Basta de penitência!

Francisco Martins Rodrigues

Participei no dia 24 de Abril num debate na Associação i Moradores de Vilar, no Porto. A iniciativa dos companheiros do Porto foi oportuna, o debate foi animado, o ambiente correcto e caloroso. Mas não me parece que o que ali se disse sobre a experiência de 1974-75 ajude a esquerda revolucionária a recompor-se da crise que atravessa. A tendência dominante das intervenções foi a condenação dos vícios da acção política organizada e a exaltação das supostas virtudes do apartidarismo, da autonomia, do espontaneísmo.

Houve quem lamentasse o tempo perdido na lufa-lufa do praticismo desses anos. Exaltou-se a “sabedoria” dos apartidários que já nesse tempo se limitavam às comissões e não caíram no “logro” dos partidos. Repudiou-se o anterior “maniqueísmo” e “obreirismo” que reduzia tudo à luta entre proletariado e burguesia. Sobretudo, denunciou-se o negregado centralismo democrático, a disciplina, os chefes, que esmagavam a individualidade de cada um, em nome das exigências da “revolução”.

Enfim, repetiu-se a cena já habitual, de cada vez que se encontram militantes desiludidos da extrema-esquerda: desfia-se um rosário de lamentações sobre os “crimes” das organizações, que teriam sufocado o pensamento livre, “queimado” centenas de activistas, cortado as pernas ao movimento popular.

E o que conquistaram estes sobreviventes do esquerdismo, agora livres das cadeias ideológicas e organizativas? Trocaram as ilusões partidárias por novas bandeiras: a criação de uma “cultura de subversão”, a abertura de “espaços de utopia”, a liberdade “pluralista” de não se vincular a uma corrente política ou ideológica definida, e até, porque não? o aperfeiçoamento individual como primeiro passo para um mundo melhor… Há que dizer que, como resultado, é pouco, muito pouco.

*

Sobretudo, é preciso dizer que esta “libertação ” é uma regressão. Porque, em vez de fazer o levantamento sistemático dos erros políticos concretos cometidos nesse tempo, lança pela borda fora os princípios que aprendemos do marxismo e do movimento de massas, afinal a única arma de que com tanto trabalho nos dotámos para ser, apesar de tudo, a extrema esquerda deste país!

É assim que o desencanto com o passado toma por vezes as dimensões de uma verdadeira doença. A ponto de companheiros com responsabilidades assumidas perante a esquerda se sentirem obrigados a fazer lamentáveis autocríticas públicas sobre as suas anteriores convicções “totalitárias”! Não notam que estão a renegar, diante da direita triunfante, o que de melhor teve a sua prática social: o alinhamento com a vanguarda do movimento popular, fossem quais fossem os equívocos dos modelos então seguidos.

Se formos ao fundo desta atitude “autocrítica”, ela corresponde a um “desarmamento unilateral” perante a pressão ideológica da burguesia. De facto, para os donos do sistema não é suficiente ter-nos derrotado politicamente; querem a nossa rendição ideológica. E abdicai da nossa razão fundamental em tudo o que fizemos contra o sistema é já um começo de rendição.

É claro que erros foram cometidos, e bem graves, senão não estaríamos hoje nesta triste situação. A esquerda revolucionária sofreu duma enorme imaturidade, não só pela sua formação tardia e escasso progresso teórico nos anos do fascismo, mas sobretudo por se encontrar enredada na agonia do “socialismo real”, russo, chinês, albanês, cubano… Dessa escola abortiva recebeu uma série de taras: uma noção de ditadura do proletariado que negava, de facto, a democracia socialista; a concepção do partido comunista como um aparelho monolítico de controlo; uma atitude dogmática e estagnada perante a teoria marxista.

