linha geral do movimento comunista…, não a segue na sua acção prática e leva a cabo uma actividade cisionista”. E, perdendo o sentido do ridículo, exaltava o abstruso progra­ma aprovado no ano anterior pelo XXII congresso do PCUS como “o Manifesto Comunista da nossa época”. Nem mais!

Como pudera um militante formado na escola do leninismo degradar-se a tal ponto? O “poderio soviético” era a grande certeza, o argumento inabalável a que se ancoravam as convicções de Cunhal. A sua perspectiva, como aliás da generalidade dos outros dirigentes “comunistas”, era muito simples: se todos os dias se multiplicavam as provas do crescimento prodigioso do poderio da URSS, a vitória mun­dial do socialismo estava garantida. “Dentro de um prazo de tempo relativamente curto – previa o informe -, a superio­ridade económica e técnica e a resultante superioridade militar do campo socialista será tal que o imperialismo, embora mantenha a sua natureza agressiva, será impossibili­tado de levar por diante planos que concebe de desencadear uma guerra mundial”. Já não fazia sentido, e podia ser muito prejudicial, lutar como no passado pelo levantamento dos oprimidos. Seria enfurecer os imperialistas quando a partida estava ganha de antemão. O socialismo irradiava de Moscovo para o mundo inteiro.

E quanto a saber se a marcha triunfal da URSS para o comunismo era garantida apenas pela propriedade estatal dos meios de produção e não estava irremediavelmente com­prometida por tudo o que se metia pelos olhos dentro (dege­neração dos sovietes, enriquecimento da nomenklatura, cor­rupção, despotismo burocrático, arbítrio, asfixia da vida intelectual, namoro ao imperialismo, desinteresse pela sorte dos povos oprimidos, boa camaradagem com o oportunismo internacional) – tudo isso só podia ser para Cunhal “falta de confiança nos camaradas soviéticos”, ou pior, exploração provocatória de pecadilhos ou pequenos erros.

 CHINESICES

 Seria interessante confrontar hoje Cunhal com a lista das heresias que há 35 anos censurava aos dirigentes chine­ses. “Afirmam ser a guerra inevitável enquanto existir o imperialismo”; “acusam a União Soviética duma política aventureirista ao colocar os foguetões em Cuba, e duma política capitulacionista ao dispor-se a retirá-los”; “manifestam des­crença na força da URSS e do campo socialista”; “acusam o acordo americano-soviético de suspensão das experiências nucleares de tentar atar de pés e mãos todos os países pacífi­cos que estão sujeitos à ameaça nuclear”; “dizem que a Jugos­lávia degenerou e se tornou um país capitalista”, “acusam o movimento comunista mundial de ter renunciado à revolu­ção”, de “aceitar em quaisquer condições o que chamam de ‘receita’ do caminho pacífico” e de “estender a coexistência pacífica às relações entre classes opressoras e classes oprimi­das, entre nações opressoras e nações oprimidas”, etc., etc.5

A simples enumeração dos desvios atribuídos aos maoístas mostra até que ponto estes tinham razão e como Cunhal desempenhava, naquele Verão de 1963, um papel objectivamente reaccionário. Afinal, a direcção chinesa divisava, com alguns anos de avanço, o desastre para que caminhava o movimento “comunista” e o campo “socialista”. Não é o facto de se ter ela própria afundado posteriormente num percurso semelhante que retira justeza à luta que travou, praticamente sozinha, em 1960-63.

Isto merece ser recordado porque, nos últimos anos, com o argumento de que toda a gente no campo comunista se enganou e disse muitas asneiras, se tende a lançar ao lixo indiscriminadamente tudo o que foi feito. Ora, se é certo que todos se enganaram, houve porém os que, com as suas asneiras, empurraram o movimento para a derrocada em que viria a afundar-se e houve os que, dizendo asneiras, tiveram pelo menos a lucidez de se opor ao balofo triunfalismo reinante, mostrando que ele desarmava a vontade de luta contra o imperialismo e preparava um grande desastre.

Álvaro Cunhal, é indiscutível, contou-se entre os primei­ros. Combateu acerrimamente os alertas acertados do PC da China e fez coro com todas as iniciativas da direcção soviética. Com o seu informe de Agosto de 1963 contraiu perante o movimento operário português uma responsabili­dade histórica de que nunca prestou contas.

 COERÊNCIA

 Mudando-se do comboio descarrilado da Rússia para o da China para evitar a confissão do fracasso, Álvaro Cunhal exibe, sob a habitual retórica “leninista”, um primitivismo ideológico confrangedor e sobretudo um oportunismo a toda a prova.6

Mas, bem vistas as coisas, existe uma lógica interna nesta reviravolta. Desaparecida a “grande União Soviética” por um alçapão, Cunhal encontrou no actual PC da China um irmão mais velho semelhante ao que era o PCUS dos anos 60. Hoje já pode reconciliar-se com este PC da China, que nada tem de comum com o outro, que há 35 anos ainda não se aburguesara por completo porque ainda respirava o sopro da grande revolução anti-imperialista e antifeudal do povo chinês.

Assim, Cunhal manifesta afinal a sua coerência: ontem a reboque da URSS de Kruchov-Brejnev, hoje ao lado da China de Deng-Li Peng, ele tem estado sempre ao lado de regimes de capitalismo de Estado, que lhe dêem a ilusão de um “socialismo na ordem”, de um espaço intermédio entre dita­dura da burguesia e ditadura do proletariado. É afinal a noção de “socialismo” a que consegue chegar este inveterado ideólogo da pequena burguesia avançada.

O pior é que já não tarda muito a desilusão final, para si ou para os seus seguidores, quando o último véu “socialista” for rasgado pelo partido no poder na China e os seus diri­gentes renegarem de vez a denominação de comunistas e abraçarem sem peias as glórias da economia aberta de mercado.

NOTAS

  1. A Situação no Movimento Comunista Internacional. Informe de Álvaro CunhaI na reunião do Comité Central do Partido Comunista Português, Agosto de 1963, Ed. Avante, 1963.
  2. Correspondendo às fortes pressões da direcção soviética para obter declarações públicas de lealdade, Cunhal fizera já publicar, no Verão de 1960, e em nome da Com. Política do PCP, o artigo Três problemas de actualidade, com críticas transparentes ao PC da China, embora sem o nomear. Posteriormente, em Janeiro de 1963, fora adoptada pelo CC do PCP uma resolução pró-soviética, considerada contudo insuficientemente enérgica.
  3. Informe citado, p. 14.
  4. Comunicado do CC do PCP sobre a situação do Movimento Comunista Internacional. Avante, 1963.
  5. Informe citado.
  6. Outro aspecto anedótico: em 63, no informe citado, Cunhal atacava o“grupo cisionista de Amazonas no Brasil” e manifestava solidariedade com o “nosso camarada Prestes”. Actualmente, mantêm relações amistosas com o “cisionista” Amazonas e ignora o “verdadeiro”partido de Prestes, podre de mais para ser apresentado em qualquer lado.

Política Operária nº 63, Jan-Fev 1998

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s