O anticavaquismo em 94

Francisco Martins Rodrigues

Na ausência duma força social aglutinadora e dum objectivo político definido, a oposição a Cavaco poderá aportar a estranhas praias.

Não foi fácil para o governo o ano que agora finda: agitação estudantil um pouco por todo o país, protestos de agricultores e pes­cadores, a espectacular “revolta” da Ponte, acções locais contra a degradação do ambien­te – são sinais certos dum mal-estar que vai alastrando a vastas camadas da população, à medida que se quebra o encanto da “eficá­cia” cavaquista e vai fugindo à nossa frente a tão prometida “retoma”; desencanto que se ex­primiu também na abstenção-recorde nas elei­ções do Parlamento Europeu, que nem por ser silenciosa deixou de constituir um sério aviso à classe política.

Salta aos olhos nestes movimentos a sua tendência para se desvincularem dos parti­dos. Em parte, porque estes, envolvidos na intriga e na corrupção, têm perdido a capaci­dade de mobilização e só acordam quando as lutas estão na rua; mas também porque a agitação tem uma carga de desconfiança es­pontânea contra “os chulos dos políticos”. Foi evidente, na “guerra” da ponte, o retrai­mento e a debandada, logo que os partidos oposicionistas, e particularmente o PS, tenta­ram capitalizar o protesto.

0 segundo aspecto marcante dos movi­mentos do ano é a fraca participação operá­ria, o que pode parecer surpreendente, pois se a pequena burguesia e o semiproletariado têm motivos para se alarmar com o desemprego e a insegurança, muitos mais têm os proletá­rios. Acontece que as acções operárias tive­ram escassa repercussão devido à espécie de pacto de silêncio adoptado pela comunicação social em tudo o que se refere a questões la­borais, mas foram efectivamente restritas, lo­calizadas, apagadas, defensivas, ao contrário do que afirmam o PCP e a CGTP. A hiberna­ção do movimento operário, resultante das derrotas políticas que se sabem e duma pro­funda reestruturação, é por enquanto um facto.

Entramos assim em 95 com uma oposição anticavaquista em crescimento, dominada por uma insatisfação confusa, vasta, mas sem uma força social aglutinadora. Em princípio, isto seria favorável ao tipo de demagogia “popular e republicana” que o PS tão bem praticou noutras alturas. Mas é preciso ter em conta que as classes médias, que dão o tom ao movimento, são hostis a qualquer suspeita de populismo. Querem o “desenvolvimentis- mo” desde que lhes garanta um lugar ao sol. E nesse plano, por mais que Guterres se des­dobre em críticas eloquentes à governação cavaquista, ele não consegue criar a ilusão sequer duma alternativa. Todos sentem que, em termos de política “europeia”, “moderna”, dos dois, o PSD é o original, e o PS apenas a cópia, pálida e pouco convincente (inclusive para os comissários europeus).

Nestas condições, uma vitória do PS, apoiado ou não no PC, será uma mudança do pessoal político, com muita demagogia a cobrir a continuidade. Também não se pode excluir a hipótese de, ao longo do próximo ano, o governo conseguir, com todo o género de manobras e subornos em que se tornou exímio, digerir esta oposição, instável por natureza, e conseguir nova vitória para o PSD em Outubro. Ou, se a tarefa exceder as capacidades do nosso desgastado “mago das finanças”, poderíamos ver emergir, de dentro do PSD e do CDS, uma outra AD, a nova direita que Manuel Monteiro não tem sido capaz de dar à luz. Teríamos então em 95 “um novo governo e uma nova política”, mas duma qualidade bem diferente da que o PCP não se cansa de pedir.

Resumindo: se as fábricas não surgirem em cena, fazendo das fraquezas forças, a actual onda oposicionista pode acabar da pior maneira.

Política Operária nº 47, Nov-Dez 1994

 

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