Mas recebeu também, e apesar de tudo isso, os exemplos mais avançados de luta contra a reacção e o imperialismo deste século, que nos foram deixados, queiramos ou não, pelas revoluções desses países. Por isso é tão importante saber separar o que na nossa herança foi positivo do que foi negativo, E perceber que a derrocada do “campo socialista” não desmentiu mas confirmou o marxismo, o leninismo, a necessidade de organização dos revolucionários em partido comunista para a luta pelo derrubamento do regime capitalista, a necessidade da ditadura do proletariado sobre a burguesia como única alternativa à ditadura da burguesia sobre o proletariado.

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Apetece perguntar: como é possível que o tumulto de 74-75, com a sua riqueza de lutas sociais e partidárias não tenha ensinado mais do que estas pobres noções metafísicas sobre o bom espontaneísmo e o mau autoritarismo? Pois ainda é preciso repetir, neste fim de século, que a “superação” das lutas partidárias é um absurdo porque os partidos são a forma superior de organização das classes para a luta entre si e quem renuncia a organizar-se fica fora de combate? Ainda é preciso demonstrar que em momentos de luta de classes aguda, quando se exigem decisões imediatas envolvendo grandes massas, a centralização, a disciplina e a delegação de poderes são inevitáveis? Ainda é preciso demonstrar que a acção descentralizada dos conselhos e comissões, o autogoverno dos produtores, só poderá impor-se após uma luta implacável para abater a resistência da burguesia, e que nessa luta o papel do partido comunista é insubstituível?

O desafio que se nos coloca não é voltar costas à acção partidária comunista a grande conclusão que nos é inculcada pela burguesia – mas descobrir soluções novas para a combinação do centralismo com a democracia, para as relações do partido comunista com os outros órgãos populares, para a elaboração de tácticas políticas que sirvam efectivamente o objectivo estratégico revolucionário.

A ideia de que todas as noções antigas da luta de classes estão ultrapassadas e não teriam já lugar no mundo de hoje é uma ilusão de óptica produzida pelo intervalo que atravessamos, entre dois ciclos da revolução mundial. Um ciclo terminou, um outro está prestes a começar; daí a noção ilusória de paragem e de “fim da história”. Não tardará muito que os desiludidos do comunismo se apercebam de que a velha história continua e os antigos valores adquiridos nos fazem falta.

Mais infantil ainda o argumento de que as pessoas não estariam à altura de lutar pela reorganização social enquanto não superarem os seus defeitos. Acaso não vimos em 74 como a agitação revolucionária “aperfeiçoou” no espaço de semanas para a luta política dezenas de milhares de pessoas antes mergulhadas na apatia; as mesmas pessoas que, depois da vitória da direita, voltaram a transformar-se em seres desencantados e apáticos?

*

Que os jovens agora despertados para a actividade nas movimentações recentes julguem ingenuamente estar a superar a velha política dos partidos e a descobrir outras formas de luta contra o sistema, novinhas em folha, fora da política, compreende-se; é sinal de imaturidade; aprenderão à sua própria custa. Agora o que é ridículo é que activistas com vinte anos de presença na luta de classes descubram de repente que a política é feia, que os partidos não prestam e que o mal vem da “arregimentação”. A burguesia não pode ouvir nada mais agradável.

Duma coisa estou certo: esta febre apartidária e “anti-autoritária” é uma reacção de fuga que não pode durar muito. Os nossos desenganados da extrema-esquerda drogam-se com utopias para fugir às duras exigências que nos coloca a ofensiva capitalista. É uma moda passageira, em tempo de vitória da direita e de derrota da esquerda. Amanhã, quando novos embates de classe se perfilarem no horizonte, aí veremos os fundamentalistas apartidários correr, como toda a gente, para um partido qualquer, para darem eficácia à sua intervenção. Oxalá não façam a opção errada, depois desta desnorteada travessia do deserto.

Dá vontade de lhes dizer: Já chega de penitência! Já basta de hara-kiri colectivo! Vamos cuidar de clarificar e tirar a limpo as lições da luta de classes em que estivemos envolvidos. Para que numa nova crise, reaccionários, liberais e reformistas encontrem pela frente uma verdadeira esquerda revolucionária em Portugal!

Política  Operária  40, Mai-Jun 1993

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