A batalha de 28 de Agosto

Francisco Martins Rodrigues

Verdadeiro abalo nos espíritos causou a incursão dum grupo de jovens negros pelas ruas de Alhos Vedros, de caras tapadas, armados de paus e facas. Resumiu-se tudo a uns vidros de carros partidos, mas foram muitos os que proclamaram, apavorados, que “se a GNR não nos protege vamos comprar armas”. Claro que não lhes interessava um detalhe insignificante: na véspera, jovens negros tinham sido agredidos por brancos.

Atento, Cavaco arranjou logo um oportuno relatório “secreto” do SIS sobre imaginários gangs negros e o ministro das polícias anunciou medidas “em defesa da segurança dos cidadãos”. Assim se matam três coelhos duma cajadada: mostra-se serviço à Comunidade quanto aos acordos de Schengen, canalizam-se as angústias do desemprego para um alvo útil e põem-se os cidadãos a aplaudir o reforço das polícias.

Porque esse é o problema: o homem da rua começa a entrar na paranóia da desconfiança racial. Perto de Gaia, habitantes que nunca foram capazes de se organizar para coisa nenhuma, criaram uma milícia para “meter na ordem” os ciganos. No comboio, relatam-se histórias de estarrecer sobre os assaltos dos pretos (não dos brancos). E nas lojas, as vizinhas já se afoitam a comentar, com honesta reprovação, o consumo de droga dos “escuros” do quarto andar.

Que parecidos estamos a ficar com os franceses ou os alemães! Esta triste constatação inspirou amargas meditações existenciais a mais de um intelectual: “Será que afinal os portugueses são racistas? Que é feito do nosso espírito de convívio racial, que causava a admiração do mundo?”

0 problema é que a celebrada tolerância rácica dos portugueses assentava num mal entendido. Os portugueses sempre simpatizaram com os negros – quando obedientes. 0 cidadão comum começa as suas conversas sobre o assunto, assegurando sempre: “Eu cá não sou racista, mas…”. Quer ele dizer na sua que não tem objecções à presença dos pretos desde que se portem na linha – trabalhem bem por pouco dinheiro, não venham morar para o nosso prédio, não falem a sua língua em voz alta em lugares públicos, vistam com decência, apreciem o bacalhau com batatas, saibam discutir a bola, e sobretudo, mostrem muito respeitinho.

Ora, se até há meia dúzia de anos, o “respeitinho” não era difícil de impor, porque os africanos entre nós eram tão poucos que nem se podiam afirmar como etnia, agora eles começam a ser muitos. E a falar livremente. E aí o homem da rua sente-se inquieto e ameaçado.

*

Faz-me lembrar o tempo em que andei pelas prisões do Salazar. Aparecia às vezes por excepção um guarda “bom”: gostava de ser humano com os presos, facilitava pequenas coisas, tratava-nos com educação. Isto, para nós. era uma raridade a preservar. Tratávamo- lo nas palminhas. Mas sem esquecer que um guarda é sempre um agente da opressão. Se por acaso entrávamos num protesto colectivo e desobedecíamos às ordens, aí o guarda “bom” era dos primeiros a puxar do cassetete e a malhar nos às cegas nos costados. Reacção compreensível: não podia levar à paciência que a sua bondade para com o preso, ser inferior, tivesse como paga, o abuso.

O que tem isto a ver com o caso? Tem que o português médio começa a descobrir-se, face aos trabalhadores imigrantes, numa relação de superior para inferiores. Os cidadãos somos nós; quem carrega nas obras, varre as ruas, vive de restos e mora em barracas são eles. Daí os fantasmas do medo e do desprezo, típicos das comunidades que submetem e rebaixam outras. Ainda mais quando esses outros são antigos servos coloniais que nos rejeitaram e agora se humilham a pedir-nos trabalho. O problema é este; o resto, a cor da pele, é só folclore.

“Vós, portugueses, não sois racistas”, declarou o rei Hassan II de Marrocos, em vésperas de abalar para a terra lusitana. Vindo de quem vem, o atestado tem um som lúgubre.

Política Operária nº 31 Set-Out 1993

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