Quando o Papa abençoava Hitler

Franciso Martins Rodrigues

Abalada pela revelação dos entendimentos tenebrosos de Staline com os nazis entre 1939 e 1941, a opinião progressista europeia tendeu nos últimos decénios a esquecer a respon­sabilidade das chamadas “for­ças democráticas” no ascenso do nazismo. Entre outras coi­sas, acabou-se por branquear o papel da Igreja Católica no desencadeamento da guerra e no próprio holocausto.

É o que recorda este trabalho escrupuloso do historiador Henri Fabre L’Église catholique face au fascisme et au nazisme. Les outrages à la vérité, Henri Fabre. Ed. EPO, Bruxelas, 1995. Apoiado numa documentação copiosa e indiscutível (toda a que lhe foi possível consultar dos bem defendidos arquivos do Vaticano, que ainda hoje conservam milhares de documentos reservados), ele desmonta metodicamente a lenda de que a Igre­ja teria dado um corajoso combate aos regimes nazi-fascistas e de que Pio XII ignorava a dimensão aterradora da hecatombe. Trata-se, afirma, ­­­duma imensa impostura tecida pela historiografia catól­ica no pós-guerra para se ilibar das suas responsabilidades.

Para começar, o facto geralmente omitido de que só graças ao voto favorável do partido do Centro Católico obteve Hitler os plenos poderes do Reichstag, em 1933, quando os comunistas já estavam a ser presos em massa. A Igreja não escondia a satisfação pelo surgimento do nacional-socialismo como baluarte pro­videncial contra a “co­­nspiração judeo-maçónica-bolchevista”. As informações que afluíam ao Vaticano sobre os primeiros campos de concentração, torturas e massacres não provocaram qualquer condenação expressa. Em vão esperaram muitos crentes, em vez de palavras “caritativas” do Papa para com as vítimas, uma clara e veemente condenação ideológica do racismo, que alertasse e mobilizasse a opinião pública internacional contra a barbárie nazi. E se é certo que surgiram, a partir de certa altura, conflitos entre o Vaticano e os fascistas no poder, eles derivaram apenas das restrições levantadas por estes aos seus privilégios tradicionais, sobretudo no campo da educação.

Durante a guerra, por toda a Europa ocupada, as Igrejas nacionais recusaram solidariedade a apelos prementes das vítimas, fecharam os ouvidos a provas indubitáveis dos massacres em curso. Os padres e um ou outro bispo que levantaram corajosamente a voz a favor das vítimas (e que hoje são citados como “prova” da oposição da Igreja ao terror) foram na época desau­torizados pela hierarquia e abandonados à sua sorte. Em França, a Igreja deu um apoio entusiasta ao regime colaboracionista de Pétain. Na Croácia e na Eslováquia, as respectivas Igrejas tornaram-se o próprio centro do poder fascista e conduziram directamente os massacres das “raças inferiores”, sérvios, judeus, ciganos, assim como dos resistentes (recorde-se que no fim da guerra, 243 pa­dres croatas foram condenados à morte e fuzilados por atrocidades cometidas durante a ocupação). Em Espanha, a Igreja abençoava os massacres dos falangistas contra o “comunismo ateu”. Em todos os casos, o Vaticano manteve o apoio aos criminosos, emitindo, quando muito, inócuos apelos de “moderação” e “caridade” quando o silêncio era de todo impossível. Foi só quando a sorte da guerra se inclinou definitivamente para o triunfo dos Aliados que a Santa Sé construiu a fábula duma oposição de princípio ao nazismo. Mas mesmo em 44, nas vésperas da libertação, ainda o Vaticano condenava como “provocação” acções dos resistentes, considerando-os responsáveis pelo fuzilamento de reféns pelos nazis.

Entre as provas esmagadoras de cumplicidade documentadas ao longo do livro, citemos o caso das 8.000 crianças judias romenas que não foram transportadas para a Palestina devido à recusa de intervenção do Papa; o extermínio sistemático dos sérvios pelo governo católico croata com a bênção de monsenhor Stepinac; telegramas de parabéns a Hitler pelo seu aniversário; uma saudação de Natal de Pio XI onde Mussolini é calorosamente apelidado de “incomparável”…

No final, podemos dizer com o autor que “centenas de milhares de pessoas pereceram por ausência duma intervenção da Igreja Católica”.

Política Operária nº 51, Set-Out 1995

Livros disponíveis de Francisco Martins Rodrigues

Anti-Dimitrov (2009, 2ª ed., 328 págs. – 21 €)

Os Anos do Silêncio (2008, 120 págs. – 11 €)

História de uma Vida (2008, 320 págs. – 13,65)

Abril Traído (1999, 120 págs. – 8,40 €)

A Conspiração dos Iguais de Ilya Ehrenburg (186 pp.), tradução de FMR

(2004, 190 págs. – 12 €)

Envios à cobrança. Pedidos a jornal9@gmail.com

 

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