As três “sensibilidades” do PCP

Francisco Martins Rodrigues

 As declarações de José Luís Judas mostram que os oposicionistas do apa­relho sindical do partido, até agora na expectativa, consideram a situação madura para uma ofensiva contra a direcção. E o caos político e ideológico dentro do partido é tão grande que no dia em que se romper o dique discipli­nar, a celebrada “unidade partidária” vai desfazer-se como um baralho de cartas.

Quanto a saber se o PCP ficará nas ‘ mãos dos “ortodoxos” ou dos “renova­dores” ou será partilhado entre ambos, é assunto que pode apaixonar os mili­tantes e decerto contará para os futu­ros jogos partidários mas não tem nada a ver com os interesses dos comu­nistas e da classe operária. Esses há muito passam longe do PCP.

INTELECTUAIS RECUPERADOS

Mais uma revoada de dissidentes (na verdade, bem menor do que espe­rava a opinião burguesa…) levantou voo depois dos acontecimentos de Moscovo, piando com indignação tar­dia contra a falta de espírito democrá­tico do PCP.

Estas crises de consciência dos inte­lectuais e quadros que de há uns a esta parte têm abandonado o partido podem ser muito sinceras mas politica­mente não valem nada. Enquanto durou a tendência de radicalização do movimento (nas décadas de 60 e 70), o PCP atraía-os porque lhes oferecia a possibilidade de praticar um progressismo não “extremista”, um “comu­nismo” que não os obrigava a cortar com a sua ideologia democrática bur­guesa e até a justificava com argumen­tos “marxistas”. Tudo isto assente sobre uma base operária compacta e tendo em fundo o colosso da URSS, o que dava um reconfortante sentimento de segurança e proporcionava vias de realização profissional.

Eram vantagens tão impressionan­tes que bem se podia fechar os olhos ao monolitismo, à esterilidade intelectual, ao sectarismo, às cambalhotas na esteira da União Soviética… Mas quando a onda começou a esvaziar-se, veio o tempo da reflexão e estes intelec­tuais descobriram que não podiam contemporizar mais com o “stalinismo”; tornou-se-lhes claro que a rea­lização gradual duma maior justiça social só podia vir da social-democracia. Uns entram para o PS, outros ficam- -lhe na orla, outros ainda avançam com audácia até ao PSD.

O corte com o “stalinismo” em nome dos valores da democracia bur­guesa sempre foi um corte pela direita; hoje, feito no momento em que se des­vanece o poderio da “grande pátria do socialismo”, é duma hipocrisia trans­parente. Independentemente das moti­vações de cada um, trata-se da passagem em tumulto do barco que se afunda, donde já não há nada a espe­rar, para o barco vizinho da social-democracia.

É caso para os felicitar; ao libertarem-se do rótulo de “comunistas” des­cobrem finalmente a sua identidade política que lhes estava oculta e desem­baraçam o movimento operário da sua presença.

CUNHAL, O “FERRENHO”

Numa coisa a opinião burguesa corrente, tanto como o homem da rua, está de acordo com Cunhal: é em consi­derar o próprio Álvaro Cunhal um comunista ferrenho que “não vira a casaca”. Mesmo desamparado por Moscovo, ele continua a reverenciar o marxismo-leninismo.

“Comunistas ferrenhos” desta estirpe estão a manifestar-se agora um pouco por todo o mundo, como mino­rias dissidentes dos ex-partidos comu­nistas, na Grécia, na Itália, em Espanha, ou mesmo mantendo o con­trolo do aparelho partidário, como é o caso de Portugal e da França.

Isto provoca alguma perplexidade. Afinal Cunhal, tão criticado pela sua fidelidade incondicional à URSS, foi capaz de romper com ela! Será que a seguia apenas por razões de princípio e que, hoje, para manter esses princípios, tem a coragem de se afastar dela?

Esta é pelo menos a opinião que agora se pode ouvir a alguns dirigentes do PS, cheios de “respeito” pela “coe­rência” de Cunhal. A causa deste res­peito não é difícil de entender. Não lhes convém nada que se forme um novo partido (sob a direcção de Judas, por exemplo), que poderia consolidar-se como um pólo socialista à esquerda do PS. Convém-lhes mais que o PCP defi­nhe e se desagregue sob a direcção de Cunhal, afugentando os militantes por pequenos contingentes, que possam ser digeridos gradualmente.

