Marx em liberdade vigiada

Francisco Martins Rodrigues

Afinal, nem tudo no marxismo é para deitar fora, concedem os entendidos. Após cinco anos de repúdio universal, o velho Marx recupera o direito a sair à rua. Desde que não insista no seu funesto plano de expropriar a burguesia.

O “caso Karl Marx” voltou à ribalta. Primeiro, foi Jacques Derrida, filósofo de bom tom, inventor patenteado do “desconstrucionismo”, que provocou celeuma ao afirmar, na apre­sentação de um livro com o título insólito de “Espectros de Marx”, que os incontáveis deserdados deste mundo constituem uma nova Internacional em potência. Disse mais: “Creio na ne­cessidade de voltar a um certo marxismo para fazer face ao dogmatismo capitalista”! Passada a estupefacção inicial, outros filósofos igualmente respeitáveis, Balibar, Giles Deleuze, Alain Finkielkraut, aventuraram-se a confirmar que há no marxismo, de facto, contributos úteis para a compreensão da época actual. E Gere­mek, o ideólogo histórico do Solidarnosc, asseverou que “o fracasso do marxismo como doutrina política não implica o fracasso da inspiração marxista”.

Não tardou nada que comentadores e jornalistas, farejando a possibilidade de o produto voltar a ter alguma saída no mer­cado, fizessem uma pausa na orgia neoliberal e se lançassem briosamente na reavaliação dos “lados aproveitáveis” do marxis­mo. A tal ponto que uns tantos amigos da ordem, inquietos, começaram a alertar contra o retorno dum “criptomarxismo” rastejante.

Conclusão: estude-se Marx como um clássico ainda hoje válido mas rejeite-se o “visionarismo” do seu projecto de assalto ao poder de Estado por uma classe organizada em partido. Como pensador político, Marx deve ser banido. “O preço pago pela utopia da revolução proletária foi demasiado pesado”.

O caso é que poucos, mesmo à esquerda, protestam contra esta venda do marxismo em saldos. “Pois não é verdade que socialismo, ditadura do proletariado, fim da exploração do homem pelo homem, acabou tudo em farsa?”

Pensava-se que o capitalismo estava sendo empurrado para fora da cena por um sistema novo, mais dinâmico, em cres­cimento imparável (ainda que distorcido ou imperfeito), para afinal ver o colosso soçobrar num naufrágio reles, entre cenas burlescas, enquanto a burguesia, “condenada pela história”, parece cada vez mais florescente e cheia de apetite. Mais cho­cante que tudo a facilidade com que povos “educados em socia­lismo” aderiram aos conceitos mais rascas da “democracia ocidental”. Contávamos com eles para demonstrarem a vantagem duma nova ordem social, aparecem a pedir o regresso dos patrões…

As lamentáveis “revoluções” de 89, ao pôr milhões na rua a aclamar a lei do capital em nome da democracia, deixaram a esquerda bruscamente nua e desamparada. Daí o sentimento de apocalipse que levou muitos a pedir perdão à burguesia. O capitalismo ganhou a partida, logo, é invencível esse é o tos­co fio condutor do seu pensamento ajoelhado.

Que estes receios eram infundados demonstrou-o o desenlace do debate. Feito o apuramento, verificou-se um amplo consenso dos meios intelectuais responsáveis quanto às “limi­tações insuperáveis” do pensamento de Marx. Filósofo de valor, fustigador implacável das injustiças sociais, crítico arguto de certos mecanismos capitalistas, útil ainda hoje pelas suas elabo­rações em torno das crises, do exército industrial de reserva, da pauperização, etc., ele teria falhado fragorosamente ao embrenhar-se pelas visões messiânicas do “Manifesto do Partido Comunista”.

Querer adivinhar a passagem do género humano a uma sociedade igualitária, não governada pelo Capital, aparece hoje, aos nossos emancipados pensadores actuais, como uma extra­vagância romântica, própria das brumas do século XIX. Pior ainda ter metido tal ideia na cabeça duns tantos operários e ter formado a “Internacional”. Nesse ponto, não há quem o absolva. Foi Marx, acusam, ao inventar o negregado conceito de “ditadura do proletariado”, que inspirou o “genocídio atroz causado por Lenine e Staline com as suas experimentações so­ciais” e os que depois lhes seguiram as pisadas noutras partes do mundo. Foi o determinismo histórico marxista que criou um clima propício ao totalitarismo, ao fanatismo e ao “amoralismo” dos seus seguidores, ao fazer-lhes crer que podem rejeitar os valores socialmente aceites e permitir-se qualquer violência em nome da razão de classe e da edificação da “sociedade do futuro”. Sem a justificação teórica fornecida por Marx, alguma vez Lenine teria ousado derrubar a jovem república democrática russa e instaurar o seu tresloucado “po­der dos sovietes”?

