Estão a comemorar os 25 anos antes do tempo

Francisco Martins Rodrigues

(Entrevistado por Fernando Rosas e Luís Trindade)

Membro do comité central do PCP nos anos cinquenta, participante, com Álvaro Cunhal, na célebre fuga de Peniche, em 1960, Francisco Martins Rodrigues Foi um dos mais célebres dissidentes do Partido Comunista. Mantendo uma concepção revolucionária do marxismo, enquanto considerava que o partido dirigido por Cunhal se tornara reformista, funda, em 1964 e após visita à China, a Frente de Acção Popular. A acção da FAP ficou especialmente marcada pelo julgamento e pela execução, em 1965, de um membro da PIDE infiltrado. Por essa razão, o 25 de Abril encontra-o detido novamente em Peniche. Com o refluxo revolucionário do 25 de Novembro, o tempo é novamente de reflexão. Cujos frutos aqui se apresentam.

Francisco Martins, estava preso em 25 de Abril de 1974, em Peniche, a cumprir uma condenação do tribunal plenário de…

20 anos.

No seu caso e no de alguns camaradas seus, é sabido que a junta Militar fez, durante várias horas, resistência à libertação. Porquê?

Era primeiro lugar, o nosso 25 de Abril, meu e dos meus camaradas, não foi nada festivo, porque houve um episódio anterior. A força da GNR que estava no forte não se rendeu ao MFA. E, portanto, durante todo esse dia houve uma situação de grande ten­são. Soubemos através de uma visita o que se estava a passar, mas soubemos também que a GNR se recusava a deixar entrar o MFA no forte. De modo que os guardas mostravam uma atitude um bocado nervosa. Alguns apontaram mesmo as armas para as janelas, e nós receámos que acontecesse um acto de desespero. Barricámo-nos dentro do piso onde estávamos, cora os ferros das camas, os colchões, para o que desse e viesse. Pas­sámos a noite toda, de 25 para 26, era aler­ta, por turnos, para estarmos prevenidos. Só no dia 26 é que o MFA entrou no forte.

Como é que tiveram conhecimento dessa alteração da atitude da guarda?

Quando entraram oficiais da Marinha.

E sabiam qual a natureza política do golpe?

Nos primeiros momentos ignorava-se e receava-se bastante. Pelas informações que tínhamos do congresso dos combatentes, admitíamos a hipótese de um golpe de ex- trema-direita. Contudo, a primeira família que foi autorizada a entrar nesse dia 25 dis­se-nos logo que estavam a libertar os pre­sos. E, portanto, criámos a ideia de que era um golpe para acabar com o fascismo.

Tomaram alguma posição de conjunto, do género: «ou saem todos ou não sai nenhum»?

Exacto. No dia 26, o MFA, quando en­trou no forte, começou a ver os processos e ‘ a libertar os presos. No nosso piso, que era de presos de extrema-esquerda e coloniais, surgiu então o problema. O oficial que vi­nha tratar da libertação não tinha ordens para me libertar a mim e a mais dois cama­radas, porque tínhamos processos comuns, i além dos processos políticos, que envolviam actos de homicídio. Segundo o que ele disse, as ordens eram para nos transportar aos três para o forte da Trafaria, e depois se veria. Aí, de facto, surgiu a solidariedade dos presos desse pavilhão.

«Desse pavilhão». O que significa que os presos ligados ao Partido Comunista não se solidarizaram…

Exactamente, embora fossem informa­dos do que se estava a passar, não se associaram ao nosso protesto. O João Pulido Va­lente teve aí um papel bastante enérgico, e, em conversações com oficiais do MFA, fize­mos uma assembleia de presos onde foi de­cidido «ou saem todos ou não sai ne­nhum».

Todos os presos do piso?

Sim, porque os outros estavam, entre­tanto, a sair. Ouviam-se também famílias e populares de Peniche a protestar lá fora: «Libertem os presos.» O MFA entrou em contacto com Lisboa, estivemos em negociações, e foi na madrugada do dia 27, às 2h00, que finalmente veio uma ordem para nos libertar. Não era uma libertação defini­tiva, ficámos à responsabilidade dos nossos advogados. Só no dia 27, já durante o dia, fomos visitados por esses oficiais do MFA, a comunicar-nos que estávamos libertos sem quaisquer condições. Um deles disse que ti­nha sido um trabalhão para convencer o ge­neral Spínola a assinar o papel da nossa li­bertação. Éramos acusados de actos de homicídio. Nos três casos, esses actos de homicídio fa­ziam parte da nossa actividade política. Não era um homicídio cometido à parte.

