Não querem o marxismo? Ficamos com ele!

Francisco Martins Rodrigues

Que espaço sobeja para os marxistas-leninistas quando aqueles a quem criticavam decidem renunciar de vez ao marxismo e aderir ao capitalismo? Que vão fazer agora os “extremistas M-L”, se já nem sequer têm o revisionismo moderno para desmascarar? Isto é o que perguntam com ironia os que gozam o espectáculo do “fim do marxismo” comodamente instalados no campo da social-democracia. Se até agora já nos olhavam como dogmáticos, a partir de agora consideram-nos como lunáticos inofensivos.

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E o caso é que estão todos seguríssimos das suas convicções. Mário Soares deu o mote ao falar no “colossal embuste” do comunismo. Vilaverde Cabral regozija-se pela “redução a cinzas da mais totalitária ideologia dos últimos 150 anos” (de que ele se dizia seguidor ainda há uns dez anos!); Eduardo Lourenço assegura-nos que desde há meio século esperava a “derrocada da utopia” e vê nos marxistas “os últimos seguidores patéticos duma religião defunta”; João Carlos Espada é de opinião que “o comunismo, como ideologia pertence já definitivamente ao passado”. “Agora o debate está encerrado”, remata Vítor Constâncio. “Não se trata já de substituir o capitalismo como modo de produção mas de o corrigir por métodos democráticos. A partir de agora, tudo se concentrará sobre a melhor forma de assegurar a vitalidade e o aperfeiçoamento das sociedades liberais de capitalismo avançado”.

“Reduzir a cinzas”, “definitivamente”, “religião defunta” — as expressões são eloquentes. Toda esta gente se sente como se lhe tivesse saído a sorte grande. É transparente o alívio que lhes vai na alma: “Finalmente, a exploração do homem pelo homem é outra vez reconhecida universalmente como faceta inevitável da natureza humana. Já não tenho nada a recear. E se todos se venderam, quem pode agora acusar-me de vendido?”

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Mas há em todo este regozijo uma confusão que tem o seu quê de cómico, Já foi dito e demonstrado centenas de vezes que os regimes de Leste nada tinham de marxista, nem de comunista, nem de revolucionário. Assentavam na propriedade estatal e reivindicava-se de Lenine e do socialismo, mas não tinham chegado, a não ser nos breves momentos iniciais de 1917, a instaurar a ditadura do proletariado. Eram exemplares condenados de “socialismo” burguês.

Assim, o que entrou em derrocada não foi a “utopia comunista”, foi a utopia do revisionismo a fingir de marxismo, a utopia do capitalismo estatal a fingir de socialismo. Derrocada inevitável; não se podia manter combinadas por muito mais tempo as normas capitalistas de produção com a economia estatizada, o namoro ao imperialismo com as loas a Lenine, a reabilitação da pequena burguesia com a adulação da classe operária.

Cada uma das “audaciosas inovações criadoras” introduzidas pelos partidos do Leste ao longo dos últimos trinta anos, só agravava a contradição e tornava mais insustentável o equilíbrio. Cada novo passo em direcção às exigências da burguesia exigia de imediato um outro passo. Assim os dirigentes revisionistas vieram caminhando, de “vitória” em “vitória” até à capitulação final — que era o que no fundo sonhavam: ganhar a aprovação da burguesia.

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Ora acontece que esta rendição dos revisionistas aos valores da igualdade democrática entre capitalistas e assalariados nos liberta duma gigantesca fraude. Os nossos heróis percebem finalmente que Marx foi um visionário, que Lenine foi um ditador, que a economia sem o jogo do mercado não funciona e que o capitalismo pode ser humanizado a pouco e pouco? Óptimo! Não seremos nós a lamentá-lo.

Deixam-nos o marxismo-leninismo como rebotalho imprestável? Pois aceitamo-lo! Acham a ditadura do proletariado um chavão vergonhoso, antidemocrático? Ficamos com ela! Não querem a revolução violenta porque é “terrorista”, a expropriação da burguesia porque é “totalitária”, o internacionalismo operário porque é “antipatriótico”? Ficamos com tudo !

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Em nossa opinião, ainda é cedo para deitar foguetes pelo reinado universal e eterno da vossa democracia, doseada a cem por cento para capitalistas e a dez por cento para operários. E mesmo, se virmos as coisas a longo prazo, é o campo da revolução que vai ganhar com a vossa renegação. Vivemos ao longo do último meio século uma exasperante agonia, durante a qual o movimento operário veio rebaixando a sua identidade, os seus valores, as suas ambições, amarrado ao lento afundamento dos revisionistas, que lhes garantiam que cada capitulação era para passar mais depressa e mais suavemente ao socialismo.

O movimento operário foi assim reduzido a um esfregão, sem confiança em si mesmo, sem ódio ao inimigo. A partir de agora, perante a consumação desta grande traição histórica, vai ser forçado a procurar de novo o seu caminho. E nessa  altura, o marxismo e o leninismo que vocês agora  nos deixam com tanto desprezo tornar-se-á de novo uma arma demolidora.

Política Operária nº 24 Mar-Abr 1990

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