Staline em questão

Francisco Martins Rodrigues

PARA A CORRENTE marxista-leninista nascida nos anos 60, a defesa de Staline era a pedra de toque da fidelidade à revolução.

Contra Staline tinham estado desde sempre as correntes burguesas de todos os matizes, desde a extrema-direita à social-democracia. Contra Staline se tinham levantado os modernos dirigentes soviéticos, no preciso momento em que descobriam a “via pacífica para o socialismo” e a cooperação com os imperialistas para a “defesa da paz”. Os “crimes de Staline” eram (como hoje são) o argumento infalível para sucessivas gerações de arrependidos do comunismo fazerem agulha para os “valores democráticos ocidentais” e se porem ao serviço da burguesia. Podia haver melhor prova de que Staline pertencia ao campo da revolução? Seguir as pisadas de Staline era manter a linha da revolução de Outubro, a vigilância operária de classe. Os erros que Staline pudesse ter cometido eram secundários.

PORÉM, À MEDIDA que tentávamos apropriar-nos da tradição do bolchevismo ia-se acumulando a evidência de que não se tratava de erros: o stalinismo era diferente do leninismo. E não bastava Staline ser atacado pela direita para ter razão.

Não era leninista a política das Frentes Populares, a dissolução da Internacional, a teoria da democracia popular, a luta pela paz no lugar da luta pela revolução. Não eram leninistas os fuzilamentos sumários de oposicionistas, a asfixia “monolítica” da vida interna do partido, a simplificação escolástica do marxismo. Não eram leninistas as concessões e compromissos que, sob a aparência de uma férrea dureza ultrabolchevique, tinham preparado a transição da União Soviética para o capitalismo de Estado e do movimento comunista para o revisionismo.

O DILEMA a que a corrente marxista-leninista nasceu aprisionada — ou defender Staline ou cair no oportunismo — perdeu para nós o sentido à medida que o stalinismo se perfilou nos seus reais contornos de etapa intermédia, centrista, contraditória, na lenta degeneração burguesa da URSS e do movimento comunista.

E a sua aplicação moderna serviu-nos de contraprova: em vez do anunciado “retorno ao leninismo”, viu-se como os chamados partidos marxistas-leninistas, sob a fachada de um anti-revisionismo virulento, de um obreirismo radical e de uma disciplina à Staline, não foram além de uma tímida política mista operária/pequeno-burguesa que os arrasta de novo para o grande mar do reformismo.

A partir daí já não podia haver dúvida de que a resposta ao anti-stalinismo de direita não se conseguia erguendo trincheiras à volta de Staline mas empreendendo a sua crítica pela esquerda.

TAREFA INADIÁVEL, porquanto a questão de Staline não é meramente científica. Nenhum programa que mereça o nome de comunista pode ser traçado na época actual sem uma tomada de posição clara sobre a natureza social, política e ideológica do stalinismo. Só essa crítica pode arredar os obstáculos que há meio século bloqueiam o renascimento do marxismo, porque só ela pode libertar a classe operária da incerteza em que caiu quanto à sua capacidade para fazer uma revolução autenticamente socialista.

Neste número de Política Operária iniciamos essa reavaliação de Staline e do stalinismo. Não à maneira dos liberais, que procuram pretextos para se converterem à ordem estabelecida, com mais ou menos tintas reformistas. Não à maneira dos revisionistas, que ocultam, sob a cortina do “culto da personalidade”, o nascimento do capitalismo de Estado. Mas à maneira revolucionária marxista, que se inspira nos interesses da classe operária para levar sempre mais longe o combate ao capitalismo. Os leitores dirão se o conseguimos.

Editorial de Política Operária nº 7, Nov-Dez 1986

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