A extrema-esquerda antes da revolução

No seu caso, que gesto político é que foi?

Foi o julgamento e a execução de um in­formador da P1DE que estava infiltrado na FAP e no PCP, ao mesmo tempo, e que, con­forme viemos a saber e a comprovar com a confissão dele, dava periodicamente infor­mações à PIDE. Foi ele que esteve na ori­gem da prisão do João Pulido Valente, co­mo, depois, foi comprovado.

Era frequente a infiltração de provoca­dores da PIDE. Havia uma rede supervisio­nada pelo chefe de brigada José Gonçalves e pelo inspector Gouveia que tinha uma in­filtração dentro do PCP. Sobretudo na orga­nização da resistência. Tinha-se tornado prática haver prisões de elementos clandes­tinos que não chegavam a ser explicadas. Surgiam fortes suspeitas sobre alguns ele­mentos, mas, pelas dificuldades da clandes­tinidade, a averiguação nunca era feita. Por­tanto, nós considerámos, naquele caso, que era preciso levar a investigação até ao fim, não deixar ficar as suspeitas pendentes, porque se a resistência clandestina não re­taliasse sobre os informadores da PIDE, não tinha possibilidades de defesa.

Há quem considere que essa execução acabaria por ser objectivamente responsável pela grande ofensiva da polícia contra a organização em que o Francisco Martins Rodrigues nessa altura militava. Acha que é verdade?

Sim, não tenho dúvida nenhuma. Se ti­véssemos feito as contas às nossas debilidades, ao facto de estarmos ainda em começo e à dificuldade de nos defendermos da PIDE, possivelmente não tínhamos… o ac­to em si era politicamente justo, mas não era o momento. Hoje não tenho essa dúvida. Imediatamente a seguir, a polícia, que nor­malmente fazia prisões selectivas, não teve dúvidas de onde tinha partido a acção e co­meçou a prender indiscriminadamente pes­soas que pudessem ser ligadas à FAP, o que veio a dar origem ao seu desmantelamento.

Acha que o desmantelamento da FAP e do Comité Marxista-Leninista Português representou um atraso desse sector político em Portugal? Ou seja, atraso do sector político que se reivindicava de uma leitura do marxismo-leninismo à esquerda do PC?

Sim, embora seja necessário não exage­rar. Causou prejuízos, havia um primeiro núcleo a formar-se que foi desmantelado, mas o que é facto é que, nos anos seguintes, proliferaram uma série de grupos da mesma orientação geral, grupos de tendência revolucionária, e creio que não foi essa a razão fundamental das dificuldades de pro­gresso da extrema-esquerda no nosso país.

Quais foram, na sua opinião?

Havia uma crítica a fazer à actividade an­terior do PCP. Os partidos marxistas-leninistas reconheceram muito depressa a China e a Albânia, países que criticavam a União So­viética. Deixaram em aberto muitos proble­mas políticos e organizativos que era neces­sário esclarecer para fazer surgir uma força coerente, à esquerda do PCP.

No nosso país, quando eu rompi com o PCP, em 1963, havia uma questão que esta­va a tomar-se muito clara: na perspectiva do PCP, tratava-se de substituir o fascismo por uma república democrática, não igual à de 1910, mas actualizada em certos aspectos sociais e na questão colonial. Basicamente, uma república democrática burguesa Eu, com alguns outros camaradas, defen­dia que a associação entre a burguesia e o regime fascista, exploração e opressão fascista, apareciam aos olhos da massa dos trabalhadores muito identificadas: o patrão recorria à PIDE. Portanto, no dia em que caísse a PIDE, todo o sistema bur­guês iria tomar-se bastante vulnerável, co­mo, aliás, se viu. o problema era se os re­volucionários, os trabalhadores, deviam ou não explorar essa situação vulnerável e levá-la até às últimas consequências. Da parte do PCP havia um receio muito grande disso, que era visto como uma aventura.

