Uma cruzada do nosso tempo

 Francisco Martins Rodrigues

A grande manifestação popular à porta do Coliseu do Porto, “contra as seitas” e “pelo direito à cultura”, foi na realidade uma exibição de atraso cultural, de fanatismo religioso e de xenofobia. E o facto de ser genuinamente popular ainda a torna mais lamentável.

“0 Coliseu é do Povo!” Por uma vez unidos, ricos e pobres, esquerda e direita, governantes e governados, todos, cheios de justa indignação, levantaram-se contra os manejos da Igreja Universal do Reino de Deus. Com tal calor que os venerados princípios do Estado de Direito foram esquecidos, pessoas foram humilhadas por causa das suas convicções e uma manifestação foi proibida sem mais formalidades.

OU HÁ MORAL OU COMEM TODOS

Acusações não faltam. Que a IURD estende os seus tentáculos tenebrosos comprando casas de espectáculos, rádios, programas de televisão; que arranca dinheiro

aos fiéis por meio da intimidação e do logro; que se está a servir de um partido político teleguiado para alargar a sua penetração; que os “milagres” entre cenas de histeria colectiva são uma afronta à inteligência. Pior: que há razões para suspeitar que a sua riqueza não vem só dos donativos dos fiéis e que a religião serve de capa a tráficos ilegais, inclusive de droga.

Até aqui, nada a opor. Os da IURD são uns trampolineiros da pior espécie. E daí? Alguém ignora que uma outra seita religiosa, a da Igreja Católica, pratica entre nós estas mesmas aberrações em total impunidade e sobretudo em escala muito maior? Que multinacional chegará alguma vez a dispor neste país de uma rede tão completa de escolas, imprensa, rádio, televisão, como ela? Haverá circo mais degradante do que as peregrinações, as promessas e os “milagres” de Fátima? Acaso se desconhece que a Católica arregimenta milhares de funcionários e, por intermédio da Opus Dei, infiltra partidos e instituições, sustenta uma teia de cumplicidades e dependências que lhe permite reinar sem contestação?

Para o observador isento (isto é, emancipado de superstições religiosas), não há qualquer distinção de fundo entre os católicos e os outros. Não faz sentido reverenciar como “sagrado” aquilo que noutras con­fissões não passa de crendice evidente.

SEGMENTOS DE MERCADO

Na base do tumulto contra a IURD e outras “seitas” está o alarme da Igreja Católica por se ver acossada no que considera o seu feudo. Na verdade, desde há algumas décadas, as igrejas protestantes e evangélicas, financiadas em larga medida pelas multinacionais religiosas dos Estados Unidos, vêm desenvolvendo uma estratégia concertada de conquista do mercado nos países dependentes. As suas técnicas psico-religiosas modernas, o seu marketing audacioso, a sua exploração hábil das expansões emocionais colectivas, têm-lhes proporcionado avanços espectaculares na competição com uma Igreja Católica emperrada por séculos de monopólio.

Inevitavelmente, a disputa teria que chegar ao mercado nacional, tradicionalmente uma reserva católica. Depois do êxito limitado das exportações directas dos EUA (Jeová, mórmones), chega agora do Brasil (onde a influência destas igrejas já toca 30% dr população) um concorrente temível, porque explora em pleno afinidades de língua, de cultura e de psi­cologia. Compreende-se que a hierarquia mova céus e terra para os expulsar. 0 que não se aceita é a presteza com que a opinião “progressista” se põe ao serviço desta cruzada sórdida.

ECLIPSE

A “luta pelo Coliseu”, apesar do seu álibi “cultural”, foi mais uma das movimentações típicas desta época de demagogia desenfreada e de eclipse da inteligência. Vem na sequência das milícias “populares” contra ciganos e drogados, dos pavores colectivos acerca dos “aviões estrangeiros que lançam fogo às matas”, da audiência recorde para programas televisivos de nível macacal, dos megaconcertos onde multidões “curtem” uma ilusória evasão. São as acções de massas da época do neoliberalismo.

Só a ânsia de popularidade ou o simples hábito de alinhar com a onda podem ter levado intelectuais, artistas e políticos com responsabilidades de esquerda a caucionar esta ofensiva pseudocultural animada pelos magnates da Católica. E não é por se dizer “Sim à manifestação, não à intolerância, não à xenofobia”, como fizeram alguns, que se pode mudar-lhe o carácter. A manifestação era já, de raiz, intolerante, xenófoba e reaccionária.

De facto, no seu balanço final, a “luta” pelo Coliseu: 1) reconfirmou o monopólio de legitimidade à Igreja Católica; 2) excitou a aversão xenófoba contra os imigrantes, neste caso brasileiros; 3) deu cobertura “progressista” aos secretas do SIS para a perseguição a estrangeiros; 4) paralisou a desconfiança das massas face aos governantes e às instituições. O seu resultado positivo, se assim se pode dizer, será o de mobilizar as poupanças dos incautos para o lançamento de uma sociedade de espectáculos. Podem limpar as mãos à parede os entusiastas deste “movimento popular”.

Santa Mafia

Para nós, comunistas, é claro que as superstições religiosas só se apagarão num futuro longínquo, quando a supressão das misérias da dependência assalariada, a difusão da cultura e a participação de cada um na vida colectiva libertarem os espíritos.

Mas isso não significa que nos abstenhamos hoje em mate religiosa. As igrejas todas, sem distinção estão transformadas em redes internacionais de captação e acumulação capitais por meio do embuste. Têm que ser consideradas organizações de tipo mafioso, já que abusam de pessoas logicamente vulneráveis, explorando o seu receio da morte sua ânsia de sobrenatural.

Temos que romper o tabu que bloqueia a propagai materialista, em nome do “respeito pela religião”; revelar, um perseverante trabalho pedagógico, a inconsistência flagrante dessas pretensas “doutrinas”; lutar contra os privilégios (conquistados pelas confissões religiosas, sem coacção sobre consciências, mas sem transigência com o obscurantismo.

E temos que dizer que, de todas essas seitas, a Igreja Católica é ainda a mais perigosa porque a mais poderosa. A cumplicidade da sua hierarquia com o regime salazarista e as guerras coloniais, a responsabilidade do papa na guerra dos Balcãs e no processo de Andreotti, que põe em foco meio século de dominação da política italiana pela associação da Igreja Católica à Mafia são exemplos vivos do que há a esperar desta seita.

Política Operária nº 5, Set-Out 1995

Livros disponíveis de Francisco Martins Rodrigues

Anti-Dimitrov (2009, 2ª ed., 328 págs. – 21 €)

Os Anos do Silêncio (2008, 120 págs. – 11 €)

História de uma Vida (2008, 320 págs. – 13,65)

Abril Traído (1999, 120 págs. – 8,40 €)

A Conspiração dos Iguais de Ilya Ehrenburg (186 pp.), tradução de FMR

(2004, 190 págs. – 12 €)

Envios à cobrança – pedidos a jornal9@gmail.com.

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