Como hão-de ver-se livres da revolução se não podem passar sem a classe operária?

Francisco Martins Rodrigues

(intervenção na Festa da “P.O.”na Voz do Operário)

“Política Operária” — já o nome desta revista causou logo estranheza. Que é isto de “política operária”? A política pode ser operária? Política não é para todos? Aqueles que ainda se alinham pela esquerda (e nós sabemos que já não são muitos) encolhem os ombros com dó e passam adiante; “Não vale a pena perder tempo com estes últimos dinossauros do esquerdismo”.

Se, mesmo assim, conseguimos a proeza de estar hoje aqui a festejar três anos de publicação regular, é porque ainda existe um punhado de gente para quem esta ideia da política operária diz qualquer coisa.

OPOSIÇÃO EM CRISE… OU PODRE?

Uma coisa pelo menos é certa: o nosso “esquerdismo” já não soa tão disparatado como há três anos. Muitos daqueles que nos criticavam por não compreendermos a “dinâmica de esquerda” contida nas candidaturas de Lourdes Pintasilgo ou de Mário Soares, têm hoje que reconhecer que o seu entusiasmo  era ingénuo e que nós tínhamos alguma razão em não embarcar na euforia.

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Porque a verdade é que, de esperança em esperança, chegámos à meta para onde vínhamos a ser empurrados desde o 25 de Novembro: Portugal tem hoje finalmente um bom governo para os ricos. São distribuídos os milhões da CEE, multiplicam-se os negócios, já há quem chame a isto a Califórnia da Europa. Quem tiver um capital e desembaraço enriquece de certeza. Os empresários estão encantados: a economia, tanto tempo emperrada, está a girar.

É claro que a prosperidade tem as suas contrapartidas: os trabalhadores são despedidos, perdem os direitos adquiridos e voltam j depois como eventuais; os salários descem, o horário de trabalho sobe, as bolsas de miséria alastram. Ontem ainda, devem ter lido nos jornais, mais uma criança teve um braço arrancado por uma máquina; mas o ministro já garantiu que está tudo sob controle e que são só 134 crianças que trabalham…

Talvez tenham visto um folheto do PEDIP que foi por aí distribuído gratuitamente nos últimos dias; fala-se lá no exemplo de Felgueiras: no último ano, o concelho produziu 40 milhões de contos de sapatos, metade da produção nacional; o salário médio dos operários do calçado é de 21 contos; e Felgueiras regista esta particularidade interessante, ainda segundo o folheto: é o concelho onde é maior a taxa de insucesso escolar, porque as crianças se ocupam a coser sapatos para as fábricas.

Passo sobre os pacotes laboral e agrário, a lei das rendas, etc., de que têm decerto ouvido falar nos últimos tempos. O que interessa registar é que esta situação nova está a produzir um ambiente social também novo: hoje já se podem voltar a fazer as festinhas de milionários, como nos saudosos tempos do Américo Tomás; Hermano Saraiva, o novo director do Diário Popular, pode declarar tranquilamente que Salazar “foi um génio”; e um cronista da nova vaga desabafa enfastiado no Independente que “já não há pachorra para ouvir falar nos salários em atraso”…

Ora bem: em face desta nova situação, está a oposição em pé de guerra, a mobilizar a massa operária para deitar abaixo o governo dos capitalistas? Nem por sombras. A Oposição democrática tem mais em que pensar; está em crise! Poder-se-á dizer que a crise do PS tem as suas causas próprias, que nada têm a ver com a crise do PCP, por exemplo, ou com a do PRD, ou mesmo com a do MDP e da UDP. Mas o certo é que, todas juntas, formam a grande crise da oposição, a crise da esquerda real.

Será que estão em crise pelo remorso do que não fizeram? Nada disso. A crise tem uma origem muito menos nobre: durante uma dúzia de anos, a “esquerda” no poder e a “esquerda” na oposição, o PS, o PCP, etc., dedicaram-se com todas as forças a açaimar o movimento operário porque era preciso restabelecer a confiança dos investidores para reanimar a economia nacional. Mas tão bem se houveram com a tarefa, que hoje o capital já lhes pode dispensar os serviços e governa em família com o Cavaco e a sua panelinha, para durar.

Daí a crise: os reformistas que se julgavam indispensáveis, como mediadores das massas trabalhadoras, vêem-se postos de lado e caem no pessimismo por não saber quando voltarão as pastas ministeriais, os cargos de gestores, a boa vida: “partido onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Esta nossa análise, é claro, vai parecer grosseiramente redutora às pessoas sérias que se ocupam da política. Mas não deixa de ser exacta. No lugar onde devia estar a oposição operária e popular ao regime, existe hoje um grande vazio. Por isso mesmo, é aí que nos queremos instalar com a nossa Política Operária: pequenos nas bem entrincheirados e a fazer fogo sobre esta droga.

OS OPERÁRIOS NÃO PERCEBEM

Dizem alguns dos críticos que o nosso radicalismo pode ser “simpático” mas que, de qualquer forma, não temos futuro porque estamos voltados para o passado, a sonhar com revoluções operárias que nunca mais se repetirão.

