Novo na encruzilhada

Francisco Martins Rodrigues

Serei breve neste comentário à tréplica de Novo, com que encerro pela minha parte o debate, e isto por duas razões. Primeiro, porque a divergência de fundo já deve estar a esta altura suficientemente clara para os leitores. E segundo, porque Novo, na ânsia de levar a melhor, enche cada vez mais páginas e ameaça inundar a revista.


Visivelmente, Novo tem problemas por resolver no que se refere ao imperialismo, como aliás já manifestou na polémica anterior com Manuel Raposo. Quanto mais se embrenha em prelecções, em tom de sábio enfastiado pela ignorância do vulgo (julgará seriamente que eu li O Capital só pela rama, que desconheço a “teoria geral do capitalismo” e que preciso de aprender com ele a perequação da taxa de lucro? ), mais evidencia a sua dificuldade em captar o jogo das relações capitalistas ao transbordarem do seu berço original para o plano mundial.
Parecerá estranha esta relutância, já que Novo aceita que, no Capital, Marx “considerou apenas as trocas dentro de uma mesma formação social”, enquanto “o imperialismo moderno é basicamente a extrapolação destas relações para o conjunto da economia mundial” {P. O. 61, p. 28). Bastaria dar o passo seguinte e verificar as consequências sociais dessa “extrapolação”: a tendência para a estagnação do movimento revolucionário socialista nas metrópoles do capital e para a radicalização do movimento nacional-democrático e anti-imperialista nas “periferias”.
Em minha opinião, Novo não dá esse passo por receio a abordar o problema da pequena burguesia imperialista, problema espinhoso onde têm naufragado não poucos marxistas deste nosso “primeiro mundo”.
Porque é que, apesar do grau elevadíssimo de concentração do capital e de proletarização da população, não se efectivam nas metrópoles imperialistas as condições previstas por Marx para a passagem à ditadura do proletariado? Porque o imperialismo introduziu profundas distorções na composição social dessas sociedades. A gigantesca acumulação de superlucros originou a proliferação de uma nova pequena burguesia e de uma compacta aristocracia operária, camadas cujo interesse essencial é a permanência do capitalismo, e mais, a continuidade das relações imperialistas. A influência crescente destas camadas, a que se somam as limitações sociais próprias dos assalariados improdutivos (massa semiproletária também em expansão), tem neutralizado a capacidade revolucionária do proletariado e permitido prolongar a vida do capitalismo.
Isto para Novo é altamente perturbante porque implica: 1ª) reconhecer que esta pequena burguesia não é um aliado vacilante que o proletariado possa reeducar e conduzir ao socialismo, mas um inimigo encarniçado (embora secundário) que só pela luta pode ser neutralizado; 2ª) assentar o centro de gravidade da actividade comunista na luta pela independência política do proletariado, visando desenganchá-lo da pequena burguesia, do reformismo e do chauvinismo imperialista, como única via para o elevar à altura das suas tarefas revolucionárias; 3ª) admitir como provável a continuação do predomínio reformista nas metrópoles por mais algum tempo, acompanhado previsivelmente por um novo período de conflitos entre as grandes potências e de revoluções e lutas de libertação no Terceiro Mundo.
Afirmo que, se recusar estas constatações, Novo tenderá, por muito que se pretenda cem por cento marxista, a abas- tardar a noção de revolução socialista ao nível das “reformas de estrutura” e a subordinar as lutas dos povos oprimidos ao egoísmo imperial de uma aliança proletariado-pequena burguesia nas metrópoles.
De resto, para quem não tenha entendido o alcance prático das suas elucubrações, o próprio Novo nos fornece pistas. No fecho desta sua tréplica adianta que “é de dentro… que se prepara a desintegração ideológica da social-democracia e, chegada a altura certa, a sua cisão efectiva e definitiva…”
Assim, seis meses depois de ter dado a social-democracia como liquidada, Novo reconsidera e aconselha-nos agora com desenvoltura a ir lá para dentro (dentro de quê? do PCP?), a fim de “preparar a sua cisão “efectiva e definitiva” quando chegar a “altura certa”! Aí está um conselho carregado de insinuações estranhas que tem todavia a vantagem de nos mostrar o fio condutor das contradições de Novo: a social-democracia ou “já não existe” ou deve ser combatida a partir de dentro – tudo menos o combate aberto ao reformismo e à pequena burguesia, a partir de uma força independente, comunista, afirmada à luz do dia.
O marxismo de Novo chegou a uma encruzilhada; espero que ele o saiba.

NOTA

* Novo cultiva o contorcionismo com um à-vontade impressio­nante. Passou dos imprudentes desabafos iniciais sobre a insignificância do Imperialismo para a opinião de que se trata de “obra de génio que se mantêm relevante”. Diz e não diz e volta a dizer que “o imperialismo não é nenhum estádio supremo do capitalismo”. Lembrei-lhe que a elevada produ­tividade do trabalho nos países avançados se ergueu sobre a pilhagem das regiões coloniais; responde que “isso são contas muito antigas” (!). Escrevi que “o sofrimento e os anseios de justiça social não são condição suficiente para a revolução mas são sua parte integrante e seu detonador”; censura-me a “concepção mecanicista de que o sofrimento e a polarização social geram inevitavelmente a revolução” Não sabendo como contradizer a minha afirmação de que “se reduz o peso social e numérico do proletariado nas metrópoles imperialistas”, atribui-me a opinião absurda de que o proletariado seria nesses países “uma minoria circuns­crita e em extinção ”. Fiz-lhe ver a incongruência de escrever que os países do Terceiro Mundo “seriam mais vitimas de abandono e marginalização do que propriamente de explora­ção sem se dar por achado, diz que a minha argumentação é “infantil” mas volta atrás à socapa e admite que “é evidente que há exploração imperialista”. Desacredita as lutas anti- imperialistas como uma “agitação social caótica, por vezes retrógrada ” para logo a seguir declarar o seu “respeito e desvelo por qualquer manifestação de revolta e insubmissão dos oprimidos” e de imediato voltar a desvalorizá-las como “loucura ”. Mostrei-lhe o erro de confundir o imperialismo do século XV com o actual e escrevi que o imperialismo descrito por Marx foi o correspondente ao apogeu do capitalismo mercantil; atribui-me a opinião grotesca de que “o que Marx descreveu no Capital foi apenas o capital mercantil”. E por aí fora. Sobre as chocarrices de mau gosto, prefiro não comentar.

Política Operária nº 62, Nov-Dez 1997

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