Armas à porta do cemitério não ganham perdão

Francisco Martins Rodrigues

A 10 de Maio, o rançoso folhetim da amnistia ao caso FUP/FP-25 conheceu mais um episódio rocambolesco. Desejo-sos de assinalar a chegada do Papa, alguns ex-activistas das FP-25 entregaram à polícia um pacote com armamento, num comovente sinal de boa vontade.

Um deles teria comentado, segundo o Expresso: “Temos consciência de que já fizemos tudo o que nos foi possível para viabilizar a lei da Amnistia”.

A lei da Amnistia, contudo, vai esquecer-se deles, conforme se ficou a saber dias depois; na melhor das hipóteses, os implica-dos no caso FUP serão contemplados com umas reduções de penas. Pelos vistos, Fátima já não faz milagres…

SUBMISSÃO NÃO DÁ PERDÃO

Há quem considere “incompreensível e revoltante” a exclusão do caso FUP/FP-25 da lei de Amnistia, uma vez que os envolvidos, na sua grande maioria (incluindo Otelo), têm dado provas de “reintegração na sociedade”. De facto, o percurso seguido pelos presos e ex-presos que se agrupam em torno da Comissão Pró-Amnistia Otelo e Companheiros tem descido todos os degraus da súplica, desde que se iniciaram as negociações secretas com o Estado. Negociações que já levam quatro anos e meio, segundo declarou um dirigente da organização, Francisco Custódio Marques, ao jornal Expresso de 20/4. A “batalha” tem sido conduzida com meticulosa persistência. Nenhum contacto institucional foi descurado, nenhuma garantia de bom comportamento foi esquecida, nenhum caso pessoal deixou de ser valorizado.

Mas foi por isso mesmo que a amnistia total e incondicional, única saída que interessava à esquerda, foi negada aos ex-militantes da FUP/FP-25. A táctica “inteligente” só deu promessas, adiamentos, desmoralização, divisão entre os presos, saídas a conta-gotas e o sacrifício dos “marcados” pela polícia, que vão pagar a necessidade de desforra da direita. Pior ainda, produziu o descrédito total da imagem de combatividade e intransigência que as FP-25 tinham pretendido construir.

Tudo isto previmos repetidamente nos últimos anos. Sem resultado.

CAMPANHA IMPOSSÍVEL

Temos que reconhecer que falhámos nos nossos esforços para erguer um combativo movimento popular pró-amnistia, em confronto com as autoridades e os partidos de direita. A SCR, a que demos uma colaboração activa, não conseguiu romper a barreira de má vontade surgida do próprio núcleo dos presos, ex-presos e familiares. O caminho da mobilização da opinião pública em acções de rua, diziam-nos, “não dá nada”, iria bloquear as boas vontades que se moviam ao nível das instituições.

Alguns, mais boçais, chegaram a desconfiar se não estaríamos a prejudicar deliberadamente a saída “iminente” dos presos só para colher capital político com uma campanha de rua…

Começou isto há quatro anos e, de então para cá, foram tantos os obstáculos que acabámos por ser forçados a render-nos à evidência: não se pode fazer uma campanha de esquerda pela Amnistia total e incondicional aos presos do caso FUP/FP-25 se os próprios não a desejam.

Neste momento, um pequeno núcleo de ex-presos e familiares persiste em fazer contracorrente à capitulação da maioria. Pondo a ridículo a entrega simbólica de armas de 10 de Maio, José Ramos dos Santos e Helena Carmo fizeram uma semana depois a sua entrega simbólica de armas… de plástico, frente ao palácio de Belém, afirmando na altura aos jornalistas que só aceitam uma amnistia sem compromissos.

Carta da prisão

Que há outras maneiras dos presos políticos lutarem pela liberdade, é o que mostra Abraham Serfaty, o comunista marroquino há 17 anos encarcerado, a que já aqui nos temos referido. Numa carta, escrita na prisão em 7 de Março e publicada no jornal francês Rouge de 30 do mesmo mês, Serfaty refere-se assim à campanha pela sua libertação que está a decorrer em França e noutros países:

“Não separar o meu caso dos de todos os presos políticos de Marrocos. Nunca invocar razões ‘humanitárias’ (idade, saúde, família, etc.). Não solicitar em caso nenhum perdão ao rei, I directa ou indirectamente. A minha liberdade é um direito inegociável, faz parte dum combate político pela liberdade do povo marroquino. Qualquer solicitação dirigida ao poder contribui para o reforçar e, portanto, para enfraquecer esse combate. Democratas consequentes não pedem a Botha, a Pinochet ou a Shamir a libertação dos seus presos políticos”.

Já não dizemos que os ex-combatentes do caso FUP/FP-25 adoptem uma atitude semelhante; deve parecer-lhes demasiado “extremista”. Mas será assim tão difícil entender que, ao rojarem-se de joelhos diante do poder, é a sua libertação que atrasam?

Política Operária nº 30 mai-jun 1991

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