Fascismo antigo e moderno

Francisco Martins Rodrigues

Dezoito milhões de desempregados, ascenso de greves e conflitos sociais, entrada dos fascistas no governo de Itália – estaremos perante uma reposição do filme dos anos trinta?Esta parece ser a opinião de Alex Calinicos, conhecido marxista inglês, o qual, num artigo dedicado à luta de classes na Europa (1), julga divisar uma “polarização de classe” semelhante à dessa época, com a diferença, porém, de que o movimento operário estaria agora “em muito melhor posição para resistir aos futuros assaltos” do ini­migo, porque disporia de “força e combatividade” e conta­ria com os sindicatos para a defesa dos seus interesses de classe. Discordamos da comparação e ainda mais da pretensa situação de vantagem do proletariado.

Sem dúvida, a crise económica, o descontentamento dos trabalhadores e a influência crescente dos fascistas estão intimamente relacionados, mas seria apressado que­rer ver nos acontecimentos actuais um sinal de polari­zação da luta de classes semelhante à dos anos trinta. Primeiro, porque o movimento operário está privado da força aglutinadora que constituíam os partidos comunistas e a imagem revolucionária da Rússia soviética; depois, por­que o grau de eficácia das instituições “democráticas” (parlamentos, sindicatos, aparelho mediático…) no con­trolo e alienação das massas é hoje incomparavelmente mais elevado do que há meio século; por último, as bur­guesias europeias estão agora empenhadas num projecto imperialista comum, em contraste com o tempo em que, dilaceradas em blocos rivais, preparavam o ajuste de contas da segunda guerra mundial.

Por tudo isto, o actual ascenso fascista e neonazi tem pouco de comum com o dos anos vinte/trinta. Se nessa época os partidos fascistas puderam tomar o poder de assalto (não só na Itália e Alemanha como na Espanha, Hungria, Roménia, Polónia, Bulgária, Portugal, etc.), foi porque se tornava patente a incapacidade da burguesia exercer o poder por meios “democráticos”. Só o terror fascista tinha condições para aplicar o remédio requerido – quebrar a espinha ao movimento operário, como primei­ra condição para uma centralização e disciplina absolutas do poder burguês.

Hoje o problema não é esse. Os mecanismos “demo­cráticos”, devidamente aperfeiçoados e oleados pelo gran­de capital, permitem que o fardo da crise seja lançado sobre os ombros das massas sem sobressaltos de maior. Por isso, os partidos e bandos fascistas/racistas que têm vindo a propagar-se um pouco por toda a Europa fun­cionam como auxiliares do sistema, não como alternativa de poder; o seu papel essencial é o de cães de guarda destinados a manter baixo o preço da mão-de-obra imigrante, ou mesmo expulsá-la quando se torna exce­dente por efeito da crise.

Não se pode ignorar, naturalmente, que os fascistas não se contentam com esse papel subalterno; aspiram a ser reconhecidos como força de reserva para eventuais emergências futuras e é nessa perspectiva que são finan­ciados e promovidos por alguns sectores da burguesia. Mas essa não é a sua função actual, mesmo quando dão entrada no governo, como foi o caso de Itália. O facto de o capital financeiro conservar a sua velha predilecção pelas ditaduras fascistas em países instáveis do Terceiro Mundo não significa que as deseje como forma de governo em casa; na situação actual, seriam um estorvo à acumu­lação do capital.

E isto justamente porque o movimento operário europeu não requer tratamentos de choque para ser mantido na obediência. A afirmação de Calinicos de que existiria hoje mais “força e combatividade” do que no passado é desmentida por todos os dados objectivos; só podemos atribui-la a arrebatamento agitativo, gerado no ardor da campanha antifascista em curso na Inglaterra. É o contrário que acontece; o movimento operário euro­peu, em recomposição profunda e privado talvez ainda por longo tempo de perspectivas revolucionárias, não constitui uma ameaça séria para a burguesia. Dos apare­lhos sindicais, em processo avançado de suborno e apodrecimento, nem vale a pena falar.

A importância política desta questão parece-nos óbvia. A atribuição dum papel político central à luta contra os bandos nazi-fascistas tenderia a fazer recuar os trabalha­dores europeus para uma linha geral de defesa das insti­tuições vigentes. Ora, o factor determinante da actual fraqueza do proletariado do continente é justamente a ausência duma estratégia de luta contra a “democracia”. A democracia imperialista é o baluarte principal em que hoje se apoia o grande capital europeu para manter as massas subjugadas, conduzir as suas guerras “humani­tárias” no exterior e preparar novas partilhas do mundo. Esvaziando todos os meios de expressão popular, ela cumpre eficazmente as funções outrora desempenhadas pela força bruta do fascismo.

Por isso dizemos: luta contra os bandos fascistas, co­mo meio de combate à xenofobia, pela unidade de todos os destacamentos do proletariado, sim; mas desde que integrada na luta permanente e mais geral contra a mentira “democrática”, o grande obstáculo atravessado pela burguesia no caminho da revolução.

(1) “Crisis and class struggle in Europe today”, Interna­tional Socialism nº 63, Verão 94.

 Política Operária nº 46, Set-Out 1994

nº 61, Set-Out 1997

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