Porque não nos manifestámos pelos curdos

Francisco Martins Rodrigues

A última fase da tenebrosa guerra do Golfo, com um milhão de curdos fugindo da repressão iraquiana e morrendo pelas montanhas, consolidou no Ocidente o campo da opinião “democrática” que considera justificada a intervenção militar conduzida pelos Estados Unidos: ainda pode duvidar-se de que Saddam é um carrasco implacável para os povos do seu país? E não são afinal os EUA e as potências europeias que, apesar do seu alegado “imperialismo”, acodem em socorro do povo curdo?

Também os que entendem a posição da esquerda neste conflito como um distanciamento igual face aos dois campos julgaram ver neste novo episódio uma comprovação das suas teses. Há assim quem pergunte porque não fomos para a rua condenar o massacre dos curdos por Saddam, da mesma forma que tínhamos ido há três meses condenar a expedição americana contra o Iraque. Se estamos perante crimes, não são dois crimes iguais?

Efectivamente, nós pensamos que os dois crimes não são iguais. O que existe é uma gigantesca operação publicitária, a coberto da qual o supergangster continua cinicamente a bradar contra os crimes do pequeno gangster, a fim de poder continuar tranquilamente os seus massacres. A equidistância é, neste caso, uma armadilha. Ainda mais quando o nosso próprio país não está de fora mas é um peão obediente do principal agressor.

UM GENOCÍDIO À ESPERA DE JULGAMENTO

Antes de sairmos para a rua a manifestar-nos a favor dos curdos e contra o Iraque (e portanto, queiramos ou não, a favor da América), seria preciso que nos esclarecessem alguns pontos. É verdade que duzentos ou trezentos mil civis iraquianos morreram sobre os escombros causados pelos mais concentrados e devastadores bombardeamentos aéreos da história e que este crime contra a humanidade, de dimensão poucas vezes igualada, está a ser silenciado deliberadamente graças à cumplicidade das grandes potências e da ONU?

É verdade que, apesar da fome, das destruições e das epidemias, o Iraque continua sob o embargo da ONU, por imposição dos Estados Unidos, quando já nada o justifica, multiplicando assim os efeitos do genocídio?

É verdade que oitenta a cem mil soldados iraquianos foram mortos (segundo cálculos ocidentais), massacrados gratuitamente quando fugiam, depois de Bagdad ter aceitado as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, e que isto foi feito apenas para “dar uma lição” memorável ao Terceiro Mundo?

Se a lista de horrores atribuídos aos soldados de Saddam no Kuwait não se confirmou na esmagadora maioria dos casos e, em contrapartida, não pára a vaga de torturas e execuções sumárias após a “libertação”, não devemos concluir que é agora que impera no Kuwait um terror desenfreado sob patrocínio americano?

Porque é que, ao contrário do que foi prometido durante a guerra, Israel não só não se dispõe a devolver as terras roubadas como, pelo contrário, acentua a intransigência, as acções de repressão e a colonização dos territórios ocupados, mantendo centenas de milhares de palestinianos amontoados como gado em campos de concentração? Não significa isto que a vitória militar americana deu um poderoso impulso ao fascismo sionista?

E se, passados quatro meses sobre o fim da guerra, não há nenhuns indícios da prometida democratização dos Estados do Golfo aliados dos EUA não é isto outra confirmação de que a vitória das “forças da democracia” foi na realidade uma vitória das forças do fascismo e do terrorismo?

Porque continuam instalados na base de Dharan, na Arábia Saudita, mais de cem mil soldados da força expedicionária americana? Devemos concluir que um dos objectivos essenciais da guerra foi estabelecer uma gigantesca placa giratória dos EUA para esmagar qualquer veleidade de resistência dos povos da região? Como se vê, o aparente bom-senso de que “tão bons são uns como os outros” serve neste caso para tranquilizar consciências, libertando-as da obrigação de denunciar os crimes monstruosos do imperialismo americano.

ESPECTÁCULO HUMANITÁRIO

Muitas das pessoas que acreditaram que a guerra tinha objectivos democráticos, encontraram-se passadas poucas semanas a censurar amargamente Bush por ele não ter levado a intervenção até ao fim, derrubando Saddam e dando a liberdade aos iraquianos e curdos. “Se o objectivo é estabelecer uma nova ordem mundial mais justa e mais democrática, então os EUA deveriam usar até ao fim o ‘direito de intervenção’ no Iraque, não se prendendo com legalismos”, protestaram.

