Rússia em trabalho de parto

Francisco Martins Rodrigues

Como general prudente, Boris leltsin convocou eleições depois de abater os adversários a tiro. Mas mesmo que obtenha um parlamento obediente aos seus poderes autocráticos, ainda falta muito para saber se conseguirá consolidar a sua posição de ditador.

Escrevemos no fecho da nossa edição ante­rior, quando os grandes órgãos de informação se enfeitavam com parangonas, que a pretensa vitória da democracia sobre o “golpe comuno-fascista” não passava duma fraude, de resto espelhada na apatia da população moscovita. À distância de dois meses, é o ajuste de contas entre duas facções anti- populares o que mais ressalta dos acontecimentos. Tanto Rutskoi como leltsin agitavam bandeiras que nada tinham a ver com os seus objectivos reais.

Dos dois, há que reconhecê-lo, o papel de longe mais odioso coube ao presidente, ao mandar a tropa massacrar a multidão cercada no parlamento. Como escreveu o historiador Roy Medvedev, “o assalto à Casa Branca foi uma coisa feroz e cri­minosa”. À sombra do estado de sítio, que ilegalizou partidos e jornais e deu cobertura a centenas de prisões, ainda hoje se oculta o número real de vítimas.

Será de estranhar que as simpatias do Ocidente imperialista tenham ido ainda desta vez para Boris leltsin? Com um argumento de peso: leltsin não teria violado a legalidade porque o parlamento, vindo do regime anterior, não era representativo. Mas nesse caso, porque é que só se descobriu isso quando os deputados deixaram de se dobrar à vontade do presidente? Porque não esperar que através de eleições livres a sua composição fosse alterada?

Na realidade, o que houve, desta vez como há dois anos, foi um medir de forças entre os dois núcleos que disputam a chefia e os ritmos da transição capitalista na Rússia. Devido à des­proporção de forças, a resistência dos adversários de leltsin levou-os a meterem-se na boca do lobo; ajudaram ao avanço da concentração do poder.

Os meios imperialistas têm motivo para se felicitar: a prova de força da dissolução parlamentar e da suspensão da Constituição permitiu desar­ticular os “conservadores”. Pode agora encarar-se a passagem a novas etapas na construção duma sociedade “livre e pluralista”.

Apesar do apetite, contudo, os grupos financeiros retraem-se. Compreende-se. Não têm pressa em investir num país em tumulto, numa situação de vazio jurídico, de insegurança e de ineficácia, com máfias rivais extorquindo luvas e comissões por todo o lado. Esperam para ver.

Com o fim de aliciar os homens de negócios ocidentais, os serviços de leltsin divulgam números estonteantes sobre os milhares de empresas que têm sido privatizadas. Na verdade, desde o golpe presidencial de 21 de Setembro, uma enxurrada de decretos institui a privatização de empresas, a distribuição de terra, as facilidades ao investimento de capitais estrangeiros. Resta saber a eficácia destes decretos e a fiabilidade dos números. Para

já, a grande novidade é a proliferação do pequeno comércio, legal ou marginal, que muitas vezes se confunde com o gangsterismo.

A reconversão está emperrada. E por uma razão simples: falta capital à jovem burguesia russa. Ainda não houve tempo para transferir para os bolsos de particulares os bens do Estado. É aí, nessa transferência pouco espectacular, que se está a dar o verdadeiro trabalho de parto da nova sociedade.

O despertar do espírito nacional nas repú­blicas é um dos campos privilegiados para a acu­mulação. 0 nacionalismo é a receita ideal para as camarilhas governantes regionais se legitima­rem após o desmoronamento do Estado centra­lizado “socialista”. Permite-lhes jogar com os ressentimentos das populações desamparadas e ir fazendo mão baixa sobre os bens que eram propriedade da União. Em nome da independência passaram a arrecadar impostos, criam empregos para recrutar clientelas, cobram comissões, abo­canham empresas, vendem bens ao desbarato. A corrida febril ao maná gerou mesmo na Geórgia a luta sangrenta entre dois clãs rivais.

É a pilhagem pura e simples, detonada pela decomposição do aparelho estatal centralizado. E, afinal, a época heróica da acumulação primitiva do capital, roubado ao Estado por toda a sorte de aventureiros e ladrões, antigos aparatchiks “comunistas” reconvertidos aos valores da livre iniciativa. Caos? Nem por isso. Os actuais gang­sters, uma vez amealhado o seu pecúlio, vão transformar-se em respeitáveis proprietários, defensores da ordem e da legalidade. Assim nasceu a burguesia, em todos os tempos, em todas as latitudes.

Cavaco Silva justificou o seu apoio ao massacrador de Moscovo papagueando o argumento americano: leltsin defende o sistema da livre empresa e da democracia pluralista. Mentira descarada. Todos sabem que se há um lugar onde a economia de mercado não casa bem com a democracia pluralista, esse lugar é a Rússia. Neste período tumultuoso de acumulação capitalista, e ainda para mais com o aparelho de Estado desintegrado, aquilo de que o capitalismo russo precisa agora como pão para a boca é dum líder autoritário, que reconstitua as engrenagens do Estado, acelere a formação da nova burguesia privada e inspire confiança aos meios financeiros internacionais. Por isso, tudo corre bem a leltsin. Ficará ele para a história como o messias da “ci­vilização ocidental cristã” na nova Rússia? Para já, apadrinhamento americano não lhe falta. Faça pela vida e ver-se-á. Se escorregar, já sabe, será posto à margem com a mesma sem-cerimónia com que foi cuspido o ilustre Gorbatchov.

Política Operária nº42, Nov-Dez 1993

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