Manobrismo não adianta

EM BUSCA DA ESQUERDA


Francisco Martins Rodrigues

Censuras imerecidas

Eloquentes as severas reflexões de Francisco Louçã, no Combate de Fevereiro, a propósito das promis­cuidades de Barros Moura com o PS. Chocou-se Louçã pelo facto de a Plata­forma de Esquerda, que “aparen­temente, procurava definir um caminho autónomo e um espaço político próprio”, se tivesse deixado seduzir tão voluvelmente pelos socialistas.

Passadas poucas semanas, as razões de crítica agravaram-se, quando Barros Moura, em estilo bem stalinista, assinou um acordo eleito­ral com o PS sem se dar ao trabalho de consultar as suas bases. Logo a seguir, José Luís Judas, cujo calvário de “comunista convicto, vítima dos burocratas” encheu durante meses as páginas dos jornais, agarrou com ambas as mãos a oferta da candi­datura socialista à Câmara de Cascais.

Fim inglório para um projecto esperançoso ou simples esclare­cimento dum mal entendido? O que está eirado, quanto a nós, é a própria expectativa do PSR nos dissidentes do PCP. Amarrado a velhos reflexos trotskistas, Louçã julga descobrir um militante do “socialismo revolucio­nário” em cada elemento que sai do PCP batendo com a porta e de­nunciando o stalinismo. Não percebe que o intervalo entre PC e PS é apenas um corredor de passagem. A verdade é que a Plataforma nunca procurou definir “um caminho autónomo” nem “um espaço político próprio”. Estava na cara que era uma dissidência em viagem para a social-democracia. É assim tão difícil distinguir a política real das flores?

Vocação de charneira

No começo de Maio tornou-se público o desacordo de um grupo de membros da Plataforma de Esquerda com a aliança eleitoral com o PS. Acham que se deveria ter privilegiado a colaboração com “pequenas forças que na esquerda vêm mantendo um caminho independente”, – alusão ao MDP, ao PSR, aos ecologistas, talvez à UDP – e é nesse sentido que se propõem trabalhar. Para marcar o seu desagrado, recusaram a reeleição para a coordenadora (a chefia da organização). Sobressalto de esquerda na Plataforma? Nem por isso. O resul­tado prático vai ser provavelmente este: as personalidades de peso da PE (Barros Moura, Judas, etc.) en­carregam-se de negociar as alianças com o PS; os discordantes farão a aproximação à “esquerda alternativa”; em conjunto, funcionarão como char­neira entre o PS e a “pequena es­querda”. Se o esquema funcionar, quem capi­talizará esta flexibi­lidade, em última análise, será o PS, que poderá atrelar ao seu carro os pequenos grupos sem ter que os reconhecer sequer.

Sob uma asa protectora

Com a crise histórica da esquerda, encontram-se hoje a cada passo, sobretudo na província, militantes da UDP a trabalhar com o PC. Reco­nheçamos que nem sempre o fazem por ambições de carreira política; para alguns é a única maneira de con­tinuar a intervir, ao nível das autarquias, sindicatos, actividades culturais, associativas, etc. Mas esse reflexo insere-se numa grande vi­ragem da antiga UDP “democrática e popular”. Desde que Eduardo Pires descobriu que o PCP teria mudado de natureza depois do fim da URSS, as possibilidades de cooperação não deixaram de aumentar, e com elas a conversão dos activistas da UDP, sobretudo dos sindicalistas, à men­talidade reformista do PCP.

Naturalmente, os dirigentes e activistas da UDP não pensam, na maioria dos casos, passar-se para o PC; esperam sobreviver sob esta asa protectora e eventualmente conquis­tar adeptos no caso de o partido de Álvaro Cunhal vir a desintegrar-se. Mostrando mesmo uma apreciável “maturidade táctica”, jogam ora na aliança com o PS, ora com o PC, con­forme os casos, usando o acordo com um como chantagem para arrancar concessões ao outro. E assim que a UDP tem conseguido posições na CGTP, na Câmara de Lisboa e em di­versas iniciativas unitárias. Para não lhe ficar atrás, o PSR tem seguido o exemplo. Para alguma coisa há-de ser­vir a crise da esquerda.

Unidade sindical?

Acumulam-se os sinais de que a saída de José Luís Judas da cúpula da CGTP se inseriu numa vasta manobra cujo fecho seria a fusão das duas centrais. A homenagem de sindi­calistas da UGT e CGTP a Judas e a proposta por ele aí apresentada para a realização de “encontros de reflexão sindical” que “propiciem um melhor conhecimento mútuo” parecem indicar que a candidatura à Câmara de Cascais é só uma etapa. E se repararmos nos votos de António Barreto (na sua habitual crónica no Público) pela “convergência ou fusão ulterior” das duas centrais, a qual “marcaria um dos mais importantes factos novos na vida pública por­tuguesa” – mais nos convenceremos de que têm algum fundamento os rumores de que estaria em curso uma operação visando a fusão das duas centrais sob a tutela dos socialistas.

O velho slogan “CGTP unidade sindical” há tantos anos cantado nas manifestações poderia acabar por se realizar pelo avesso, com a tendência “comunista” envolvida pelos so­cialistas. Ninguém nas estruturas da Intersindical se vai pronunciar contra?

Donde vimos? Para onde vamos?

Novidade que pode indicar que algo fermenta na esquerda – antigos militantes da UDP e do PC(R), há muito afastados da actividade, come­çaram a encontrar-se para reflectir em conjunto sobre as voltas que o país e o mundo têm levado, ou simplesmente para restabelecer contacto e conviver. Ao que sabemos, trata-se de encontros exploratório*!, não sujeitos a qualquer programa. Mesmo assim, receamos que os frutos sejam escassos se os intervenientes não definirem o seu objectivo em linhas gerais. E para isso não há como começar por fazer o levantamento das razões que os levaram a sair e que foram diferentes de caso para caso, por vezes mesmo com motivos opos­tos. Ou será que ainda prevalecem os velhos reflexos da unidade antes da demarcação?

Grandes planos

Num manifesto recente, o Movimento para o Socialismo, grupo surgido de uma cisão recente da FER e que anuncia a publicação da revista Esquerda Alternativa, defende como caminho para derrotar a política do governo a elaboração de um “plano económico dos trabalhadores”, a aprovar num “verdadeiro congresso de delegados da CGTP eleitos em plenários democráticos em cada lo­cal de trabalho, aberto às organizações estudantis e de agricultores, às associações de classe das forças ar­madas e militarizadas, e a todas as organizações populares”.

Nada teríamos a objectar à sugestão se ela tivesse um mínimo de viabilidade como palavra-de-ordem de agitação. Não é o caso, como todos sabem. Para que serve então esta arrojada proposta? Só se for uma demonstração de boa von­tade dirigida a alguns activistas, para cativar simpatias. Mas não é com isso que se ajuda a esquerda a tomar ru­mo, parece-nos.

Política Operária nº 40, Mai-Jun 1993

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