Olhando com os olhos de historiador para esse período de tentativa de organização da extrema-esquerda, uma coisa que se vê é que essas organizações obtêm algum grau de penetração em sectores da pequena burguesia, estudantes, intelectualidade. Mas o núcleo da classe operária mantém-se basicamente impenetrável à sua entrada, e sob a influência do Partido Comunista. Como é que explica este fenómeno?

O grau de consciência política e social dos sectores mais politizados da classe ope­rária, sobretudo da região de Lisboa, assim como dos assalariados alentejanos, ia bas­tante ao encontro da posição da linha polí­tica que o PCP defendia. Apercebi-me, quando entrei em luta interna no PCP, que eram casos minoritários os daqueles que pensavam fazer uma exploração revolucio­nária do derrube do fascismo. A tendência geral ia no sentido de que conquistar as li­berdades mínimas seria muito bom para a situação dos trabalhadores. Entrar nesse campo podia dificultar a unidade antifascis­ta e afastar uma série de pessoas de outros sectores.

Dificuldades da revolução socialista

Mas não acha que a apreciação que faz ao estado de consciência desses sectores contraria a explosão revolucionária que se sucedeu ao 25 de Abril? Há vastíssimos sectores do operariado, do campesinato, até dos empregados, que vêm para a rua.

Sim, é possível. Antes da queda do fas­cismo, tenho a noção de que as perspecti­vas eram aquelas. Perante a queda do fas­cismo, houve uma autêntica explosão muito além daquilo que inicialmente se previa, mas que, é preciso acentuar, nunca conse­guiu envolver a maioria das massas traba­lhadoras, sobretudo nas regiões do Norte, etc. Antes da queda do fascismo, pela pro­paganda do PCP, pela tradição do seu traba­lho organizativo, pelas debilidades das no­vas organizações marxistas-leninistas, não se conseguiu criar uma corrente implanta­da na classe operária. Uma corrente coe­rente e organizada que tivesse feito o con­traponto e começado a abrir esse caminho. Isso não chegou a acontecer.

Como é que analisa a natureza do movimento político e social que explode em Abril?

A revolução socialista não tinha condi­ções para ser levada a cabo. Forçosamente pôs em causa a sacralização da proprie­dade privada, mas não foi capaz de levar isso até ao fim. poi, vá lá, um embrião re­volucionário, que, se fosse levado até às últimas consequências, ia pôr cm causa de uma maneira muito mais profunda a propriedade privada capitalista cm Portu­gal. E ia criar embriões de socialismo.

Um dos argumentos que se costuma ci­tar – o movimento da extrema-esquerda estava a defender um socialismo inviável naquele momento – é um raciocínio vicia­do: o mais longe que fosse levado o pôr em causa das relações capitalistas no nosso país não teria transformado Portu­gal num país socialista, mas teria feito uma limpeza de toda a tradição obs­curantista, atrasada, fradesca, autoritária, conformista da nossa sociedade, devido ao fraco desenvolvimento da revolução burguesa.

Penso também que é muito provável que, a prolongar-se a situação em Portugal, a queda do franquismo não tivesse sido fei­ta por uma transição negociada, como foi, e tivesse tomado um aspecto revolucioná­rio. Portanto, desenvolver as possibilidades revolucionárias daquele momento penso que era a única atitude que competia aos revolucionários. Poderia abrir muitas ou­tras perspectivas que nós não podemos adi­vinhar. Mas com certeza teria sido positivo.

Acha que o PCP fez marcha atrás, nesse sentido?

Sim, é uma injustiça histórica atribuir-se ao PCP um projecto comunista da conquis­ta do poder. Há uma série de sectores que têm medo e aversão ao PCP. Acabam por se intoxicar a si próprios, atribuindo-lhe ob­jectivos que o PCP na realidade não tem.

Na sua opinião, quais eram os objectivos do PCP no processo revolucionário?

