Agruras da esquerda brasileira

Francisco Martins Rodrigues

Teoria & Debate, Mar./Abr./Mai. Revista trimestral do Partido dos Trabalhadores. Dir.: Francisco Campos. Rua Conselheiro Nébias, 1052 – Campos Elíseos – 01203-002 São Paulo, SP.

Em Tempo, Abril. Publicação da Tendência Democracia Socialis­ta do PT. Editora Aparte Ltda., Rua Brigadeiro Galvão, 138 – Barra Funda – 01151-000 São Paulo, SP.

Princípios, Maio/Jun./Jul. Revista teórica, política e de informa­ção. Dir.: João Amazonas. Editora Anita, Lda. R. Mons. Passalaqua, 158 – 01323-010 São Paulo, SP.

A tradicional e salutar abertura à crítica reinante no PT confirma-se neste número da sua revista oficial, Teoria & Debate, agora a cumprir dez anos de publicação. A pouco mais de um ano de distância da eleição em que Lula dispu­tará de novo a presidência, é visível a ansiedade nos meios partidários acerca do desfecho de uma aposta em que o PT joga as últimas esperanças de se afirmar como partido cre­dível de governo. No centro dos debates a questão de sa­ber se o PT deve ampliar mais o leque de alianças a sectores do PSDB e do PMDB, os dois gran­des partidos do centro, ou se deve, pelo contrário, buscar alargar a sua base eleitoral própria dedicando-se com mais afinco à mobilização das massas pobres.

Todavia, nesta polémica parece não haver consciência, mes­mo da parte dos “radicais”, do plano inclinado em que o PT mer­gulhou ao pôr-se como meta a conquista de posições sucessiva- mente mais altas no aparelho de Estado burguês. O mais que se consegue obter é a confissão algo eufemística de um dirigente de que “o grande problema que vivemos hoje no PT é que não estamos conseguindo fazer acompanhar o crescimento eleitoral e institu­cional pelo necessário avanço na coesão programática, pela manu­tenção da ética interna, pelo reforço da identidade ideológica”.

Um diagnóstico bem mais severo – e ao que nos parece mais certeiro – dos males do partido é traçado na revista Em Tempo, órgão da tendência Democracia Socialista (trotskista). A esquer­da do PT, lê-se num documento aí reproduzido, “não soube com­preender o quanto o poder real do partido já se havia deslocado das estruturas normais de direcção para centros autónomos em torno de personalidades, sindicatos, parlamentares e executivos eleitos pelo partido”. Vai mais longe: “Se as instâncias de base há muito deixaram de existir, agora são as instâncias de direcção que começam a desaparecer ou a transformar-se em meros apare­lhos para legitimar posições. As direcções das campanhas eleito­rais são exemplos gritantes disso”. Por último: “O carácter socia­lista do PT está sendo questionado dentro e fora do partido. A deia da transição e da socialização dos principais meios de produção desaparece e a lógica do mercado surge como inevitável.” Apesar disto, e reflectindo as incuráveis ambiguidades do trotskismo, o documento considera impossível a repetição no Brasil do processo de social-democratização verificado nos partidos operários europeus e acredita numa “alteração radical do curso do Partido” pela mudança na composição da direcção. Críticas “principistas” “implacáveis” e manobras entristas “audaciosas”: Trotski não deixaria de aprovar…

Por muito que doa aos que depositaram grandes esperanças o “carácter novo” do PT, é a sua transformação plena num “partido burguês para operários” que está em curso. Não cremos que esse rumo possa ser mudado.

Submarinos – Do PT pas­semos a uma força menor mas com tradições na esquerda brasileira, o Partido Comunis­ta do Brasil. É sempre com in­teresse que lemos a sua revis­ta Princípios, já que nos per­mite – para além de informa­ções sobre a situação política interna – fazer o ponto da deriva desse partido.

A imagem que nos fica do PCdoB actual a partir dos prin­cipais artigos deste número é a de uma extrema corrupção oportunista – o que de forma alguma nos surpreende. Recorde-se que este partido teve há vin­te e tal anos pretensões a “farol” do movimento comunista revo­lucionário e a esse título interferiu na nova corrente comunista nascente no nosso país, causando-lhe sérios prejuízos pela desa­gregação a que conduziu o PC(R).

Ficamos a saber através de dois artigos de fundo que o parti­do tem em curso uma campanha pela “intervenção cívica” das Forças Armadas nos grandes problemas do país. Segundo o depu­tado Haroldo Lima, a “melhor tradição” das Forças Armadas bra­sileiras sempre teria sido a “unidade nacional”. Nada justificaria pois o silêncio a que estão remetidos os militares e Lima desafia-os a libertarem-se de complexos… Basta que “deplorem publica­mente o tratamento desumano dado a opositores do regime” (note-se o termo arrepiante: “deplorar”) e nada impedirá que reassumam o protagonismo. Num outro artigo, “Forças Armadas, poder naval e soberania nacional”, Aldo Rebelo, dirigente e também deputa­do federal do partido, defende que “se é verdade que o golpismo, o caudilhismo e o partidarismo que envolveram as Forças Arma­das na América Latina são experiências condenáveis, tais factos não podem ser usados como pretexto para excluir os militares da reflexão sobre os rumos do Brasil”. E adianta propostas concre­tas para a Marinha e a Aeronáutica: “Uma marinha forte, versátil, adestrada e valorizada é uma garantia para a realização das aspira­ções nacionais e dos interesses geopolíticos do Brasil. Cuidemos, pois, da nossa marinha”. “O submarino nuclear e o caça AMX são produtos de um pioneirismo e persistência louváveis” que “de­vem merecer o incentivo, o apoio e o amparo de todos os brasilei­ros sinceros.” “O Brasil precisa do submarino nuclear. Se por um lado festejamos a certeza de construí-lo, por outro lamentamos as dificuldades orçamentais que têm atrasado o seu calendário”.

Lê-se e não se acredita! Estão assim tão longe os anos negros da ditadura militar? Não vamos ao ponto de supor que a direcção do PCdoB esteja financeiramente interessada nas encomendas militares que tão ardorosamente defende. Admitimos que tudo se resuma a um caso de cretinismo patriótico, na linha do “nacional-comunismo” propugnado por João Amazonas. Como argumenta a revista: os Estados Unidos boicotam o reforço militar dos países latino-americanos, que não lhes convém nesta era de “globaliza­ção”; logo, devem os patriotas e progressistas bater-se por essas mesmas forças armadas!

Uma outra componente forte da política actual do PCdoB trans­parece num editorial de João Amazonas, intitulado “Socialismo no século XXI”, triste peçazinha no estilo de “incentivo e confiança no futuro” onde, entre outras coisas, somos informados de que “o socialismo sofreu derrota passageira na União Soviética e no Leste europeu” mas que “é possível que os comunistas voltem ao poder na Rússia”; a China “acabará consolidando o regime socialista”, assim como o Vietname. Este namoro descarado ao bastião chinês (que é a actual esperança desesperada para que se volta esta corrente – veja-se a postura de Cunhal e do PCP) leva inclusive a revista a reproduzir um editorial do Diário do Povo de Pequim, “A luta Norte-Sul sobre os direitos humanos”, no qual a condenação da hópcrita campanha imperialista dos “direitos humanos” serve como álibi para fazer passar os atropelos do poder na China.

Política Operária nº 61, Set-Out 1997

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