PSR abandona coligação “Por Lisboa”

Francisco Martins Rodrigues

Este tardio rebate anti-eleitoralista anuncia um rumo mais político do partido – ou ainda mais despolitizado?

Não se pode dizer que o X congresso do PSR, que decorreu em 1-3 de Novembro em Lisboa sob o lema “Na construção de uma alternativa”, tenha trazido novas perspectivas à área da esquerda – o que, aliás, seria difícil, no clima de recessão das lutas sociais que atravessamos. Mas algo de novo trouxe, sem dúvida.

Mudança evidente foi a presença de gran­de número de delegados jovens e a eleição dum bom número deles para a nova direcção (onde passam a ocupar cerca de metade dos lugares), a par do quase completo eclipse dos elementos “históricos” da velha LCI e sobre­tudo do abandono definitivo por Francisco Louçã do cargo de “porta-voz” do partido (na realidade, de sua cabeça política e ideológica), para se consagrar a uma carreira académica.

Irá este rejuvenescimento do partido (já patente no Acampamento internacional da juventude, de fins de Junho, em Amarante) provocar um maior radicalismo de posições? É o que parece, à primeira vista, ao saber-se que no centro dos debates do congresso este­ve a proposta, finalmente aprovada após ace­sa polémica, para o abandono da coligação “Por Lisboa” nas eleições do próximo ano. Segundo Alfredo Frade, elemento influente da nova direcção e deputado municipal eleito por aquela lista, o apoio à coligação PS-PC já não se justifica visto não haver perigo de uma vitória da direita em Lisboa e tendo em conta, além disso, o desgaste político a que o partido estaria exposto caso continuasse ligado à gestão municipal no período que se aproxima, marcado pelos festejos faraónicos da Expo98. É possível também que o PS, hoje em situação mais confortável, tenha endure­cido excessivamente as condições para uma eventual participação do PSR na coligação.

Seja como for, seria caso para nos felici­tarmos com este tardio rebate anti-eleitoralista se ele não se integrasse num palpável distanciamento de tudo o que respeita à luta política. Como assume Louçã, em entrevista ao semanário Já, face ao recuo do movimento operário e dos movimentos sociais e estudan­tis, “a partir da metade dos anos 80, o nosso esforço foi o de mudar substancialmente o perfil da organização, no sentido de procurar o centro de gravidade na intervenção com outras pessoas”. Este frentismo orientara os temas que de momento se revelam mais rentáveis junto de uma certa faixa juvenil  (citem-se as batalhas em torno do ambiente, das drogas, da homossexualidade…), resultou no abandono da luta política directa, de que é espelho (lamentável) o esvaziamento político do Combate.

É certo que o processo de despolitização do partido não é ainda completo. Os docu­mentos do congresso continuam a assumir com mérito algumas posições políticas radi­cais, como a saída de Portugal da NATO, o referendo sobre a moeda única, a retirada das tropas da Bósnia, a denúncia da escalada do controlo policial e do racismo, o direito ao aborto livre e gratuito. Mas fica a dúvida sobre a eficácia destas reivindicações formais quando se sabe que a actividade real do PSR se cinge às questões mais sensíveis à sua base social: reforma do ensino, drogas (o congres­so reafirmou a exigência da legalização to­tal), homossexualidade, serviço militar, am­biente… Ao modernizar-se de modo a adequar a sua vocação de bloco animador da juven­tude contestatária às novas condições dos anos 90, o PSR acentua a sua deslocação para a área do centro (no meio de campanhas altamente irreverentes, estamos certos). Será a esquerda a perder.

Representantes da Política Operária assistiram a convite à sessão de encerramento do congresso.

 Política Operária nº 57, Nov-Dez 1996

 

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