Como disse, fazer a transição para uma democracia, em que visse reconhecido o seu lugar como um partido de poder, lado a la­do com os outros, evitando quer o perigo do retomo do fascismo quer o perigo de uma explosão revolucionária. E durante esses de­zanove meses, o PCP manobrou com muita dificuldade. Não podia dar-se ao luxo de se­parar-se das massas trabalhadoras e fazê-las pender para a extrema-esquerda. Tinha de as acompanhar. Muitas das acções que são atribuídas a um plano do PCP para tomar o poder foram, na realidade, criações do mo­vimento dos trabalhadores que o PCP não te­ve outra alternativa senão acompanhar para tentar controlar. A exigência do MFA e de ou­tros partidos de que o PCP compartilhasse as responsabilidades de governo naquele mo­mento foi a compreensão disso mesmo. o PCP fora do poder não daria garantias de absorver o movimento, conter o extremismo, e permitir uma transição democrática.

Qual devia ter sido a atitude do PCP, então?

Eu não posso indicar o que o PCP deveria ter feito porque considero, e foi essa a razão por que o abandonei, que é um partido que tem o nome, o emblema, uma origem de partido comunista, mas transformou-se num partido de sectores descontentes da pequena burguesia que se apoiam nas massas traba­lhadoras para reivindicar certo espaço na sociedade burguesa. De forma nenhuma de­sejam uma revolução. Se o PCP fosse um partido comunista real, entrava em ruptura dbm tudo o que vinha fazendo há muitos anos.

Aquilo que Álvaro Cunhal pretenderia com toda a orientação que deu ao Partido Comunista desde os anos trinta acabou por ser o que efectivamente veio a acontecer, o que se chamava o levantamento nacional com o apoio dos oficiais patriotas.

Mas a relação do Partido Comunista com o Movimento das Forças Armadas não indicia uma certa forma de tomar o poder, por cima?

Posso estar muito iludido sobre isso, mas penso que não. Cunhal foi no Verão de 75 a Moscovo, e diz-se que o Brejnev o alertou para os perigos de uma desestabilização em Portugal. Mas Cunhal não precisava dos aler­tas da União Soviética para saber que uma tomada de poder em Portugal, nesta situa­ção, era impensável. Para eles seria vista como uma aventura. Agora, tentavam, no ambiente de disputa que se travava ao alto nível, obter posições, e isso passava por todos os métodos necessários, para nego­ciar em melhores condições a normaliza­ção. Isto, para mim, é bastante diferente de um projecto de conquista de poder, ilegalização dos outros partidos, proclama­ção de uma república popular, ou qual­quer coisa desse tipo, que estava excluído para a direcção do PCP, nomeadamente no pensamento de Álvaro Cunhal.

Que 25 de Abril comemoramos?

Que balanço faz hoje do 25 de Abril, quando passam os 25 anos? Nesta caminhada, o que é que o 25 de Abril representou para si?

Primeiro, gostava de dizer que, se o rele­vo em comemorações oficiais este ano pode parecer um sinal positivo de estabilização dos ideais democráticos, no meu ponto de vista é o contrário. Este regime está a fazer a comemoração dos 25 anos antes do tempo. Para fazer no tempo devia fazer em Novem­bro do ano que vem, quando passam 25 anos sobre o golpe militar de 25 de Novem­bro de 75. Aí foi o início deste regime, que é diferente do regime que vigorou entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Porque a rela­ção de forças, a possibilidade que as massas trabalhadoras tiveram, não de consumir de­mocracia, mas de exercer democracia, a si­tuação de crise de confiança e crise de auto­ridade que a burguesia viveu naquele perío­do, o tipo de relações que se criaram entre trabalhadores e capitalistas, caracterizam um tipo de regime, forçosamente transitório, quase de dualidade de poderes, que não tem nada de comum com o que se iniciou em 25 de Novembro. E por isso foi preciso dar um golpe de Estado.

Quanto mais se vai falando do 25 de Abril, menos se vai falando do 25 de No­vembro. E vai-se inculcando no espírito das pessoas a ideia de que este regime se inaugu­rou com o 25 de Abril. E tudo o que agora temos, bom e mau, é produto desse 25 de Abril. Haveria toda a vantagem em fazer uma distinção e dizer às pessoas que a de­mocracia oficial está a apagar os «vestígios do crime». Não seria demasiado falar numa prostituição do 25 de Abril, na medida em que tudo aquilo que ele teve de criador, de democracia das massas trabalhadoras, hoje é apresentado como uma aberração, o anarcopopulismo, o PREC, uma espécie de uma excrescência que apareceu mas que depois bateu em retirada.

