O pacto Hitler-Staline foi a causa da guerra?

Francisco Martins Rodrigues

 O cinquentenário do pacto germano-soviético foi pretexto para novas variações em torno do velho tema: ao partilhar traiçoeiramente a Polónia com Hitler, Staline ter-se-ia tornado responsá­vel pela guerra. Conclusão: o tota­litarismo de esquerda é igual ao de direita, e a democracia capitalista é que é boa…

O jornalista do Expresso (19 de Agosto) dedica-se com tal entu­siasmo a pintara “ambição desme­dida dos dois ditadores” que se esquece mesmo de mencionar o pacto de Munique. E na Vida Soviética de Agosto/ Setembro, o comentador V. Kuznetsov, ali­nhando servilmente no coro democrático como manda a peres­troika, escreve que “Hitler e Sta­line apostavam na força. Todos sabem em que se traduziu tal aposta para a Europa”.

Atingiu-se assim finalmente o consenso universal quanto à iden­tificação dos culpados da guerra. Staline teria sido igual a Hitler. Mas nem por isso é menor a mistificação.

FALSI FICADORES DA HISTÓRIA

O pacto Hitler-Staline foi o fim e não o começo de uma longa história. Desde 1934 a Inglaterra e a França vinham rejeitando os esforços insistentes da União Soviética para uma frente anti­fascista e deixavam o campo livre às potências fascistas para engolirem a China, a Etiópia, Áustria,

 Espanha, Checoslováquia… O pacto germano-soviético foi a reacção ao pacto tácito entre as democracias e o fascismo. (Ver cronologia).

Em segundo lugar, quando se lamenta a Polónia “retalhada” e os países bálticos “anexados”, omite- se que a União Soviética apenas reocupou em 1939-1940 os territó­rios que lhe tinham sido arranca- dos vinte anos antes por imposição da Inglaterra e da França, com o objectivo de criar um tampão antibolchevista.

AS CULPAS DE STALINE

Não lembramos estes factos para elogiar Staline, cujo regime anti-operário de capitalismo de Estado triunfava nessa época na União Soviética, com todo o seu cortejo de horrores. E também não defendemos a política externa de Staline.

A tentativa do dirigente sovié­tico de através do namoro às potências democráticas  e à social-democracia (as Frentes Populares) não evitou a guerra e deu todos os trunfos ao imperialismo ocidental. Staline apoiou-se na tábua podre da burguesia “demo­crática” porque já era ele próprio um chefe burguês e receava apos­tar na luta revolucionária da classe operária.

Certamente, não estava ao alcance de Staline evitar o conflito entre a matilha de lobos capitalis­tas. Mas se ele fosse ainda comu­nista como se intitulava, teria orientado os operários da União Soviética e de todo o mundo para transformar a guerra imperialista numa onda de revoluções, em vez de os mobilizar para a defesa da “democracia” e da “pátria”. A política de ziguezague que seguiu, primeiro a reboque das “democra­cias”. depois a reboque de Hitler (1939^11), confundiu e desorgani­zou as fileiras comunistas interna­cionais e foi impotente para evitar a guerra.

A URSS, VÍTIMA DE AGRESSÃO

Mas estes factos não podem servir para ilibar os únicos respon­sáveis pela guerra mundial. E um facto indesmentível que as demo­cracias ocidentais engordaram o bloco fascista da Alemanha/Ja­pão/Itália, na esperança de que ele aniquilasse a União Soviética. E é um facto que o governo soviético só assinou o pacto com Hitler como manobra de último recurso, para tentar desviar ou adiar o assalto nazi que todo o mundo capitalista lhe lançava para cima.

As acusações de que “Staline sempre procurou um acordo com Hitler”, queria partilhar o mundo com Hitler”, etc. inventadas por Trotsky na fase final da sua carreira, e desacreditadas durante muitos anos devido ao esforço de guerra soviético, que salvou o mundo do nazismo ao preço de 20 milhões de mortos, estão hoje a ser promovidas a verdades históricas, para lavar o imperialismo.

IMPERIALISMO, O FOCO DA GUERRA

Há quem pergunte: mas se na URSS vigorava um regime ditato­rial anti-operário, como acreditar que Staline estivesse interessado em evitar a guerra? A razão é sim­ples: a URSS, ao contrário das outras potências, não era (nem é ainda hoje) um país imperialista, dominado por monopólios em busca de mercados, fontes de matérias-primas e colocação para os seus capitais. A URSS entrara sob a chefia de Staline num abor­tivo regime de capitalismo de Estado, que só nos nossos dias se está a decompor para abrir lugar ao pleno florescimento capitalista.

A URSS teve, pois, pela sua própria natureza económica e social, uma atitude defensiva face à guerra. Os verdadeiros cúmpli­ces de Hitler foram os democratas e social-democratas que hoje lan­çam as culpas sobre Staline para esconder que a fonte da guerra está no imperialismo, seja ele fas­cista ou “democrata”.

Política Operária nº 21, Set-Out 1989

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