Vamos entender-nos: nós não estamos interessados em tecer grinaldas de flores em memória do “espírito de Abril”, nem acreditamos que se possa fazer reviver a revolução russa à força de orações “marxistas-leninistas”. Não temos vocação nenhuma para o saudosismo. O que morreu, está morto.

E não há dúvida de que as revoluções deste século falharam. Basta ver o apetite com que os capitais afluem a Moscovo, à China, à Hungria, como piranhas, para saber o que foi feito da revolução. Os amigos da ordem têm boas razões para estar eufóricos.

Mas há um pormenor que a contra-revolução não conseguiu resolver: os operários, quer seja em Portugal, na Alemanha, ou em Volta Redonda, no Brasil, continuam a não perceber porque é que hão-de ter a obrigação de sustentar tanta gente. Eles dizem isso mesmo em conversa: “Já se sabe que tem que haver chulos a viver à nossa custa. Mas tantos?… “

E este é um problema para que os ideólogos de serviço não encontram resposta. Dizem que a produtividade é insuficiente, que o trabalho operário já não tem grande valor, que os robots vão passar a fazer todas as tarefas, etc.., mas na cabeça dos operários continham a girar as dúvidas de sempre. E a essas dúvidas não respondem os debates da Assembleia da República, nem os jornais nem os discursos abrangentes do presidente Soares: Porque é que, produzindo, os operários devem ganhar menos que os outros, que calculam, planificam, dirigem, pensam, mas não metem a mão na produção? Porque é que devem trabalhar mais horas que os outros, fazer mais força, sujar-se mais, ferir-se mais, morrer mais que os outros? Porque é que devem levantar-se mais cedo que ninguém, morar nos bairros mais afastados e degradados e viajar 2 e 3 horas em acomodações impróprias para gado? Porque é que devem pôr os filhos a trabalhar aos 14 anos, aos 12, aos 10, enquanto o engenheiro põe o filho a estudar para engenheiro (não consta que os filhos dos engenheiros vão para operários)? Porque é que devem ser vigiados no trabalho como delinquentes, sofrer multas e descontos, ser mandados para a rua por qualquer pretexto ou mesmo sem pretexto nenhum? Afinal, produzir os bens de que todos se sustentam é uma função assim tão reles que mereça só o pior?

As pessoas responsáveis, claro, nem perdem tempo a contestar esta “demagogia redutora e primária”. Mas não julguem que elas se iludem: fingem não dar importância mas sabem que estão sentados em cima duma carga de dinamite. No dia-a-dia, aprenderam a não se alarmar muito porque adquiriram uma convicção, que é no fundo toda a sua filosofia: “Eles aguentam…”. O rebanho vai continuar a deixar-se tosquiar, porque sempre assim foi; as vacas leiteiras vão continuar a deixar-se ordenhar, porque é esta a ordem do mundo.

Só que, às vezes, os escravos fartam-se e atiram as cangalhas ao ar. E lá se vai toda a bela segurança da gente de bem, que foge em pânico ou começa a fazer salamaleques aos esforçados trabalhadores. Já vimos um filme assim, lembram-se? Pois facilitar a aproximação desse momento, aí está o que nós chamamos uma “Política Operária”.

O QUE Aí VEM

Só mais uma palavra: com esta revista queremos equipar-nos com ideias novas para o que está para vir. E duma coisa temos a certeza: o que aí vem não é a prosperidade geral, nem a democracia para todos, nem a superação da luta de classes pela robótica e pela cibernética, nem o fim das guerras pelo entendimento soviético-americano, nem o desarmamento universal, nem uma nova ordem económica internacional, justa e harmoniosa.

Isso é o que eles dizem. Mas o que aí vem é o contrário: são mais Etiópias e Bangla Desh, mais guerras Irão/Iraque, mais Palestinas, mais Vietnames, mais Pinochets, mais quebras da Bolsa, mais capitalismo selvagem, mais doses maciças de estupidez para consumo das massas. O sistema só pode continuar a dar os seus frutos.

Estão sempre a dizer-nos que a partir de agora tudo vai ser diferente, que vai começar o mundo cor-de-rosa, e que os horrores do passado não voltarão a repetir-se. Mas a espiral de afundamento do capitalismo acelera-se mais um pouco em cada dia que passa. E com ela tem que crescer a resistência, as lutas, as insurreições, a busca de um mundo novo para os produtores. É nessa frente que estamos.

Com tudo isto, não estou a dizer que temos uma grande revista. Está ainda muito longe do que queremos. Temos que aprender a pôr mais nua e crua a podridão deste sistema, a ser mais audazes na investigação do que falhou e na previsão do que virá, a ser mais convincentes quando dizemos que os oprimidos têm o direito à revolta, a ajudar melhor à organização da classe operária.

Por isso mesmo, o apelo que aqui vos deixo a terminar: precisamos de mais colaboração, mais notícias, mais assinantes, mais apoio financeiro. Essa é a condição para podermos chegar a mais operários, dobrar a tiragem actual, passar a mensal, levar a mais explorados a certeza de que só há uma política que vale a pena: a política para a sua classe, a política operária.

Política Operária nº 17, Nov-Dez 1988

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