Não, apareceu um regime com uma bur­guesia tornada extremamente vulnerável porque tinha aderido durante quase 50 anos ao regime fascista. Inicialmente, hou­ve uma oposição, mas, durante bastantes anos, o grosso da burguesia aderiu, acei­tou, colaborou com esse regime fascista. Forçosamente, ao chegar ao fim, viu-se em fortes dificuldades, e isso permitiu criar um regime com estas características novas. Aquilo que foi criado entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro não são aberrações, não é terror anarcopopulista, não é nada des­sas calúnias que são lançadas, mas criações que eu acho que têm futuro (embora hoje sejam difamadas), porque a situação que temos não é o fim da história. As ocupa­ções, as comissões de trabalhadores, as co­missões de soldados, a liberdade nos quar­téis, a liberdade dos trabalhadores, as assembleias, vão ressurgir, porque os povos têm a sua memória histórica. Numa nova si­tuação de crise deste sistema, esse tipo de realizações é um capital, vá lá, a palavra não é muito boa,- mas é um capital adquirido que vai surgir novamente.

Fala do ressurgimento, no futuro, daquilo que esses 19 meses criaram. Não sobrevive nada, hoje?

Nós podemos dizer que há certos aspec­tos na democracia portuguesa positivos em comparação com outros países europeus, que ainda são alguns restos. Mas no dia-a-dia deu-se um milagre que hoje está perdi­do: de repente, não nas fábricas do Norte, mas nas zonas mais politizadas, o trabalha­dor deixar de ter medo da força armada e do patrão. Isto transformou automaticamen­te as relações entre as pessoas, e as iniciati­vas que podiam tomar adquiriram aspectos que pareciam extraordinários.

Podemos dizer que de todas as institui­ções criadas, certas regalias obtidas, nem tudo foi tirado, mas é um processo gradual. Os trabalhadores sentirem a democracia, não terem nada que temer, exprimirem a opinião, votarem em assembleias, serem chamados a pronunciar-se sobre tudo. po­derem ir para um comício e vaiar o alto dirigente não sei quantos, por aí fora, esse aspecto perdeu-se.

O essencial do espírito daquele tempo, uma democracia do trabalho, não entrou na revolução socialista, mas a propriedade pri­vada deixou de ser vista como uma coisa sa­grada. Quando hoje se fala na democracia, e nos gabam as grandes liberdades conquista­das, omite-se sempre este aspecto: o pilar da democracia burguesa é a inviolabilidade da propriedade privada. E essa contamina as outras todas. Eu posso ter liberdade de expressão, de manifestação e de organiza­ção, mas havendo um sistema de proprieda­de privada todas as outras liberdades ficam contaminadas. E naquele momento isso co­meçou a ser posto em causa, e foi, de facto, o que houve de novo naquele período.

Quando se começaram a dar ocupações de latifúndios pelos trabalhadores, quando empresas importantes começaram a ser na­cionalizadas e se dizia que os bancos eram do povo, criou-se uma relação completa- mente diferente entre as forças sociais. Por­tanto, eu digo que esses 19 meses, do ponto de vista social, devem ser reconhecidos co­mo um regime, original, transitório, instá­vel, mas um regime diferente que existiu no nosso país.

Normalmente, as forças que fizeram o 25 de Novembro justificam-se com os resulta­dos das eleições para a Assembleia Consti­tuinte. O povo deu a maioria ao PS e ao PPD. Portanto, o PCP e do MDP estavam, com os governos gonçalvistas, a contrariar a vonta­de popular expressa. Eu penso que o que a esquerda deveria responder é que essas eleições não deveriam ter sido feitas naque­la altura. Era a única resposta possível.

Mas foram.

Pois. Foram, e perante elas criou-se o ir­reparável. As eleições, quanto a mim, são o começo da capitulação por parte do MFA para ver-se livre do problema. Compromete­mo-nos internacionalmente e perante o po­vo português em que no prazo de um ano havia eleições. Façam-se eleições e haja o que houver. Uma direcção revolucionária, que faltou naquele período, não tinha de ter pejo nenhum em dizer que primeiro estão as tarefas de “desfascização” do País. E só depois vamos fazer eleições. Quer dizer, va­mos entrar na normalidade constitucional, não vamos recusar nenhumas liberdades; simplesmente, ao fim de 50 anos de fascis­mo. não se fazem assim eleições quando a PIDE não está desmantelada, nem os tribu­nais, nem as estruturas todas. Isso é suicí­dio, é capitular, é ver-se livre do problema. A maneira airosa de se ver livre do gérmen revolucionário que estava em curso. O povo pronunciou-se. Se não querem dar o poder de uma maneira, dão doutra. Foi o golpe militar.

