Mortos de segunda

Tiro ao Alvo

Os mortos da Roménia, como os de Tienanmen, foram min­guando: começaram em 70 mil, baixaram para 10 mil, dois mil, e acabaram em 763, segundo as contas dum ministro francês, reprodu­zidas pelo Libération de 28 de Dezembro. Os mortos do Panamá, pelo contrário, começaram por escassas dezenas, quase uma brinca­deira, subiram às centenas, e acabaram calculados pela Time em dois mil. Ainda estamos para saber ao certo quantos foram.

É claro que, em princípio, toda a gente está contra a violência, “venha donde vier”; mas, na prática, a máquina da comunicação mundial foi programada para criar sobressalto, solidariedade, com­paixão pelos romenos, e indiferença ou desprezo pelos panamianos. E o motivo é óbvio: convinha que o horror pelos crimes do ditador Ceausescu pusesse na sombra os crimes do fascista Bush.

Ou, noutros termos: cada morto romeno era politicamente útil; cada morto panamiano era um estorvo. Daí o estranho fenómeno dos mortos da Roménia, mortos de primeira, serem menos do que pareciam, enquanto os da cidade de Panamá, mortos de segunda, serem mais do que aparentavam.

Se tivermos em conta esta diferença de categorias percebemos por que é que a “manifestação de desagravo” de quatro gatos pingados à porta da embaixada da Roménia em Lisboa teve direito a cobertura da televisão e dois aviões foram postos à disposição duma comissão incógnita de socorros pelo ministro Eurico de Melo, enquanto a experiência com pleno êxito dum novo bombardeiro americano contra os habitantes inocentes da cidade do Panamá não suscitou nem horror nem comissões de socorros, nem manifestações de protesto das Zitas, das Natálias e dos Espadas.

E a diferença de categorias não se aplica só aos mortos — serve também para aferir o peso dos vivos. É assim que os analistas de serviço se comovem sobre a ração de leite dos húngaros mas se enfadam quando lhes falamos das barracas e dos bandos de pedintes das nossas cidades; percebem que o “comunista” Ceausescu, com o seu palácio dourado, não passava dum ditador maníaco, mas não se riem quando Cavaco, depois de embolsar 466 contos, garante que é democrata; vibram com os direitos nacionais da Estónia mas não com os da Irlanda; exultam com a revolta dos alemães de Leste contra a sua tenebrosa polícia secreta mas não se indignam com os conselheiros americanos a ensinar aos esquadrões da morte torturas mais horrorosas em El Salvador.

Os ignorantes que não distinguem as categorias não percebem como é que os mesmos que há meia dúzia de anos elogiavam Ceausescu, agora puderam aplaudir em delírio a sua queda. Mas tudo está certo. É que se a Roménia, antes, era um bom cliente dos bancos do Ocidente e a sua dissidência era útil para desgastar a direcção soviética, agora os papéis tinham-se invertido: o governo romeno resistia à perestroika e já não queria dinheiro emprestado do Ocidente; logo, Ceausescu passou de estadista de primeira a ditador de segunda: “Fora o Drácula Ceausescu!”

Em 1933, Gorki indignava-se pela forma como o nazismo em ascensão, esse “excremento histórico”, se apoiava no “esplendoroso florescimento da mediocridade, baixeza e estupidez humanas”. O tempo do nazismo passou. Mas será menos terrível este concentrado de fria ferocidade imperialista que hoje faz florescer de forma ainda mais esplendorosa do que no passado a mediocridade, a baixeza e a estupidez na cabeça de centenas de milhões?

Francisco Martins Rodrigues

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