Entre dois golpes – A “revolução” foi há 20 anos

Francisco Martins Rodrigues

Passou sem grande polémica o 20° aniversário do “Verão quente”. Os partidos do poder ainda rosnam contra a “tentação totalitária da esquerda”, o PCP ainda chora baixinho a “revolução” perdida mas o tema, à força de ser usado nas guerras eleitorais, parece ter esgotado o interesse.

A “revolução dos cravos”, olhada a vinte anos de distância, surge como um acto nítido de saneamento no interesse da burguesia. De facto, com o fascismo gasto e manifestamente incapaz de sair da ratoeira das guerras coloniais, a passagem à democracia era a condição para o crescimento e mo­dernização do capitalismo.

Seguindo o esquema clássico deste tipo de movimentos, a transição de um regime para o outro desdobrou-se em duas fases complementares: primeiro, a tropa apoiou-se no povo contra o fascismo, na esquerda contra a direita; a seguir, aliou-se à direita contra a esquerda. Desta sábia combinação resultou a Democracia. Por isso Mário Soares ou Eanes nunca se esquecem de associar nas suas homenagens à “jornada libertadora” do 25 de Abril consolidação democrática” do 25 de Novembro.

Só que anemia crónica da burguesia nacional fez com que o intervalo entre os dois golpes militares fosse demasiado longo, agitado e confuso. Daí o chamado “caso português ainda hoje estudado em univer­sidades como um exemplo raro de paralisia e cobardia burguesas. A vaga popular pacífica vitoriava o MFA mas galgava todas as barreiras, tornava pouco a pouco o país irreconhecível, cercava a burguesia que fugia em pânico, impotente para atalhar a de­sordem. Os saneamentos, as ocupações de terras e casas, a autogestão de empresas, a liberdade de, greve, a conquista das ruas, a desautorização das polícias, o poder dos plenários, o regresso forçado das tropas das colónias, o começo da dissolução da disciplina militar, foram as experiências mais avançadas de democracia proletária vistas neste país. Sob o aparente esquecimento actual, estão inscritas na memória colectiva da burguesia como na do proletariado. Ressurgirão forçosamente amanhã numa nova situação de crise de poder.

Porquê então as “conquistas de Abril” se revelaram tão frágeis ao embate do novembrismo? Esta questão, que ainda hoje amargura muitas consciências, esquece que o movimento  popular não tinha a enver­gadura nem a estratégia. nem a táctica duma autêntica revolução anticapitalista;, internou-se espontaneamente pelo vazio de poder  mas sem fazer ideia de até onde podia chegar, o que por si só indica que a revolução socialista não estava na ordem do dia.

Pior: era um movimento enfraquecido por tendências contraditórias. Trazia no bojo o germe di derrota. De facto, o êxito fácil de mais do 25 de Novembro não engana. Durante o ano e meio de “bagunça”, o PCP, a ala esquerda do MFA e alguns dos grupos ditos de “esquerda revolucionária” mantiveram contacto com o movimento popular, saudaram-no, aclamaram-no, mas para tentar doseá-lo a conta-gotas. O seu objectivo instintivo era manter a direita na defensiva mas sem a golpear seriamente. Talvez pressentissem que ela ainda lhes seria necessária para ajudar a conter o “caos”…

Por outras palavras: houve durante o PREC uma oposição de interesses permanente no campo “revolucionário”, entre o prole­tariado, motor cego dos acontecimentos, e a pequena burguesia de “esquerda”, sua condutora política. Foi esse conflito que abriu espaço para o 25 de Novembro. Quando a democracia pequeno-burguesa, de que o PCP é entre nós o principal representante, lamenta a perda da “revolução”, ela omite que fez tudo para malograr as conquistas populares, pois assim o exigia o seu projecto dum poder “democrático, nacional e popular”, equi­distante da reacção e da “rua”, nas balizas imaginárias sonhadas pelo 25 de Abril.

Política Operária nº 51, Set-Out 1995

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