Tirando os fiéis do PC, que ainda esperam piamente ver o “socialismo” renascer um destes dias dos escombros, em plena Praça Vermelha, a noção geral é de que fomos vítimas dum logro gigantesco. “Andámos todos estes anos atrás duma mira­gem”. E por culpa do Velho, em última análise. “Marx errou” porque as revoluções conduzidas pelos comunistas acabaram na arregimentação, nas depurações e no medo logo, “a ditadura do proletariado é totalitária”. “Marx errou” porque a expropriação da burguesia conduziu à ineficácia económica e à estagnação logo, “o socialismo é um desvio sem saída”.

Porquê então correm alguns a repescá-lo, tão pouco tempo depois de o terem lançado à valeta? É que o tombo foi brutal, desde o repicar dos sinos pela “nova era de liberdade” até às sujas fainas actuais da “construção duma economia com­petitiva”. Os eufóricos democratas que em 89 saudaram a “morte do comunismo”, prestaram homenagem aos valores da democracia ianque, reabilitaram toda a escumalha reaccionária e cantaram hinos à livre iniciativa, descobrem que abriram as portas do inferno e buscam no marxismo uma barreira protectora.

Não é preciso ir ao Terceiro Mundo agonizante sob os “pla­nos de ajustamento estrutural” nem sequer ao Leste, lançado no caos pela “libertação”. Aqui, nas metrópoles do capital, a devastadora ofensiva neoliberal da finança desmantela, sem olhar a consequências, todos os equilíbrios sociais longamente arquitectados: milhões são despejados no desemprego defini­tivo, conquistas julgadas inamovíveis são riscadas, generaliza-se o trabalho precário, cresce a pauperização dos “excluídos”, enriquecem em ritmo vertiginoso legiões de aventureiros e burlões, dissolve-se a máscara de isenção do poder estatal, re­vela-se em pleno a farsa das instituições representativas, serve-se bestificação em massa ao domicílio.

Os tolos que se embeveciam com as maravilhas da era das comunicações e da automação, do consumismo e da sociedade “pós-moderna”, dando como certa a dissolução dos antago­nismos de classe no octano das classes médias, descobrem aturdidos que, apesar das suas mutações, o sistema repousa como há cem anos sobre a extorsão máxima de mais-valia. O capitalismo em putrefacção exibe a sua tenebrosa maquinaria interna, com tanto menos cerimónia quanto agora já não tem que se preocupar com os “cantos de sereia” do rival do Leste. Um bom emblema dos “novos tempos”: a Inglaterra mandou para casa milhares de mineiros, para passar a comprar carvão colombiano extraído por crianças fica mais em conta…

A mundialização do Capital não produz, ao contrário do que supuseram os incuráveis optimistas de serviço, uma tendên­cia igualizadora mas o extremar dos abismos entre as metró­poles do capital e as zonas periféricas, dentro de cada país, de cada cidade, de cada empresa. Não traz o fim das confrontações e do “totalitarismo” mas a sua exacerbação.

Por isso, Marx, mesmo “desmentido pela história”, faz falta outra vez. Chiapas veio avisar os distraídos de que o fantasma da revolução se recusa a sair da cena. Os indefectíveis arautos da “dignidade humana”, que ainda há dois anos acolhiam com chacotas as queixas “miserabilistas” dos pobres, redescobrem a compaixão pelos “desfavorecidos”. Só imbecis sem qualquer tacto político insistem em cantar louvores ao livre jogo do mercado.

A “reabilitação” de Marx desempenha para o reformis­mo uma função dupla: tocar o sinal de alarme para a burguesia no poder, fazendo-lhe entrever as penas do inferno se não moderar o seu apetite insaciável; e oferecer à frustração indi­gnada das massas uma válvula de segurança moralizante. Marx é convocado como papão para uns, consolador para outros uma espécie de criado para todo o serviço.

Seria preciso que o Velho se prestasse a esse papel, o que não é o caso. Aquilo a que os tacanhos professores e publicistas burgueses chamam de “messianismo” e “voluntarismo” de Marx é justamente o miolo da sua teoria. No marxismo não se pode separar uma parte científica a crítica da economia capitalista de outra parte “subjectiva” a teoria da revolução proletária; elas formam um todo, por mais que os professores teimem em dissociá-las. O Marx investigador do processo de produção capitalista é inseparável do Marx do Manifesto Comunista. Ao descobrir como o Capital avassala toda a sociedade, remodela as classes e transforma cada indivíduo em agente da sua valo­rização, ele mostrou que a dinâmica do sistema conduz neces­sariamente a uma explosão das forças produtivas mas também ao extremar dos antagonismos, ao confronto proletariado-burguesia e à revolução.