É um bom argumento, apesar da estupidez dos que nele acreditam. De facto, o governo americano não o fez porque nunca foi esse o seu objectivo. Se animou o levantamento das forças nacionalistas curdas (assim como o dos xiitas no sul), foi com vista a precipitar um golpe de Estado militar que se julgava iminente em Bagdad. Os EUA sabiam que as hipóteses de êxito desse levantamento eram mais do que problemáticas porque o exército iraquiano não deixaria de esmagar os rebeldes para se vingar da derrota sofrida; sabiam que estavam a iludir os curdos, pois existe um acordo geral das potências para não permitir a formação dum Estado curdo; sabiam que este novo conflito, surgido após o terror dos bombardeamentos maciços de há quatro meses, iria desencadear um pânico incontrolável nas populações, com inúmeras vítimas, mas não se prenderam com considerações dessas, Passadas algumas semanas, como o golpe anti-Saddam não se verificou e o desmembramento do Iraque não convém aos interesses ocidentais, a guerrilha curda foi abandonada à sua sorte; o que proporcionou óptimas imagens de horror à televisão e permitiu fazer aparecer os exércitos ocidentais afadigados no socorro humanitário aos famintos do Terceiro Mundo, que passam o tempo a matar-se uns aos outros…

O QUE PENSAM OS CURDOS?

O jornal Worker Today que se publica em Estocolmo, divulgou na sua edição de 13 de Maio, sob o título “Curdos do Iraque, vítimas da nova ordem mundial” um artigo que nos parece de interesse referir, dado que o seu autor, Reza Moqaddam, está ligado ao Komala, movimento revolucionário de resistência armada curda. “No início da guerra do Golfo — diz o artigo —, os Estados Unidos e os seus aliados lançaram aos dirigentes curdos o aviso: ‘Não apostem no cavalo errado!’ Mas quando se viram senhores da situação, não quiseram saber desses dirigentes, e deixaram que o povo do Curdistão caísse nas mãos do exército iraquiano, derrotado, ferido e desejoso de vingança”.

“Nunca antes se tinha verificado uma correlação de forças tão favorável para o movimento curdo em relação ao governo central iraquiano. Nunca antes o movimento curdo tinha ocupado uma região tão vasta. Nunca antes ele tinha sido tão forte do ponto de vista militar, em termos numéricos (centenas de milhares) ou de armamento (artilharia, tanques e até aviões). Por outro lado, o governo iraquiano estava no ponto mais baixo por ter o seu exército dizimado e o país em situação caótica. Como foi possível obrigar as forças curdas a retirar das suas cidades?”

“Só uma coisa pode explicar tal facto: a ideia arreigada no nacionalismo curdo, de que sem o apoio imperialista não se pode vencer. Há anos que os dirigentes nacionalistas curdos procuram obter o apoio das potências imperialistas, sob o argumento de que sem essa condição a vitória é impossível. Foi devido a esta lógica que a região curda, libertada numa questão de poucos dias, não ofereceu resistência”.

“Agora, os nacionalistas curdos explicam a situação como resultado de uma ‘traição’. Como se os direitos das nações oprimidas pudessem ser restaurados na nova ordem mundial de Bush! Como se estivessem à espera que a oposição iraquiana entrasse no palácio presidencial de Bagdad na esteira do exército americano! O povo curdo do Iraque foi vítima dessas ilusões monumentais”.

Este testemunho confirma a ideia de que no actual drama do povo curdo, a responsabilidade principal cabe, uma vez mais, ao Pentágono, o mesmo que acusa sem vergonha Saddam como um demónio. Não temos dúvida em afirmá-lo, ainda que isso nos valha, da parte de alguns democratas precipitados, novas acusações de “saddamismo”. A história das ciladas dos EUA aos curdos não é nova.

UMA HISTÓRIA DOS ANOS 70

O logro dos curdos, abandonados à sua sorte depois de animados pelos EUA a insurgir-se, trouxe à baila um episódio semelhante ocorrido há cerca de duas décadas. Eis em poucas palavras a história verídica contada pelo relatório Pike, um documento secreto divulgado em Abril pelo Washington Post e que desde então corre mundo.

