PC(R): Perestroica e hara-kiri

Francisco Martins Rodrigues

Quando o PC(R) anunciou um congresso para Março, para modificar o programa e os estatutos, houve quem desconfiasse. Em fins de Janeiro, talvez para poupar as expectativas, a direcção veio anunciar que se trata de mudar de nome e de sigla, cancelar a inscrição no re­gisto partidário e passar a associação política — concretamente, liquidar o partido. Não podemos excluir que a dissolução do partido tenha sido uma das condições postas pelo PCP para aceitar a UDP na CDU.

‘Extremismo” moderado

Não nos surpreende este suicídio. Abandonámos o PC(R), em 1984, após um debate esgotante mas elucidativo que não nos deixou dúvidas sobre o que viria a acontecer. De facto, o partido, que se constituíra em Dezembro de 1975 como defensor do marxismo-leninismo e da revolução, começava a revelar uma doença incurável, que só a animação do movimento popular tinha mantido oculta nos primeiros anos: a doença do centrismo.

Na acção diária, pretendia ser um exemplo de ‘radicalização das lutas”; mas na linha política ficava-se por um tímido meio-termo em todos os terrenos: caminho da revolução em Portugal, causas da degeneração da

URSS e do movimento comunista, programa da ditadura do proletariado, construção do partido. A linha geral do partido tendia para opor às taras do revisionismo as taras do stalinismo — era um beco sem saída.

Atitude que se compreende se tivermos em conta o carácter invulgarmente pacífico e moderado da crise de 74-75, que fez convergir para dentro do PC(R) uma amálgama de tendências revolucionárias e de radicalismos exasperados que em breve iriam revelar o seu fundo reformista.

O naufrágio

Quando a China maoísta entrou em bancarrota e as ilusões num “novo 25 de Abril do povo” se esfumaram, o “bolchevismo” fanfarrão do PC(R) veio abaixo.

Assim, depois de ter chegado a fazer sombra pela esquerda ao aparelho do PCP nos anos iniciais, a organização começou a sofrer a pressão crescente da sua ala direita (duas cisões, em 1979 e 1982), aterrada com o perigo de isolamento, e acabou por ceder aos ventos dominantes.

Para fazer esquecer a sua imagem “vermelha” dos primeiros anos e tentar ser aceite pela opinião democrática burguesa, o PC(R) saneou a sua ala esquerda no congresso de 1983 e, livre de resistências internas, pôs-se em busca de propostas políticas que lhe ganhassem mais audiência. Num período de recuo como o que vivemos, a “política para milhões” foi o passaporte certo para a capitulação reformista.

A defesa da “unidade dos democratas contra a direita” traduziu-se no abandono de todas as posições anticapitalistas e em ofertas de mediação entre o PCP e o PS, entre a CGTP e a UGT. Ao descrédito assim obtido somou-se o descrédito de ter continuado a apoiar até à última o “socialismo” albanês quando este já estava transformado numa farsa trágica.

Bóia salva-vidas

Resta a UDP. O plano dos dirigentes do partido era, já de há muito, mudar-se com armas e bagagens para a UDP, onde viam possibilidades de fazer o seu “trabalho amplo”. Só que a UDP, encostada ao PCP e faltando-lhe a âncora do PC(R), vai perder os poucos activistas que lhe restam.

O último Bandeira Vermelha assegurava com descaramento que a UDP “conquistou” um deputado “por direito próprio”, visto que “tem acumulado forças constantes”. É uma mentira ridícula: todos sabem que o major Tomé só “conquistou” o seu lugar no parlamento depois de Eduardo Pires ter feito na imprensa declarações simpáticas sobre o “novo carácter popular e patriótico” do PCP.

A verdade crua é que a UDP pode ter ganho um deputado mas, como corrente política, acabou. Renegada a sua imagem de marca, que era o desmascaramento do falso comunismo, perde a razão de ser. Assim o entendeu uma grande parte dos antigos votantes da organização, que preferiram abster-se ou votar no PSR ou no MRPP.

Assim se verifica o alerta que demos em 84: ao tentar fundar-se numa fusão dos interesses divergentes do proletariado e da pequena burguesia, o PC(R) condenava- se à dissolução porque deixava de ter préstimo tanto para um lado como para o outro. Só lamentamos que um tão grande número de militantes tenha sido destruído nesta desgraçada experiência.

Política Operária nº 33 Jan-Fev 1991

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