De qualquer maneira, os revolucionários da época poderiam sempre tirar a conclusão dessas eleições de que havia um sector muito importante da sociedade, sobretudo do mundo rural, que se manifestava com grande hostilidade em face do processo revolucionário.

Exacto. Havia um caminho a percorrer, e o problema é este: se uma direcção revolu­cionária quisesse levar o processo para a frente e não convocasse eleições, activasse o processo do saneamento dos fascistas, jul­gamentos exemplares dos pides, dos crimi­nosos, etc., que alterações iria isso produzir na correlação de forças? É impossível de prever, não é? A pergunta fica.

A resistência ao fascismo

Do meu ponto de vista de leigo e de prá­tico, gostava de dizer que parece estranho e chocante que hoje se questione se era fas­cismo ou não era fascismo (0 Estado Novo). O fascismo em cada país tem as suas parti­cularidades próprias. Se o nosso fascismo não precisou de matar muitos milhares de pessoas, talvez seja porque a resistência não tomou as dimensões que poderia tomar noutro país, noutras circunstâncias. Mas ele não admitiu obstáculos, derrubou-os todos, por meio da PIDE, da censura, etc. Parece-me que é indiscutível que eliminou qualquer forma de resistência. Portanto, não há moti­vos para ter problemas em falar em fascis­mo português. E isto era para introduzir o problema da resistência ao fascismo. Eu te­nho visto um desenvolvimento bastante grande em conhecer a história desse perío­do, em conhecer o Salazar, tudo isso. Mas a história da resistência está muito subalterni­zada. E é impossível conhecer o período fascista sem um conhecimento profundo da re­sistência ao fascismo. Naturalmente diz-se, com razão, que uma grande parte da res­ponsabilidade cabe ao próprio PCP, que es­taria em melhores condições do que nin­guém para o fazer e reserva os elementos, mas não me parece que isso explique tudo.

As forças políticas deste sistema olham para o PCP como um partido marginal e uma ameaça à democracia, e é muito difícil expli­car que esse partido que é visto como uma ameaça à democracia lenha sido o único que de uma forma continuada e consequente fez a resistência à ditadura. Isso desautoriza au­tomaticamente os outros grupos políticos. E cria-se uma situação um bocado embara­çosa, que eu acho que os historiadores em Portugal vão ter de superar. Já passaram tan­tos anos, que considerações da política ac­tual não podem continuar a obscurecer esse aspecto. De facto, com todas as suas limita­ções, resistência ao fascismo, organizada, continuada, com uma imprensa clandestina, redes de organização à escala de todo o País, etc., é preciso dizer que houve uma só. E que se as outras forças democráticas, republica­nas, de tendência socialista, não o consegui­ram fazer, foi se calhar porque nesses am­bientes da burguesia a oposição ao fascismo não era assim tão grande como isso, porque senão tinha gerado forças, militantes.

Gerou nos primeiros anos. Até 1930-1932 há tentativas desesperadas de derrubar a di­tadura e instaurar uma república. Mas a par­tir daí parece que houve uma aceitação, e is­so esvazia essas forças. Eu, enquanto funcionário do PCP, tive entrevistas clandesti­nas com muitas personalidades republicanas, nos anos 50, e o que se passava era o PCP tentar convencer aquelas pessoas das possi­bilidades de uma resistência organizada, da necessidade de acções conjuntas, e essas pessoas retraírem-se, porque não tinham condições, porque não viam possibilidade. Esperavam em períodos eleitorais agitar um pouco.

Partindo do princípio de que os historiadores não estão a fazer queixas vãs quando dizem que o Partido Comunista cerceia a história da sua resistência, por que acha que o PC, que aparentemente tudo teria a ganhar se se conhecesse bem o mundo da clandestinidade, toma essa atitude?

Isto é o ponto de vista de um antigo mili­tante: o que senti lá dentro é que, depois do desastre do 18 de Janeiro, o Partido Comu­nista mudou.

