Diálogo sobre o 25 de Abril

Francisco Martins Rodrigues

—           Porquê essa vossa ideia fixa de pôr defeitos no 25 de Abril, insistir em que não foi uma revolução, etc.? Vocês acabam por fazer causa comum com os reaccionários, que não suportam o ataque aos seus privilégios pelo 25 de Abril.

—           A questão é essa: será que a ordem antiga foi realmente destruída ou apenas eclipsada temporariamente para “obras de beneficiação”? Pode falar-se em “destruição da ordem fascista” quando meio século de ditadura e cinco séculos de império colonial (dois recordes mundiais!) se desmoronam ao mesmo tempo e os seus chefes, ministros, agentes, capangas, não sofrem uma arranhadela? O 25 de Abril foi uma revolução ou um passe de ilusionismo?

—           Vocês lamentam então que não tenha havido uma revolução sangrenta? Preferiam que tivesse havido em Portugal os mesmos horrores que nos outros países?

—           A violência e os horrores são sempre aqueles que os reaccionários impõem quando são desapossados. Não está na nossa mão impedi-los. Uma coisa é certa: se fizermos economia de sacrifícios num momento propício à revolução, iremos encontrá-los mais adiante de novo, e talvez agravados.

—           Significa isso que vocês acreditam que a luta violenta que nos foi poupada no 25 de Abril surgirá inevitavelmente no futuro?

—           Sem dúvida.

—           De qualquer maneira, se ao povo tivesse faltado o apoio do MFA talvez ainda hoje perdurasse a ditadura.

Talvez, ou talvez não. O que importa é que o MFA, adiantando-se a tomar conta da situação explosiva criada pela derrota iminente nas guerras coloniais, oferecendo-nos numa bandeja aquilo que só nós podíamos resolver, privou-nos ao mesmo tempo da revolução que era preciso fazer. Salvou-nos mas estendeu uma ponte por onde hoje avançam tranquilamente os tubarões do antigamente e os seus filhos e netos. E estamos ainda mais impotentes para os deter do que há 20 anos porque agora apresentam-se legitimados pela “democracia”.

—           Mas pode-se ignorar a envergadura revolucionária do colossal movimento de massas que ocupou empresas, terras e casas, saneou fascistas, invadiu as ruas?

—           Foi de facto um movimento colossal pela dimensão mas infantil no que toca ao discernimento da luta de classes. A sua envergadura revolucionária foi tão modesta que nunca provocou a ruptura do poder, ou sequer uma ruptura antagónica no interior do MFA. Por isso mesmo é glorificado nos meios reformistas: não pelas suas potencialidades revolucionárias mas pela sua moderação bem comportada.

—           Então vocês vão alhear-se das comemorações deste 15º aniversário da libertação?

—           De maneira nenhuma, até porque o fascismo, fomos nós também que o derrubámos com a luta na clandestinidade. Mas vamos às manifestações oficiais para alertar os trabalhadores contra a hipocrisia dos democratas que seguraram o poder em 75 para o entregar intacto à burguesia e agora tomam pose de vítimas e mártires da revolução; da revolução que não houve porque eles a sabotaram.

—           Seja como for, deveriam ter alguma gratidão pelos capitães de Abril que vos deram a possibilidade de defender livremente as vossas opiniões.

—           Não se trata da nossa gratidão pessoal; trata-se da luta da classe operária para se emancipar da opressão da classe capitalista. E essa luta foi mistificada. Para nós, a lição do 25 de Abril só será dada como aprendida quando os operários sentirem vergonha por terem batido palmas à aliança Povo-MFA, cantado “A Portuguesa” e saudado a bandeira nacional. Em 74/75 os operários deviam estar a lutar contra a grande burguesia, arredando do caminho a pequena burguesia “democrática” que se metia de permeio para evitar o ajuste de contas.

—           Isso não será da vossa parte uma exibição gratuita de radicalismo que não conduz a nada ?

—           Pelo contrário. O nosso movimento operário sufoca no ambiente bafiento que lhe dão a respirar há mais de 50 anos o PCP, os democratas, os socialistas… — o reformismo pequeno-burguês em todas as suas variantes. Nós vamos dizer as vezes que for preciso que o celebrado “exemplo português” foi um espantoso exemplo de imaturidade e atraso político do movimento operário, que não consegue desenganchar-se da tutela “democrática” burguesa e por isso continua a ser carne de canhão para o capital. O 25 de Abril só será positivo se ficar como lição para nunca mais voltarmos a cair em fados de lágrimas e cravos.

Política Operária  nº 20 Maio-Junho 1988

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