Massacres tribais no Ruanda inspirados pela França

Mário Fontes[1]

 Paraquedistas franceses e americanos no Ruanda – mais uma operação internacional, “rigorosamente neutral” destinada a pôr termo aos combates e acudir aos refugiados”. O Ocidente não desiste da sua missão civilizadora…

 Hutus matam Tutsis e vice-versa – vá lá saber-se quem tem razão no meio dessa sangueira tribal! O ci­dadão comum, agoniado pelo espectáculo da carnificina, servido a todas as refeições pela televisão, recebeu com um suspiro de alívio o desembarque das tropas “paci­ficadoras”.

Mas a história do “caso Ruanda” não foge ao sórdido esquema habitual, a não ser pelas suas dimensões apo­calípticas. Foi a França que instalou no poder, em 1975, a ditadura de Habyarimana; para facilitar, o governo foi constituído no próprio recinto da embaixada fran­cesa em Kigali; conselheiros militares franceses treina­ram a milícia pessoal do ditador, especializada na ma­tança da etnia Tutsi; a França, ainda, forneceu-lhe 6 milhões de dólares de armas através do Crédit Lyonnais, o que, diga-se de passagem, constituiu um óptimo negó­cio para a fábrica Dassault.

Salvo pelas tropas francesas e belgas de uma ofensi­va dos rebeldes da Frente Patriótica (FPR) vinda do Uganda em 1990, o ditador era apresentado como ami­go de Mitterrand, apesar das provas esmagadoras de prisões em massa, torturas, desaparições de opositores, etc. Imperturbável, o embaixador da França no Ruanda desmentia há pouco mais de um ano como “rumores infundados” as notícias que transpiravam sobre mas­sacres sistemáticos.

Acontece, todavia, que a Frente Patriótica, apoiada pelos Estados Unidos e Inglaterra, alargou pouco a pouco o seu domínio do território. A França foi forçada a aceitar uma partilha do poder com os rebeldes, decidi­da nos acordos de Arusha, na Tanzânia, em Agosto do ano passado. Mas Habyarimana e os seus capangas não estiveram pelos ajustes. Os serviços secretos fran­ceses terão então recorrido aos grandes meios, prepa­rando o atentado de que resultou a morte do seu antigo protegido, em Abril. Objectivo da operação: colocar no poder um governo provisório, como última forma de negociar em boas condições com a FPR.

A partir daí, a situação fugiu porém a todo o contro­lo e os massacres de Tutsis tomaram uma amplitude devastadora. Interveio então, em último recurso, a “Operação Turquesa”. Com a criação da “zona humani­tária” visava-se preservar um refúgio para o exército derrotado, pôr a salvo os culpados do genocídio, e im­por aos vencedores uma partilha de poder na composi­ção do futuro governo ruandês. Só que os incitamentos para a população se concentrar na zona de “segurança” ocupada pelas tropas francesas provocou o amontoa- mento de dois milhões de refugiados nesta zona e nos campos do Zaire, sem quaisquer condições. Nada funcio­nou como devia do ponto de vista sanitário e os refugia­dos começaram a morrer à cadência de milhares diaria mente, de desidratação, cólera, disenteria.

O preço total é conhecido: meio milhão de seres humanos mortos. Para nada, afinal, já que quem encaixou os benefícios foram os Estados Unidos, pro­tectores da nova Junta no poder em Kigali.

Em Paris, o governo disfarça o desaire sob compungidas expressões de pesar pelas vítimas, como se não tivesse a principal responsabilidade na catástrofe. E, o que é mais notável, oposição socialista, parlamen­to, grande imprensa, unidos num “respon­sável sentido patriótico”, abstêm-se de desmascarar Bahadur. Porque o fariam, se esta é apenas a continuação da invariável política francesa em África? Afinal, não é a “democrática” França que tem no seu activo, desde 1961, dezoito intervenções militares em países africanos, as quais nunca foram votadas no parlamento e se destinaram, como regra, a sustentar ditadores no poder?

[1] Pseudónimo de Francisco Martins Rodrigues.

 Política Operária nº 46, Set-Out 1994

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