Do 18 de Janeiro de 1934.

Mudou. Eu falava com dirigentes, antigos militantes, e era patente, não está escrito nos papéis, mas era perfeitamente patente. O par­tido considerou que as aspirações revolucio­nárias da sua primeira fase, que viravam para um levantamento revolucionário das massas trabalhadoras para deitar o fascismo abaixo, eram ambiciosas de mais.

0 preço pago pelo 18 de Janeiro foi pesa­díssimo. E nos anos 34-37, o partido sofreu uma razia tremenda, ficou completamente desmantelado. E começou a prevalecer, precisamente com a ascensão do Álvaro Cunhal à direcção, um ponto de vista de acumular forças. Muito lentamente, conseguir conven­cer os sectores republicanos a aliar-se, com vistas a um derrubamento do regime o mais amplo possível e que não ameaçasse pôr em perigo a ordem burguesa. A partir daí, a rela­ção do partido com o marxismo, com a clas­se operária, foi sendo alterada. O partido so­freu uma esterilização do pensamento, uma atitude de defesa, perdendo a audácia revolu­cionária. Entrou numa mentalidade de defesa às vezes um pouco doentia. Também é preci­so ver o efeito dos 50 anos de clandestinida­de, que mais ninguém sofreu, que geram muita coisa esquisita na cabeça das pessoas.

Mas o fundamental foi ter criado um esta­do de espírito ultradefensivo e de medo, à medida que perdeu um objectivo revolucio­nário, que daria confiança, audácia. Hoje o partido não é capaz de fazer a sua história porque tinha de falar de casos internos, tinha de pôr em causa pessoas. Vejo que eles ten­tam defender o crédito fazendo silêncio, es­condendo as coisas o mais possível, e isso eu atribuo ao distanciamento enorme a que o partido está daquilo que foi a sua origem.

Mas não acha que, à sua maneira, a burguesia liberal também tem uma resistência continuada contra a ditadura? Se tomarmos os escritórios da Baixa como a forma específica de organização desse grupo social, eles têm uma certa linha de continuidade através de múltiplas organizações. Quer dizer, não acha que esses sectores da burguesia liberal, mais instável politicamente, também estão presentes em todos os principais momentos da oposição?

Eu não digo que não existia, digo é que é uma resistência que não tem medida comum com as tarefas que eram postas ao povo por­tuguês por uma ditadura daquele tipo, e com o seu prolongamento. Pode sempre apontar- se o valor das pessoas. E muitas chegaram a ser presas, correram riscos. Mas o que temos de perguntar é: isso estava em proporção com as tarefas que concretamente eram pos­tas a forças democráticas antifascistas neste país?

O que se pode dizer é que eles definiam para si próprios tarefas diferentes das do Partido Comunista.

Sim, claro. Eu considero-as insuficientes. Nós temos dificuldade em encarar um problema no nosso país: tivemos a ditadura mais longa da Europa e que fez, tirando aquelas revoltas militares em que houve tiros, umas centenas de mortos. E que se deu ao luxo de fazer uma repressão selectiva. Eles andavam meses a vigiar pessoas, para chegar e prender o funcionário X. Isto é um tipo de relação que tem de ser explicado. Não era por a dita­dura ser tão branda, que fechasse os olhos. Não, a ditadura não se sentia ameaçada de tal forma, que tivesse de recorrer aos grandes meios brutais continuamente. É um facto in- ; discutível. E isto foi possível funcionar duran­te 48 anos. Nós temos de explicar este fenó­meno, quer dizer, a oposição, a resistência ’ antifascista é que tem de se explicar. Eu pen­so que o PCP tem muito para explicar.

Qual é a sua proposta de explicação para esse fenómeno?

É aquela de que eu falava há pouco. No PCP, nos meus tempos, apresentava-se o fascismo como um passo atrás sobre a Repú­blica. As forças obscurantistas que vinham do antigamente deram um passo atrás sobre a Re­pública, e voltaram ao antigamente. Mas pen­so que não foi uma coisa alheia às necessida­des do sistema capitalista em Portugal. A República estava a demonstrar-se incapaz de gerir os antagonismos entre burguesia e pro­letariado. E germinou – até animada pela ten­dência europeia, com os golpes, a ditadura de Pimenta de Castro, Sidónio Pais, etc. – uma perspectiva de governo forte como o mais ade­quado ao nosso país. E embora uma boa par­te da burguesia republicana se tenha oposto e tenha resistido nos primeiros anos, a maioria não teve essa atitude. Do ponto de vista do pa­tronato do Alentejo e do Ribatejo, ou do pa­tronato têxtil, era um regime tranquilizador.