Compreender os mecanismos do sistema capitalista (o que não é o caso dos académicos “marxistas”) é sair do universo de classe porque atravessam as diversas classes? Não será melhor reconhecer no visionarismo de Marx as marcas duma fase infantil do capitalismo?

Esquecem os objectores que a análise do processo capita­lista feita por Marx diz respeito às leis gerais do sistema e mantêm validade enquanto este não for superado. Se o capita­lismo, na sua corrida incessante para substituir o trabalho vivo por trabalho morto, para obter o preço mais baixo por unidade de produto, se revolucionariza continuamente, e dá novas configurações ao conflito proletariado-burguesia, ele não deixa de se mover em torno do seu eixo imutável – a acumu­lação do capital – e de caminhar para o seu desenlace.

Marx desactualizado? Na realidade, com todos os conhe­cimentos modernos, é-nos mais difícil, hoje, abarcar as leis gerais do sistema do que foi a Marx. Se ele pôde, há século e meio, divisar com lucidez genial os contornos da sociedade sem classes para além do capitalismo, isso deveu-se aos vastos horizontes que rasgava essa era de mudança, quando a nova ordem social emergia cheia de dinamismo sobre os escombros do mundo feudal. Hoje, a mudança e inovação tecnológicas vertiginosas ocorrem sobre um fundo de relações sociais blo­queadas e apodrecidas pela tirania do capital, quando este se afunda na degenerescência especulativa e quando a ausência de convulsões revolucionárias mais dificulta a inteligência dos processos.

O triunfo e a decomposição do capitalismo, ao atingirem a escala planetária, mergulham nas trevas da sua agonia todos os estratos da sociedade, contagiam-nos com a sua cegueira. Sob a condescendência dos argumentos de “modernidade” esconde-se uma tremenda regressão do pensamento crítico em matéria social. E não é de esperar uma mudança radical enquan­to o processo revolucionário não irromper por alguma fenda na muralha da segurança imperialista. Nenhuma visão objectiva é possível, hoje como no passado, se não for em ruptura com a burguesia, em identificação com as vítimas do Capital.

Por nós, não nos pesa o nome de marxistas, isto é, de comunistas. Não sofremos do complexo dos que ficaram soter­rados sob os escombros do “socialismo real” e agora tentam fazer perdoar as heresias passadas. Não somos réus perante o tribunal burguês. Estamo-nos marimbando para o juízo dos ideólogos de serviço. Não temos nada em comum com os “comunistas” reciclados que trabalham no duro, engolindo humilhações e insultos para ganharem direito à fardeta de mordomos da democracia burguesa.

Sabemos que tudo está por fazer na busca das vias da revolução proletária, muito mais distante do que supunham Marx ou Lenine. O caminho para a frente, que a eles parecia curto e linear, vai-se desdobrando, a cada curva, em interro­gações inesperadas. Como coesionar e dar identidade revo­lucionária ao proletariado no mar das novas diferenciações de classe? Como paralisar a instabilidade da pequena burguesia? Como construir o partido dos comunistas de modo a não ser assimilado pelo sistema? Como favorecer o máximo potencial das explosões revolucionárias no Terceiro Mundo? Como ani­quilar a máquina terrorista da burguesia? Como dar existência à ditadura do proletariado, à democracia socialista, de que até hoje só conhecemos breves esboços?

A nossa incapacidade actual para responder a estas questões não nos assusta. Mesmo não sabendo quando e por onde abrirá caminho uma nova vaga de revoluções, algumas constatações damos como definitivamente adquiridas: as novas tecnologias, ampliando desmesuradamente o poder das multinacionais, levam as contradições sociais à exasperação; os duelos plane­tários pela conquista dos mercados e pelo lucro máximo desencadeiam a pilhagem e a bestialidade sem freio da burguesia, tornando o capitalismo insuportável para a esma­gadora maioria da humanidade; a criação dos grandes espaços imperialistas, necessária para a rentabilização dos capitais, abre ao movimento operário uma nova era de internacionalismo muito mais vasta do que a do passado; os conflitos antagónicos gerados pelo capitalismo não tendem a esbater-se ou a dispersar-se; pelo contrário, concentram-se e polarizam-se na grande contradição mundial proletariado-burguesia.

É tempo perdido, pois, chorar ou aclamar a morte do comunismo. Enquanto no horizonte se perfilar a necessidade do derrubamento violento do sistema, o comunismo continua vivo, por mais certidões de óbito que lhe passem.

Política Operária nº 49, Fev-Mar 1995

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