Em Maio de 72, o Xá do Irão, envolvido num conflito fronteiriço com o Iraque, pediu aos EUA que armassem e financiassem uma insurreição dos curdos iraquianos para criar dificuldades ao regime de Bagdad. O regime do Xá era na altura o principal apoio da CIA na região e Nixon e Kissinger aprovaram a proposta. Foi elaborado um plano de acção clandestina, no custo de 16 milhões de dólares, que abasteceu as guerrilhas curdas com armas fornecidas por Israel.

Durante três anos, os curdos combateram o exército iraquiano, sofrendo terríveis baixas; uma proposta do governo iraquiano para a negociação dum estatuto de autonomia foi por eles rejeitada, a conselho da CIA, a qual ao mesmo tempo os impedia de lançar uma ofensiva em larga escala. A estratégia consistia, explica o relatório Pike “em manter as hostilidades a um nível que minasse os recursos” do Iraque.

Entretanto, decorriam contactos entre o Irão e o Iraque para pôr termo ao conflito fronteiriço. A CIA, conhecedora do facto, não só não informou a guerrilha curda como a incitou a prosseguir o combate, para dar mais trunfos ao Xá na negociação com o governo iraquiano. Em 9 de Março de 75, foi assinado o acordo de paz entre os dois beligerantes; de imediato, todo o apoio aos curdos foi cortado e estes sofreram os efeitos duma vasta operação de aniquilamento lançada pelo exército iraquiano. De 200 mil curdos que procuraram refúgio do lado iraniano da fronteira pelo menos 40 mil foram entregues ao Iraque. “Estamos sob a ameaça de destruição completa — queixava-se à CIA o comandante curdo Barzani — e não nos foi dada qualquer explicação para tudo isto…”

A preocupação dos americanos não ia porém para as perdas de vidas humanas causadas pelas suas manobras. Apenas lhes interessava manter oculta a sua duplicidade. “Se não fizermos nada para ajudar os curdos — escrevia em 10 de Abril de 75 o chefe da CIA em Teerão — podemos estar certos que não se deixarão massacrar sem contarem a sua tragédia ao mundo inteiro”. O silêncio foi comprado barato. O chefe da guerrilha, Barzani, gravemente doente, foi levado secretamente para tratamento nos EUA mediante o compromisso de não fazer qualquer declaração hostil ao governo americano. Aí morreu em Março de 1979. Coube ao seu filho Massud Barzani conduzir os curdos na nova insurreição de há dois meses, mais uma vez apunhalada pelas costas pelo governo americano.

PODE SER REVOLUCIONÁRIO QUEM NÃO FOR ANTI-IMPERI ALISTA?

Não tem sido fácil a nossa posição face a esta guerra. Mesmo na área da esquerda, a nossa recusa a fazer coro contra o “novo Hitler’’ provocou reacções de hostilidade. Fomos acusados de “maoísmo”, “trimundismo”, “frentismo”, ou seja, encobridores de burguesias sanguinárias a pretexto da unidade anti-imperialista. A verdade, porém, é que nunca pretendemos encontrar quaisquer méritos no ditador Saddam Hussein, nem antes nem durante a guerra; apenas recusámos qualquer posição que atenuasse no mínimo o nosso antagonismo com o agressor imperialista, porque essa era a questão-chave para um alinhamento de esquerda.

E se isso nos pôs temporariamente em confronto com o estado de espírito de grandes massas trabalhadoras no nosso país, em contrapartida alinhou-nos com as massas árabes e os deserdados do Terceiro Mundo. Esses nã0 tiveram dúvida de que o imperialismo é o seu carrasco.

Pode haver quem pense que a nossa posição foi um quixotismo, uma vez que não teve nem podia ter qualquer influência prática sobre o desenrolar dos acontecimentos. Não pensamos assim. Novos embates semelhantes vão surgir entre o imperialismo e os povos.

Estar em todas as circunstâncias pela derrota do campo imperialista, não deslizar para a ambígua crítica aos excessos do imperialismo que acaba por fazer concessões à ideologia imperialista, é o essencial para dar vida a uma nova corrente de esquerda, comunista e revolucionária. Todo o corte com o nacionalismo burguês que não assente no alicerce firme do anti-imperialismo arrisca-se a ser reaccionário.

Política Operária nº 30 Mai-Jun 1991

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