Para nós, que não fazemos cálculos desses, a “coerência” de Álvaro Cunhal é de explicação óbvia. Durante cin­quenta anos, ele edificou o PCP como um partido popular democrático de reformas, que recebia da União Sovié­tica a imagem de marca dum anticapitalismo radical que não praticava. Usando o alibi da sua amizade e fideli­dade à “pátria do socialismo”, o PCP ficava com as mãos livres para justifi­car perante os trabalhadores uma polí­tica “realista” cada vez mais moderada.

Esta dependência da URSS (não financeira como diziam inimigos vene­nosos mas política e ideológica) era tão absoluta que Cunhal teve que ir encai­xando todas as guinadas cada vez mais alarmantes vindas nos últimos anos de Moscovo. Mas no dia em que um ter­ramoto levou a URSS a renegar expli­citamente os sovietes, o socialismo, o anti-imperialismo, e que o seu valor de te e modelo se apagou. Cunhal não vê outra hipótese de sobre­vivência senão resistir nas suas trin­cheiras.

Resistência puramente verbal que já não tem nada por detrás.

Ele, que em 1974 riscou do pro­grama a “ditadura do proletariado” para não causar má impressão ao MFA, torna-se agora arauto do marxismo-leninismo; ele, que condu­ziu a luta em defesa da reforma agrária por meio de recursos aos tribunais, proclama agora o direito à revolução; ele, que transformou centenas de mili­tantes combativos em múmias, con­dena os que viram costas ao comu­nismo.

Coerência? Diríamos antes que é a tacanhez do revisionista incapaz de compreender o destino da marcha em que estava metido.

OS “REFUNDADORES”

Entre a obstinação suicida de Cunhal e a debandada dos convertidos ao PS, parece tomar forma um núcleo de militantes dispostos a encontrar uma saída “positiva” para a crise. Durante anos não quiseram precipitar-se para não se arriscar a cortar-se da base operária, o capital mais precioso do partido que muitos gostariam de receber em herança. Agora acham que chegou a hora de avançar sem se isolar.

Falam na “exaltante renovação da esquerda” e na “refundação” do par­tido. Na prática, encaram uma opera­ção de rejuvenescimento do PCP (ou da parte que puderem guardar), aban­donando o nome de “comunista”, os símbolos, a referência à ex-URSS, grande parte da linguagem classista. E asseguram que não há perigo de perder o seu espaço próprio, dada a incurável reaccionarice do PS que o coloca sem­pre bastante para a direita do eleito­rado tradicional da CDU (nisso têm razão).

Se será viável ou não este projecto de criação dum partido “socialista democrático” à esquerda do PS é ques­tão que falta ver. É muito duvidoso que, em confronto com Cunhal, diri­gentes sem tradições da clandestini­dade consigam aglutinar uma massa apreciável de militantes. Uma coisa é porém certa: o pretenso novo partido não terá nada a ver com os interesses da esquerda e da classe operária.

Os “refundadores” só poderiam confluir numa nova corrente de esquerda se rompessem com o refor­mismo “comunista” que têm praticado no PCP. Ora, nenhum deles está dis­posto a isso. Condenam o chamado “stalinismo” do PCP, o seu unanimismo asfixiante, a sua incapacidade para responder às novas situações, o seu seguidismo cego durante decénios atrás da URSS. E contra essas aberra­ções, o que propõem? Respostas mais próximas do partido socialista!

Pela nossa parte, como comunistas revolucionários, acompanharemos com atenção o processo de desagrega­ção que o PCP vai sofrer nos próximos anos mas não acreditamos na utilidade de campanhas de aliciamento junto de militantes em crise e em queda para a direita. Acreditamos nas potencialidades do nosso trabalho de propaganda comunista independente, sem conces­sões ao revisionismo nem à social- -democracia. Só sobre essa base poderão reagrupar-se militantes con­victos e poderá no futuro vir a surgir em Portugal um partido comunista digno desse nome.

 Política Operária  nº 30, Maio-Junho 1991

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