Invasão do Haiti a pensar em Cuba

Francisco Martins Rodrigues

O carácter “ diferente” da operação Haiti parece indiscutível ao cidadão comum: desta vez trata-se de afastar um ditador sanguinário para repor no poder um democrata livremente eleito. Mas as aparências iludem…

O desembarque dos marines para expulsar a junta de militares-gorilas que há três anos ater­roriza o Haiti aparece a muitos como uma louvável autocrítica da administração Clinton em relação ao passado apoio dado aos golpis­tas. Se há um reparo a fazer, di­zem, seria à demora de Clinton em passar das palavras aos actos.

Ora, o Departamento de Esta do só promoveu o regresso do padre Jean-Bertrand Aristide depois de se assegurar da sua obediência incondicional. Personagem fraco e irresoluto, Aristide já “apren­deu a lição” e sabe que não está au­torizado a discursos que incendeiem o “ódio de classe”. Segundo e isto é o principal -, os trabalhado­res que tentaram através da can­didatura de Aristide, instaurar as liberdades democráticas no país já foram convenientemente “desbas­tados” pela repressão dos milita­res (três a cinco mil mortos nos úl­timos três anos). Se, apesar de tudo, a população tentar aprovei­tar a invasão para aniquilar os reaccionários, os marines lá estão para impedir os “excessos”. Foi o que comunicou desde logo, com cínica crueza, o secretário norte-americano da Defesa, W. Perry: se houver distúrbios civis e mo­tins, os marines serão forçados a reprimi-los a fim de evitar a desor­dem. A operação visa pois mais o povo do que o ditador Cédras.

Só mesmo nesta época há quem acredite que a democracia se pode restabelecer através de uma invasão. Se os EUA tivessem algum interesse na consolidação da democracia no Haiti, ajuda­riam, do ponto de vista político, financeiro, militar, a resistência do próprio povo haitiano hipó­tese tão absurda que só enuncia-la equivale a pô-la de lado. A verda­de é que o fim do embargo e o retor­no a uma “democracia moderada e responsável” é agora vantajoso pa­ra os negócios ianques, tal como no Chile depois de Pinochet ter cum­prido a sua tarefa de carniceiro.

“O DITADOR QUE SE SEGUE”

Mas a “normalização” do Haiti visa um outro alvo muito mais importante: Cuba. Desde que a Rússia capitulou e deixou de sus­tentar a ilha “socialista”, a “recu­peração” de Cuba tornou-se para os estrategos norte-americanos uma tarefa na ordem do dia. Se­gundo um estudo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacio­nais dos EUA, divulgado em 22 de Dezembro último, Washington deveria enveredar por «uma di­plomacia mais activa, utilizando a cenoura e o cacete», a fim de for­çar o regime de Fidel Castro a acei­tar eleições com participação dos exilados em Miami, numa mas­carada “democrática” semelhante à que levou à liquidação do regi­me sandinista na Nicarágua.

Com este objectivo, acelerou-se o estrangulamento económico da ilha com o agravamento do embargo (lei «Torricelli»), o qual já levou à paralisação de 80% da capacidade industrial do país por falta de combustível. A vida torna-se insuportável devido ao ra­cionamento de produtos essen­ciais. As tentativas de Fidel Castro para conseguir apoios ex­ternos, inclusive à custa de ce­dências de toda a ordem, se lhe granjearam algumas divisas, custaram-lhe a perda de apoio po­pular e novos passos na decom­posição do regime.

E se havia esperanças de conse­guir simpatias no exterior que for­çassem ao levantamento do cerco ianque, a prova está feita. Com ra­ras excepções, governos, parlamen­tos, intelectuais, acompanham com frieza a agonia do regime. O feroz consenso internacional é: “Fidel está a mais”. Castro é culpa­do por “teimar em continuar no socialismo, sem querer saber das privações económicas a que su­jeita o seu povo”; ou seja, por desobedecer aos EUA.

A esta hora, Fidel já deve ter percebido que a vaga de “balseros”, em vez de encostar Clinton à parede e forçá-lo a negociar e a fazer algumas concessões, funcio­nou ao contrário. O saldo da cri­se foi a concentração em Guan­tánamo, no próprio território de Cuba, de dezenas de milha­res de cubanos desafectos ao re­gime. Existem agora todas as condições para a CIA organizar uma provocação, dando lugar a incidentes sangrentos que lhe forneçam o pretexto para mais uma intervenção “humani­tária

A “solução final do problema cubano” poderá arrastar-se ainda por algum tempo e tomar uma ou outra forma. Mas o desenlace será o estabelecimento dum regime antipopular de capitalismo selvagem, aberto ao investimento america­no. É esse o único “ideal” ameri­cano em jogo.

 Política Operária nº 46, Set-Out 1994

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