E, portanto, acha que o Estado Novo pode ser definido como o regime de «toda» a burguesia?

Não uma aberração, não uma ditadura de iluminados que vêm aqui impor a ferro e fo­go. Não foi a burguesia toda que se reuniu e disse: «vamos inventar este regime.» Mas, aparecido ele… A burguesia podia ter má reacção em relação à máquina cor­porativa, às burocracias, podiam muitos sectores da burguesia achar que a censura era uma coisa levada ao extremo, mas será que a burguesia se sentia tão divorciada do regime? Eu não tenho essa sensação.

Falando, portanto, desse ponto de vista da burguesia, gostava de dizer também que o papel do dr. Mário Soares tem sido, quanto a mim, inflacionado de uma manei­ra escandalosa nos últimos anos por razõ­es de política actual. Porque ele teve um papel bastante modesto na resistência anti­fascista. Um certo endeusamento que hoje se faz de o considerar o pai da democracia portuguesa é um bocado deslocado. A coi­sa só faz sentido se virmos o conjunto, e a liquidação do 25 de Abril. E aí, de facto, o dr. Mário Soares pode ser visto como para­digma de um certo republicanismo, de cer­ta democracia portuguesa, que não se dis­tinguiu por aí além na luta contra a ditadura, que jogou um bocado mas não jogou tudo, não empenhou tudo, não arris­cou tudo, mas quando viu o povo na rua a impor a vontade nas assembleias, foi capaz de jogar tudo. Inclusive de se aliar com os grupos fascistas, bombistas. Isso está hoje um bocado silenciado, mas que, 18 meses depois da queda do fascismo, os democra­tas se tenham aliado com os fascistas para acabar com a tal bagunça, eu acho que é um facto histórico muito significativo que devia ser dito, comentado e analisado abertamente. Hoje evita-se falar nisso.

Tarefas actuais

O Francisco Martins Rodrigues alimenta uma corrente política, com imprensa, com jornais, etc. Como é que se coloca perante o momento actual, depois da queda do muro, da crise do socialismo real, enquanto marxista-leninista que continua a ser?

Eu tenho dificuldade em responder a isso, porque sinto que os marxistas revolucionários estão com um trabalho às costas muito gran­de, por não terem sabido interpretar correctamente o que se passava Na União Soviética, mais tarde na China, por aí fora. E, portanto, terem confundido regimes de capitalismo de Estado com regimes socialistas. E terem, por esse motivo, entrado numa visão falseada de todos o objectivos da revolução socialista. Eu, pessoalmente, sinto-me numa fase – já me têm sido feitos reparos nesse sentido – de olhar para trás. Porque surge-me o proble­ma: quando rompi com o PCP (não estou na­da arrependido, penso que fiz muito bem), essa ruptura pôs em movimento uma crítica à prática anterior que foi interrompida, bruscamente, pelas necessidades da actividade política, da guerra colonial. E os efeitos fo­ram muito negativos, porque ao fazer-se uma ruptura começam a surgir novos caminhos. Muito rapidamente passou-se da adesão à União Soviética para a adesão à China. o que foi renovar, com algumas diferenças, um pro­cesso semelhante.

As tarefas de hoje são essencialmente teóricas? É isso que quer dizer?

Sinto-me muito como isso. A reflexão so­bre este século, sobre a história dos partidos e das actividades dos comunistas durante es­te século não está, de maneira nenhuma, completa. Eu não aceito muitas das conclu­sões que são tiradas, não considero que se­jam frutuosas, e, portanto, penso que há um trabalho de balanço a esse período que ainda não está completo, que tem de continuar a ser feito. Naturalmente, a vida continua, nós temos todos os dias de intervir, mas eu sinto hoje uma grande repugnância em ver-me en­quadrado num partido sem perguntar pri­meiro: «E isto está respondido? Ou será que vamos recomeçar um processo que já vimos que deu mal?»

História, Abril de 1999

 

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